Comunicação e Sociedade do Espetáculo -

    Cláudio Novaes Pinto Coelho

    Paulus Editora
    2006
    210 páginas
    7h 0m
    ISBN-10: 8534926034
    Português Brasileiro

    'Vivemos numa sociedade do espetáculo.' Esta afirmação, cada vez mais freqüente nos ambientes acadêmicos e nos meios de comunicação, quase sempre é feita com o sentido positivo - estamos imersos num mundo de imagens coloridas, criativas, sedutoras, que nos divertem, mesmo quando nos chocam. Inspirado nas reflexões do pensador e militante político francês Guy Debord, este livro contrapõe-se à apologia do conformismo presente na contemporaneidade. Mostra que o emprego da teoria crítica na análise da sociedade, mesmo se fora de moda, é necessário numa época emq ue a raiz do espetáculo está cada vez mais a economia, que se torna abundante para poucos. Ao recorrer à leitura crítica, especialmente das práticas jornalísticas e da publicidade, os artigos procuram mostrar que o culto ao dinheiro, tão típico do capitalismo neoliberal, não é um componente da 'natureza humana', mas uma criação histórica, podendo muito bem desaparecer. (Fonte: Livraria Cultura)

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    A Lógica do Espetáculo: O escravagismo da imagem sobre a sociedad

    Leia completo em: https://medium.com/@coelhoart/a-l%C3%B3gica-do-espet%C3%A1culo-o-escravagismo-da-imagem-sobre-a-sociedade-869b5275ccf6 Um texto sobre mercantilização da subjetividade, hegemonia das imagens, espetáculo nas mídias digitais, urbanismo no capitalismo e as possibilidades de uma cultura autônoma O objetivo do texto a seguir é expor reflexões que surgiram durante a minha primeira leitura da obra A Sociedade do Espetáculo, do cineasta e escritor francês Guy Debord. Assim como criar relações entre suas exposições e eventos e dinâmicas contemporâneas interligadas à era de aplicativos e plataformas no ciberespaço e sua relação com a cultura do local; fazendo também um debate que conta a ajuda da coletânea Cultura, Comunicação e Espetáculo (Coelho e Castro, 2006, Paulus), que me elucidou novos questionamentos referentes aos escritos de Debord e os impactos do espetáculo em nossa nova realidade. Cultura, Comunicação e Sociedade do Espetáculo é o resultado de um trabalho conjunto de um grupo de pesquisadores acerca da clássica obra “Sociedade Espetáculo”, do francês Guy Debord. Mais do que isso, representa também uma conexão, um diálogo com a obra original no contexto de debater, caracterizar e trazer seus conceitos à realidade cultural brasileira na era cibernética. Uma aproximação entre ideias que, mesmo divulgadas em 1967, ainda são mais do que pertinentes em nossa contemporaneidade; mais do que o próprio Guy Debord poderia ter imaginado. O legado deixado pelo autor, com escritos e pela atuação da Internacional Situacionista (abordada em breve), é imenso e gera diversas ferramentas de análise para a realidade vivida. A principal delas, comumente citada, é o olhar crítico sobre os meios de comunicação de massa em suas articulações de espetacularização de atos banais. O que está certo, mas acaba por esconder a crítica social além de Debord, assim como o espetáculo que o autor aponta para o socialismo soviético e o capitalismo (O que não será o foco do texto por falta de pesquisa sobre o assunto). Cena do filme “Eles vivem”, que realiza uma crítica à ideologia capitalista. https://lavrapalavra.com/2017/05/29/they-live-a-violencia-revolucionaria-contra-a-ideologia-dominante/ Da mesma forma, essa constatação trata de forma rasa o que o autor descreve como “Sociedade do Espetáculo”, um estágio da sociedade, fruto do crescimento da mercantilização econômica, que agora também domina a vida humana, de modo que as relações sociais passam a ser mercantilizadas. O que se traduz na própria realização de uma relação social como um processo indissociável tanto de produção quanto de consumo de mercadorias e imagens também mercantilizadas, na expressão prática do que é o principal valor do capitalismo. E basta lembrar que isto não é mero sintoma, e sim a condição de existência do sistema capitalista, sua exibição em forma de ideologia, que nos impede de interpretar a realidade como real ou espetáculo. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediatizada por imagens”. (Debord, 2003, p.14). Essa produção do espetáculo poderia ser produzida, segundo Coelho (2014,p.112), de duas formas: pelo poder espetacular concentrado ou difuso. O primeiro estaria interligado com o que ele considera com sociedades mais autoritárias, onde a produção do espetáculo é produzida pela figura estatal concentrada em torno da imagem do “Líder da Nação”. O poder concentrado é totalmente controlado e divulgado pelo estado e seus representantes. Já o poder difuso consta em representações de países com maior desenvolvimento capitalista, estando presente na vida cotidiana em virtude da produção e consumo de imagens associadas à produção e consumo de mercadorias. Seus sujeitos de divulgação passam pelos grandes conglomerados empresariais. Em 1980, com o trunfo da ideologia neoliberal, ele criou uma nova forma de poder espetacular tido como integrado, que seria uma condição de integração entre o poder espetacular difuso presente em sociedades de poder espetacular centrado. A mercantilização da imagem e da subjetividade do sujeito é um dos reflexos da sociedade do espetáculo; https://fastcompanybrasil.com/tech/lives-npc-expoem-mercantilizacao-do-sujeito/ Em contexto atual onde o capitalismo estende sua lógica e domínio por dados e plataformas, essa constatação se faz ainda mais clara. Basta olharmos para como as interações sociais ocorrem nesses espaços virtuais, que exercem, pelo algoritmo, um papel de mediador e ditador de regras. Redes sociais, como X (antigo Twitter) ou Instagram, servem como mediação para interações entre pessoas (e não se sabe mais como gerar interações interpessoais sem esses espaços) sobre objetivo mercantil. O que consiste em expor cada vez mais pessoas em uma lógica de mercantilização da subjetividade, isto é, de relatar tudo a todo momento em uma plataforma que lucra com as informações dadas pelo usuário, o redirecionando para anúncios e compras do usuário na plataforma. Há praticamente um leilão no que envolve essas compras, já que o usuário que paga um determinado valor é também agora recompensado por mais visibilidade na plataforma; como uma garantia de que mais pessoas estarão vendo o que você escreve. A ideia da internet como um local livre logo se desmanchou na realidade do espetáculo. E esse movimento cresce para toda e qualquer forma de sociabilidade digital. Quando olhamos especificamente para aplicativos de relacionamento, temos a mesma dinâmica mercantil, onde pessoas se apresentam pela definição de suas próprias imagens e são atraídas pela imagem do outro. Tudo isso numa espécie de mercado ilimitado de imagens em que o usuário tem a sensação de estar no controle de uma escolha que, na verdade, é condicionada por uma plataforma que lucra sobre essa interação. “O espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, socialmente falando, como simples aparência”. (Debord, 2003, p.16) Aplicativos de corrida, como o Uber e o 99taxi, também não deixam de fazer o mesmo ao lucrarem com a interação entre corredor e passageiro mediada por uma plataforma que engloba tanto oferta quanto demanda daquela atividade transformada em produto. Tudo isso marca uma condição bem específica de ação voluntária para que o indivíduo se perpetue como uma mercadoria no ambiente virtual de imagens que é gerido por grandes empresas. O próprio Debord (2003, p.13) diz que: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido se esvai na fumaça da representação”. E isso se alia a uma nova dinâmica do capital sobre o valor, onde Coelho (2006, p.18) elucida a tal fato quando cita o teórico W.F Haug para o debate, que afirma em suas ideias: “para que o valor de troca das mercadorias possa ser realizado mediante a venda, as empresas desenvolveram estratégias comunicacionais, como o design dos produtos, a aparência das embalagens e as imagens publicitárias, com o objetivo de induzir o consumidor em potencial a efetivamente comprar a mercadoria”. Nos termos marxistas do valor de uso (utilidade do objeto) e do valor de troca (quantia monetária que vale) agora se somam ao valor estético, que cria um domínio da mercadoria sobre pessoas em virtude de sua fascinação pelas aparências artificialmente produzidas e influência sobre as sensações humanas (Haug,1997, p 67). O valor estético, acima dos demais, serve como a evidente expressão de como a mercadoria exerce seu poder e controle pela vida social, subjugada pelas imagens e o que elas nos causam. Quem nunca comprou algo sem valor (de uso) meramente pela sua estética? https://editoraunesp.com.br/catalogo/8571391556,critica-da-estetica-da-mercadoria E isso se vale porque o valor de uso (função) perdeu-se completamente em seu sentido. Debord (2003, p.19) já dizia que “A fase presente da ocupação total da vida social em busca da acumulação de resultados econômicos conduz a uma busca generalizada do ter e do parecer, de forma que todo o ter efetivo perde seu prestígio e a sua última função”. A consequência disso, sobre o espetáculo, é de que as relações sociais mediadas por imagens, seja justificada e influenciada agora pela sua estética. O consumo é orientado pela estética, mais do que pela utilidade da mercadoria. Tanto é que o design de produtos e a publicidade se tornou mais importante do que nunca. Assim como nunca na história da humanidade houve tanta personalização de produtos. Um copo não é comprado por ser um copo, mas por ter uma personalização, por ser uma caneca com um desenho bonito. E não precisamos pensar apenas no consumo material, expandindo ainda mais essa visão. As próprias áreas de uma cidade estão sujeitas a essa mesma lógica. O capitalismo tem uma capacidade de engendrar um ambiente artificial que é redirecionado ao consumo de mercadorias, moldando o meio ambiente, por meio do urbanismo, a essa construção mercantil dos espaços da cidade, como aponta Coelho (2006, p.19) “O urbanismo é a tomada de posse do ambiente natural e humano pelo capitalismo que, ao desenvolver sua lógica de dominação absoluta, pode e deve refazer a totalidade do espaço como seu próprio cenário” (Debord, 1997, p.112; apud Coelho, 2006, p.19). A cidade e seus ambientes são moldadas sobre a própria lógica de consumo, afim de seu incentivo e facilitação. O predomínio da construção de prédios sobre as casas é uma de suas representações, esticando a mercantilização para a verticalização de moradias mais espetacularizadas do que úteis, isto é, servindo realmente pelo direito habitacional. A exemplo da financeirização desses espaços em mercadorias especulativas, como ações da bolsa de valores. Os situacionistas e suas articulações culturais urbanas https://www.researchgate.net/figure/Guy-Debord-The-Naked-City-A-Psychogeographical-Guide-to-Paris-1955_fig2_370004669 Da mesma forma, espaços do ambiente virtual são pensados e construídos de forma estratégica com essa mesma lógica, ainda com o ímpeto de manterem uma maior atividade de uso e consumo de imagens. Engenheiros e design de software falam abertamente disso no documentário “Dilema das Redes”, da Netflix. O capitalismo, seja em sua era digital ou não, molda os próprios espaços e noções de espaço entorno de seus interesses consumistas que são agora movidos pelas imagens, suas representações. Pode-se perceber que não precisamos de muitos esforços para notar como essas dinâmicas do espetáculo apenas se intensificam e transmutam para o ambiente virtual, algo que Debord pouco chegaria a ver. O espetáculo trascendeu de forma inimaginável em dinâmicas de multiplicação de signos atrás de signos: uma marca das redes sociais, como Valdir Josué de Castro (p.42) aponta: “A cultura do espetáculo é toda construída sobre signos dos tipos mais diversificados. Nela, se consome não somente o produto em si, mas o que ele representa” Isso vai totalmente de encontro com o que Debord (2003, p.13) diz que seria o desmanche do real em imagem. O consumo vai para além do consumo do material, ele diz respeito ao consumo de uma imagem, que por diante não apenas é uma simples imagem. Consumir algo significa consumir também uma identidade; consumir um estilo de vida; estar em um determinado patamar social; um patamar de diferenciação. Uma pessoa que consome uma camisa de uma marca cara não está consumindo apenas uma camiseta, e sim fazendo uma demonstração de riqueza e fineza; e talvez isso explique a própria tendência que esses vestuários tenham de ganhar uma reprodutibilidade falsa (versões de segunda mão, mais baratas) com grande aderência entre pessoas de classe mais oprimida. Um exemplo bem claro é a proliferação de camisas Gucci, Supreme, Oakley ou relacionadas entre pessoas nas periferias ou em aderência em suas respectivas subculturas. Modelos posando para uma representação periférica com a marca californiana Oakley; A relação polêmica da moda de luxo com a moda da quebrada — FFW A criação de uma versão falsificada de uma marca dessa não é pura crítica ou uma forma de satirizar a figura de quem utiliza a original como demonstração de valor, ainda que possa ser interpretada dessa forma. Sua aderência, na realidade, é mais como uma forma de, pela réplica, buscar se encaixar na tendência de também estar no poder de consumir aquele símbolo, aquele padrão de vida que é reduzido a uma representação da imagem. Socialmente, é uma forma de empoderamento pelo consumo, pois significa poder compar o mesmo que uma elite também pode. O mesmo se pode dizer sobre as camisas de times esportivos ou de grupos musicais, que não são simples camisas, mas uma forma de expressar e pertencer a uma identidade por meio da imagem mercantil. Ter determinada identidade se expressa em ter determinado acessório ou vestuário personalizado, que condiz obrigatoriamente com o consumo. Da mesma forma que usar esse vestuário te fará, num sentido abstrato, participar de algo, uma comunidade, um grupo maior e que faz parte de um imaginário; assim como também vai determinar a interpretação de um outro sobre a sua imagem, o que você representa. As criaças góticas de South Park como uma representação de possibilidade de se formar uma subcultura pela mercantilização em comum. Góticos | Wiki | South Park Oficial™ Amino “A era da iconografia significa que vivemos em um tempo em que nos alimentamos de imagens e as imagens se alimentam de nós, dos nossos corpos. Esse processo ocorre quando passamos a viver muito mais como uma imagem do que como um corpo. Viramos escravos das imagens: temos que ter um corpo que seja uma imagem perfeita, temos que ter uma carreira que seja uma imagem perfeita. Com isso, de repente notamos que o corpo como entidade original da vida passou a ser uma imagem e, portanto, não ter mais vida própria” (Júnior, Baitello; 2008, p.17; apud Castro, 2005, p. 44) A própria realidade se tornou em uma imagem porque agora o parecer superou o ser; a existência de algo, o fato de algo existir, depende essencialmente de ter uma foto, uma gravação daquilo ou sua materialização em mercadoria. Tanto é que a própria existência humana apenas á concebida a partir do ultrassom: a primeira imagem. Parecer é, de fato, ser. Vivemos para gerar imagens, para a todo momento, receber a nossa própria validação e também a dos outros de que estamos executando determinada atividade; da mesma forma, vivemos para consumir aquelas imagens geradas por nós mesmos e pelos demais. Nas redes sociais, isso se extrapola num nível mais do que absurdo, com loopings de telas que levam ao consumo infinito de conteúdo gerado pelo cotidiano de seus usuários; e que são orientados, motivados e incentivados a viver para gerar conteúdo. Representações da sociedade espetáculo https://www.escrevologoexisto.com/2013/10/31/algumas-consequencias-da-sociedade-espetaculo/ Consta-se um comportamento geral de “influencer” da própria vida, que deve relatar tudo o que lhe acontece em todo o instante, pois ele tem uma falsa sensação de que é uma celebridade e é motivado a se expressar da forma que se expressa midiaticamente. O sujeito faz de sua vida uma marca a ser gerenciada, estando alienado às próprias escolhas. A motivação de uma ida a um museu não é mais a atividade em si e sua contemplação, e sim o ato de chegar lá para fazer um registro e se provar que de fato lá aparecer; assim sendo, por aquela imagem, dizer algo sobre você. E o que mais poderia justificar o comportamento generalizado em shows de música onde a plateia, em sua quase totalidade, se dispõe à preferência de realizar filmagens em detrimento da abstração artística? Com gravações que, muito provavelmente, nunca serão vistas ou revistas. Em show na Argentina, a banda de rock alternativo Placebo emitiu uma mensagem no telão pedindo para que os fãs não se prendessem ao celular durante a apresentação do grupo. https://igormiranda.com.br/2024/03/placebo-fas-celular-show-argentina/ Um outro exemplo disso, que é aprofundado em análise mais específica em um capítulo específico de Cultura, Comunicação e Espetáculo, é sobre os manifestantes dos eventos da Jornada de Junho em 2013, a última grande reunião de massa do contexto brasileiro e a primeira marcada pela articulação nas redes sociais. A autora Maria Ferreira Rovida, nessa parte, questiona e destaca o comportamento de uma maioria dos participantes do ato, que estariam muito mais preocupados em ser fotografados e registrados no evento do que propriamente de se engajarem de fato. Ali, fazer uma aparição pública e demonstrar que esteve naquele momento se fez a prioridade de boa parte da massa: uma clara consequência da Sociedade do Espetáculo. “Quando a lógica do ‘ter’ é substituída pelo ‘parecer’, os comportamentos individuais no espaço público ganham uma dimensão espetacular” (Rovida, p.171) Isso se traduz em uma constatação de que ser visto em uma atividade é mais importante do que propriamente estar imerso em sua realização. A autonomia do ser é tomada pela servidão de estar produzindo imagens para que um outro alguém consuma; para que um outro alguém faça uma leitura de sua pessoa por meio daqueles signos específicos, da mesma forma que somos levados a fazer. Uma atividade sem registros, sem imagem, é uma atividade sem valor; uma atividade que nunca existiu, pois nada diz. E a própria política não estaria fora dessa lógica, ela seria, principalmente, uma prova de que tudo está alienado ao espetáculo. A representação do período eleitoral é mera encenação midiática, um momento de construção de imagens em que o eleitor é convencido a votar naquele candidato que melhor trabalha sua imagem publicamente, em suas campanhas de marketing e em repercussão nas mídias. Assim, qualquer tentativa de pensamento crítico e debate (sobre o funcionamento do sistema, suas contradições etc) é sobreposto pelas dinâmicas performáticas. Não há exemplo melhor para essa constatação que as eleições para prefeito da cidade de São Paulo em 2024, onde o candidato Pablo Marçal (PRTB) baseou toda a sua campanha em ataques às imagens de seus candidatos rivais e fake news os envolvendo. Nessa, ele tentou emendar pechas pejorativas que buscavam relacionar o candidato Boulos (PSOL) a uma imagem de viciado a cocaína, corrupto e até mesmo como gordo (atrelando à gordofobia social). O mesmo foi feito com outros candidatos. O espetáculo é o desmanche de qualquer tentativa democrática em não mais do que relações públicas. Guy debord fumando seu charuto. https://mubi.com/pt/br/collections/guy-debord Um dos principais pontos de atuação prática de Debord, que mais constava em suas reflexões sobre a cultura, se deu por meio do movimento do qual fazia parte, a Internacional Situacionista. Segundo suas ideias, eles buscam a supressão da cultura vista como uma realidade autônoma e alheia da vida social. Em outras palavras, o grupo defendia a integração autônoma da cultura na totalidade da vida, sem distinção do tempo de trabalho e de cultura ou lazer. É a mesma lógica de integração que a política deveria ter como exercício humano cotidiano. Em seu “Relatório sobre a construção das situações e sobre as condições da organização e da acção da tendência situacionista internacional” (2003), Debord, p.56, diz que: “Os situacionistas pensam a atividade cultural, sob o aspecto da totalidade, como método de construção experimental da vida cotidiana, a ser permanentemente desenvolvido com a extensão dos lazeres e do desaparecimento da divisão do trabalho (a começar pela divisão do trabalho artístico).” Debord defende que a realização e a supressão da arte deveria acontecer pela construção de situações artísticas que incitassem o pensamento crítico em ambientes urbanos do cotidiano, despertando a conscientização do indivíduo sobre a transformação social. “Nossa ideia central é a construção de situações, isto é, a construção concreta de ambiências momentâneas da vida, e sua transformação em uma qualidade passional superior. Devemos elaborar uma intervenção ordenada sobre os fatores complexos dos dois grandes componentes que interagem continuamente: o cenário material da vida; e os comportamentos que ele provoca e que o alteram”. (idem p.56; apud Coelho, 2006, p. 23). Aqui, também vemos o apontamento de uma dimensão dialética contraditória da cultura, pois é igualmente o resultado de uma sociedade que divide intrinsicamente o trabalho manual do intelectual. Dando origem, consequentemente, “a uma cultura enquanto esfera separada das outras atividades sociais e, ao mesmo tempo, um possível ponto de partida para a crítica dessa separação, pois a cultura procura representar a realidade como um todo”. (Idem, p.11) Para os situacionistas, a cultura seria o único espaço responsável por representar a sociedade em sua totalidade ao fazer da arte um meio de transformação daquela realidade, incitando o pensamento crítico e a não conformação por meio da criação de situações no cotidiano. Essa seria uma forma de combate à alienação ao acabar com a diferenciação entre arte e cultura, condição que tornaria o indivíduo mero espectador de sua própria vida. Algo também similar à ideia de à estética do choque, como Walter Benjamin propunha em período simular. A arte da qual os situacionistas fazem oposição é a arte do espetáculo; a arte da mera contemplação visual, onde muito ocorre e nada se abstrai além do superficial. Debord chega a apontar para essa incongruência quando afirma: “O espetáculo como tendência para fazer ver por diferentes mediações especializadas o mundo que já não é apreensível, encontra normalmente na visão o sentido humano privilegiado que noutras épocas foi o tato; a visão, o sentido mais abstrato, e o mais mistificável, corresponde à abstração generalizada da sociedade atual”. (2003, p.19) Guy Debord e os situacionistas representaram um marco para a ruptura da cultura conformista e da expressão artística. https://www.youtube.com/watch?v=hcEYNW630qM É pensando nessa análise impactante de Debord que o livro Cultura, comunicação e espetáculo se aprofunda, buscando também analisar manifestações culturais presentes na cidade de São Paulo como fonte de amostra crítica. A primeira delas é a iniciativa de Cooperifa (Sarau Cooperifa), um evento cultural e literário na periferia da zona sul da capital paulista com propósito de reunir moradoras do local e outros participantes em um exercício de reflexão, criação e exposição de poesias, feitas pelos mesmos, com temas referentes ao cotidiano local. O evento acontecia semanalmente e englobava um público variado e sem restrições, como é apontado no capítulo três do livro. Após mais de 22 anos interruptos de atuação, o sarau anunciou, por meio de um comunicado, no dia 21 de março de 2024 uma pausa nas atividades, justificado pela necessidade de um momento de reflexão sobre o movimento. Ver: Cooperifa anuncia pausa nas atividades — o-barulho/publicacao — Baderna Literária Cooperifa.oficial (@cooperifa.oficial) • Fotos e vídeos do Instagram Porém, durante seu tempo de existência e atuação, o movimento mostrou, por meio da análise das pesquisadoras Márcia Eliane Rosa e Juliana Andrea Vieira dos Santos no livro, se aproximar das noções culturais-artísticas de Debord e do movimento situacionista. Isso porque a Cooperifa, além de uma manifestação cultural autônoma, é também uma representação de integração entre arte-cotidiano. Constando que ambos (arte e cotidiano) estejam em uma relação dialética, com um influenciando no outro. Tanto em sua realização, quanto em conteúdo, os encontros semanais já faziam parte daquele cotidiano, assim como também era utilizado como tema de reflexão crítica; o cotidiano é arte, a arte é cotidiana. Da mesma forma, o evento cultural-literário não tinha qualquer motivação mercantil ou pretensões midiáticas, de atrelar a imagem de sua manifestação a alguma prática ou valor específico em troca de investimentos. Muito pelo contrário, foi um movimento daquela comunidade para a própria comunidade de participantes. E até mesmo a ação de desvio ou reapropriação defendido por Debord e os Situacionistas foi também feita pelos membros da Cooperifa, que organizaram uma Semana de Arte Moderna da Periferia, uma deturpação da sua referência: a semana de arte moderna de 1922. Vieira e Santos (pp.83–84) apontam que: “Entende-se que o desvio torna-se próximo do plágio, na medida em que se apropria da obra do outro na proposta de construir uma obra coletiva. O que Debord vê como positivo é que o desvio pode deturpar um sentido ‘original’ e ficar mais próximo de uma clandestinidade típica daqueles que lutam contra um sistema que domina as instâncias da vida como a Semana de Arte Moderna da Periferia”. Encontro de comemoração da cooperifa. https://biblioo.info/cooperifa/ Nos capítulos seguintes, o livro oferece em sua abordagem uma outra análise de manifestação cultural da capital paulista, agora por meio da autora Adriana Sá Moreira e o Projeto Educacional Sesi-SP em Teatro Musical, uma iniciativa privada que buscava trabalhar a realização teatral musical por meio do desenvolvimento de textos estrangeiros sobre um preço considerável acessível na época. Esse projeto, porém, em nada se construía em autonomia ou visando romper as barreiras do espetáculo, estando completamente atrelado ao grupo Sesi-Fiesp e sua imagem, no intuito de a transformar em mais receptiva aos telespectadores. E que, além disso, mobilizava uma cultura de terceiros por meio da divulgação de sua realização, destinada mais em se adequar aos parâmetros internacionais, de São Paulo como uma metrópole cultural internacional, do que de fomentar uma plateia participativa crítica em atividade contínua. Ainda dado que, após suas realizações, não houve qualquer esforço para manter um grupo unido em exercícios de constância. Seus idealizadores estariam, então, se utilizando da atividade cultural como uma forma de associarem a um cenário artístico ao mesmo tempo que trabalham suas imagens corporativas (Moreira, 2006; p.102) Sua realização seria muito mais um “atrativo” da cidade de São Paulo, um símbolo de uma das diversas “atrações culturais” da cidade em meio a uma propaganda a ser vendida como interpretação internacional. Como a autora afirma: “São simulacros de ações positivas que deveriam ter um planejamento contínuo e não esporádico, quando na verdade são uma outra forma de mostrar como as instituições envolvidas estão associadas a um bem imaterial e a uma causa”. (IDEM; p.105) Debord (2003), p. 26, já afirmaria que: “O espetáculo na sociedade representa concretamente uma fabricação de alienação”, com o que podemos relacionar ao dizer que esse é um dos inúmeros exemplos de projetos educacionais e culturais que serviriam como difusão de ideias corporativas e de influência de opinião por meio do investimento sobre a representação da imagem do grupo. Essa análise, abre margem para demais interpretações e comparações com outros projetos espalhados pelo Brasil, equiparados entre as ideias situacionistas ou não, assim como refletem a dificuldade que é manter uma relação constante, por meio de encontros semanais, o que se soma à baixa influência de mobilização em atividades que não envolvam o lucro como um fator essencial da constatação da arte condicionada ao espetáculo. O projeto cultural do Sesi com objetivos midiáticos. “Projeto Educacional Sesi-SP em Teatro Musical” abre inscrições online — A Broadway é Aqui! Termino a ressaltar em como as ideias de Debord, em uma sociedade capitalista, se fazem mais do necessárias: infelizmente atemporais. Sua crítica à sociedade do espetáculo atinge não apenas às bases críticas de seu contexto, como o nosso também. com adventos e subversões que ele não viveria para ver, mas que, quase profeticamente, descreveria de forma pertinente. Da mesma forma como a atuação situacionista oferece ferramentas para enxergamos a realidade de forma contestadora, crítica e com meios para rompermos com a “superficialização da cultura”, reduzida a imagens e dissociada da vida cotidiana. Leituras: Sociedade Espetáculo, Guy Debord, 2003, Projeto Periferia. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/debord/1967/11/sociedade.pdf Cultura, Comunicação e Sociedade do Espetáculo, 2006, Paulus, organizado por Cláudio Novaes Pinto Coelho e Valdir José de Castro com participações de Jaime Carlos Patias, Márcia Eliane Rosa, Juliana Andrea Vieira dos Santos, Andriana Sá Moreira, Gerson da Silva Esteves, Antonio Luiz Gonçalves Junior, Mara Ferreira Rovida e Ethel Shiraishi Pereira. Teoria Crítica e Sociedade do Espetáculo, Cláudio Novaes Pinto Coelho, 2014, In House Jundiaí

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