As disparidades que podemos fazer entre as vertentes do insólito em uma ficção literária está, como quer Todorov na "racionalização dos fenômenos apresentados em uma obra".
A partir de então podemos inferir que:
O "maravilhoso" altera a realidade de forma inesperada, como uma espécie de "revelação", ampliando a percepção da realidade. Em contraposição ao fantástico, no maravilhoso não há exclusão entre experiências naturais e sobrenaturais: as experiências neste se confundem afirmando um sentindo para elementos "aparentemente" contraditórios.
Já no "fantástico" os conflitos entre tais elementos continuam inexplicáveis.
Quando há uma aceitação dos fatos, do sobrenatural, de novas leis da natureza, estamos diante de uma narrativa maravilhosa. O fantástico só é aceito se há questionamentos, dúvidas no que concerne a origem dos fatos.
O "novo" realismo das literaturas hispano-americanas, logo retrata a realidade
a partir de outra(s) realidade(s) - por mais paradoxal que isso possa parecer.
São espaços e situações totalmente diferentes daqueles que estamos acostumados
a ver ou vivenciar. São coelhos que falam como no conto: "Teleco, o coelinho" de
Murilo Rubião ou uma poltrona que sentencia a morte daqueles que nela sentam
na narrativa de Júlio Cortázar.
Anterior a isso, o realismo oitocentista (o marco inicial seria didaticamente falando
a publicação do romance Madame Bovary de Gustave Flaubert em 1857) está mais preocupado com o real-sensível, o fato. É uma narrativa preocupada com o fluxo de consciência, a análise psicológica das personagens para tecer críticas a sociedade burguesa da época. Aqui, o individuo está voltado para o que está diante e fora dele, o que José de Nicola chamou de "não eu". O escritor realista tomará a sério as suas personagens e se sentirá no dever de descobrir-lhes diria Alfredo Bosi em sua "História concisa da literatura brasileira".
Imerso em dialéticas o escritor oitocentisa sempre dará preferência ao concreto em contra-senso ao abstrato, o universal ao singular. E nesse cenário (o qual Alfredo Bosi nomeou de dialética Hegeliana) o autor realista também cederá ao verossímil ao inverossímil ficando desta forma imune a subjetividade e as tentações da fantasia em oposição ao Romantismo setecentista..
As obras realistas da segunda metade de 1800 só podem ser analisadas se as tratarmos a partir de seu caráter extrínseco, ou seja, suas características são frutos indissociáveis de seu contexto histórico.
Dessa forma teríamos que levar em consideração o advento das ciências sociais como o "Positivismo" de Augusto Comte, as teorias sobre a luta de classes de Engels e Marx, a revolução biológica de Charles Darwin, e mesmo, o ambientalismo de Taine (...).
Dos manifestos europeus o manifesto surrealista (1924) proposto por André Breton (1826-1970), produto, sobretudo, do terror da primeira guerra, influenciou, sobremaneira, a ficção latina do século XX. Há de se dizer, no entanto, que apesar de ser uma influência, o surrealismo, não pode ser confundido com o realismo proposto pelas literaturas latinas dos anos de 1960.
Apelando para eventos que fogem a compreensão humana, o surrealismo é a exploração do mundo interior, a busca das origens primitivas do homem, da fruição do inconsciente e do apelo incessante ao sonho.Admirados com os estudos de Freud e consequentemente negando qualquer intervenção da razão "desperta" na produção artística, os Surrealistas, apregoavam que só em estado de vigília nossos pensamentos são entorpecidos, e logo, a criança e o selvagem que há em nós passam a dominar. O surrealismo, então, admite que a razão pode dar-nos a ciência mas só a não-razão pode dar-nos à arte.
Propagada e consolidada, essa nova forma de contar "Estórias" influência o trabalho de escritores contemporâneos como é o caso do escritor Fernando Canto (Óbidos/PA) em seus contos de "O bálsamo" lançado originalmente pela editora universitária da UFPA sendo agraciado com o primeiro lugar no I Concurso de Contos das Universidades do Norte em 1992. Destaque também para o trabalho de Alberto Abadessa e seus enredos de "Rua de contos, o fantástico do inconsciente", assim como, as "Visagens e assombrações de Belém" compiladas por Walcyr Monteiro (no entanto o realismo aqui estaria mais perto do "mágico").