A obra é dividida em três partes, apresentadas em livros distintos: Corazón Salvaje, Mónica e Juan del Diablo. O romance se passa no Caribe, na ilha francesa Martinica, nos primeiros anos do século 20, e tem como enredo o quadrado amoroso envolvendo os meio-irmãos D’Autremont – o aristocrata Renato e o pirata João do Diabo – e as irmãs Molnar – Aimée e Mônica.
Bom, acredito que 100% dos leitores brasileiros dessa obra a procurem após assistir à novela realizada pela Televisa entre 1993-94, e que foi exibida pela última vez pelo SBT, em 2000, então minha resenha será a partir das perspectiva de quem assistiu a esta novela e a considera a melhor de todos os tempos. Devorei os três livros em poucos dias – mas não somente porque a escrita da autora é envolvente, mas mais na esperança de encontrar o mesmo que vi na tv, e pouco encontrei.
Por ter tido primeiro o contato com a produção da Televisa, isso fez com que eu considere sempre que a novela é melhor: na minha percepção, além de ter realizado uma adaptação muito mais interessante para o romance, a interpretação dos atores foi impecável, de maneira que é impossível se desvencilhar disso e dar uma chance honesta para a obra escrita.
Infelizmente a leitura me fez sentir assistindo a uma novela “cor de rosa”, como se chamam as produções mexicanas com ar de contos de fada e pureza extremas – e incrivelmente não é assim que esta obra foi adaptada pela mesma emissora que produz essas mesmas novelas mel com açúcar. Eduardo Palomo e Edith González encarnaram um João do Diabo e uma Mônica que se apaixonam e demonstram seu amor como um casal a novela inteira, e isso passa longe do que lemos aqui. Atenção: spoilers a seguir.
Iniciei a leitura já incomodada com o fato de que Mônica e Renato nunca foram prometidos, mas deu para passar, porque até a chegada de João à Campo Real para se vingar de Aimée, a obra e a novela são quase idênticas. Mas aí se desenvolve uma trama que culmina em um casamento obrigado e às pressas entre João e Mônica, e ele a leva à força em seu barco para uma viagem pelo Caribe. O casamento não se consuma só porque Mônica tem uma febre fulminante no momento em que João irá estuprá-la e depois disso eles se tratam de forma cordial e distante, até se apaixonarem aos poucos, sem admitirem sem seus sentimentos, porém.
Toda uma miríade de conflitos cai sobre o casal e nenhum deles tem coragem de admitir o que sente – clichê já visto em outra obra da autora, La Mentira – o que é justificado pelo orgulho de ambos. Somam-se infindáveis cenas ridículas, nas quais um sempre está prestes a falar algo importante ao outro e são interrompidos por outra pessoa e não continuam o assunto; ou quando João insinua que Mônica ama Renato e ela sequer contesta, mesmo que sinta o contrário. Enfim, o primeiro beijo do casal acontece a 70% da terceira parte, então a cumplicidade vista na novela não será encontrada aqui.
A lista de personagens é muito mais enxuta do que na novela, mas é criada uma barriga enorme com o julgamento de João, o desenvolvimento do terremoto em San Pierre e principalmente os debates eternos entre João e Mônica sobre diferenças sociais e exploração dos pobres.
Enfim, eu não voltaria a ler essa obra e nem nenhuma outra da autora, pois esse tipo de romance em que o “viveram felizes para sempre” só acontece na última página não me atrai muito. Porém, pode ser uma boa leitura para quem aprecie esse tipo de obra e não comece com as expectativas do que viu na novela, como eu.