Tantas vezes eu ouvi de conhecidos orgulhosas afirmações de que determinada rua recebera o nome de seus antepassados, de que tal escola ou outra instituição possui em seu título a honra de seu quase impronunciável sobrenome europeu; e eu apenas sorria e dizia "hum, que legal!". Disfarçava um lamento por não ter o que acrescentar, esperando o brilho de seus olhos se ofuscarem para então inventar desculpa e ir embora. Mais tarde, aprendi que "emb'ora" significa "em boa hora".
Algumas pessoas não sabem o quanto é difícil lidar com essa situação quando em pensamento mal se completam três gerações da árvore genealógica. E que o racismo está tão enraizado na sociedade, que o oprimido chega a ter vergonha de passar adiante seus breves vestígios de cultura e ancestralidade, e, num momento de insensatez, pede em oração que seu inútil desejo de clarear se realize ao menos para não chamar a atenção nos locais onde o contraste das peles é notável.
Ultimamente eu estou tentando conhecer mais autores (as) negros (as). Dias atrás eu vi uma lista de livros recomendados pelo Barack Obama e nela havia "A Canção de Solomon", da autora afro-americana Toni Morrison, publicado em 1977. Descobri que ele também está na lista de 1001 livros para ler antes de morrer, o que despertou meu interesse. Fato curioso é que nessa mesma data, fui à padaria próxima à minha casa e lá eu vi uma pilha de livros para empréstimo. Obviamente, pedi esse livro emprestado e agora a pouco o devolvi, torcendo para conseguir comprá-lo futuramente escrito em sua língua original.
A Canção de Solomon fala sobre a busca do autoconhecimento, com o protagonista Milkman, que vai aos poucos desvendando os mistérios de sua ascendência. Fala sobre a importância de se preservar a cultura com a personagem Pilate, que tem atitudes peculiares e vive à margem da sociedade. Fala sobre o quanto o racismo e o machismo prejudicam a vida das mulheres negras com a personagem Corinthians, que embarca no ônibus na parte dedicada às "pessoas de cor" e mesmo sendo capacitada a trabalhar em algo de que goste, tem de fingir ser semi-analfabeta para poder conseguir um emprego. Fala sobre diversos outros assuntos e personagens que trazem consigo a marca de um passado escravizado. Ambientada nos EUA, próxima à época da segregação, essa é uma história de ódio e amor, vingança e companheirismo.
A leitura estava bastante fluida no início, fiquei impressionada com a escrita e a originalidade da história. Na metade do livro, fiquei um pouco desanimada porque vários diálogos pareciam estar repetindo o que já havia sido narrado; extensos períodos descrevendo coisas que eu já sabia desde o começo para explicar o que estava acontecendo (pode ser culpa da tradução). Nas últimas páginas o livro parecia não ter fim: histórias que se conectavam com novas histórias, a magia tomando posse de minha pouca habilidade com realismo mágico e finalmente, quando acabei de ler, deu uma vontade estranha de começar tudo de novo e notei um sorriso de satisfação por ter lido um dos livros que inconscientemente eu sempre quis ler!
Quanto à edição de 1994 da editora Best Seller: letras faltando, com equívocos de plural e singular, tradução estranha em algumas partes, mas nada que incomode muito. Mesmo assim, por conta da pluralidade de significados, provavelmente a narrativa seria ainda mais agradável na leitura em inglês.