O autor do crime perverso -

    Marie-Laure Susini

    Companhia de Freud
    2006
    235 páginas
    7h 50m
    ISBN-10: 857724010X
    Português Brasileiro

    Por que autor de crime perverso, e não simplesmente criminoso perverso? A apelação seria igualmente justa, mas equívoca demais: aí se poderia entender apenas uma eventual perversidade do criminoso. Esse criminoso, esse autor de crime perverso que aqui estudo não é perverso porque seria, no sentido comum do termo, maléfico, desviante, manipulador, porque manifestaria uma perversidade, uma malignidade de caráter e de comportamento. Ele é criminoso porque sua relação particular com o Outro,e, antes de mais nada, com o Outro do encontro secual, a isso o força. O ato do crime perverso é uma resposta particular à pulsão sexual. Esse ato se efetua no quadro de uma perversão no sentido psicanalítico do termo. Aí ainda, "perversão" não é nem um pouco sinônimo de "perversidade", mas designa um modo específico de relação com o mundo. Tratar-se-á de mostrar, bem precisamente, o que está em jogo. E se, por enquanto, me limito a afirmar que esse crime está ligado à sexualidade, de imediato concebemos que ele tende, como o ato sexual, a se repetir. Por isso é que o crime perverso também é o ato do matador em série. Este, a cada (mau) encontro com o Outro, tem a mesma necessidade de reproduzir um crime idêntico, de repetir o mesmo ato mortífero preciso. A lógica é a da repetição, mas os acasos do destino decidirão pelo autor: às vezes será parado já no primeiro crime; outras, ao contrário, terá os meios e o tempo para produzir uma série notável. Será então reconhecido como Serial Killer. O grande público gosta da expressão Serial killer, que para todos evoca o filme de terror, o assassino estranho por sua monstruosidade, sua desmedida e sua ferocidade, bem como vítimas aterrorizadas, fazem chicanas sobre a categoria, mais especificamente francesa, de matador em série: certos criminosos seriam, e outros não poderiam pretender deles fazer parte. O essencial está em outro lugar. Que se diga serial killer ou matador em série, só é possível entender esse criminoso se for apreendida a lógica do crime, a lógica do ato. Não se pode elucidar o enigma da repetição sem entender primeiramente o mecanismo do ato primeiro. Em que o primeiro crime já contém a lógica de sua repetição? Vamos estabelecê-lo conforme avançarmos neste estudo, e descobriremos com o o ato criminoso perverso é o elemento primeiro, fundamental, de uma potencial série. Por que, por outro lado, escolhi chamar esse criminoso "autor" de um crime? Porque o ato criminoso perversos, que antes de mais nada é uma ação violenta exercida sobre o outro, sobre um parceiro que raramente consente, é igualmente o ato primeiro de um drama teatral ao qual o público, de maneira supreendente, assiste e do qual participa. Esse criminoso é, essencialmente, organizador de um espetáculo, em sua vida como em seu crime. E seu crime é uma encenação que visa, muito precisamente, a reação do público. Isto, que nunca foi identificado nem levado em conta, é um dos elementos fundamentais deste estudo da perversão criminosa. O autor do crime perverso, autor de um crime, é, antes de mais nada, autor e criador de um espetáculo pouco comum, montado e representado em nossa intenção. Por isso é que no mundo da mídia contemporânea ele prolifera, ao ponto de se tornar uma das vedetes de nossa sociedade do espetáculo.

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    Tiago picture
    Tiago10/12/2020Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    Sinopse enganosa

    A sinopse impressa no livro é enganosa. Leva a acreditar que a autora irá relatar suas experiências em um serviço hospitalar que passou junto de criminosos durante 10 anos. O livro nada mais é do que uma coletânea de casos de serial killers famosos, com a visão lacaniana da autora. Ela também analisa obras de ficção. As ideias são escritas pela metade, e a autora parece mais interessada em exaltar a imagem do serial killer do que de fato dar uma visão científica. Pra quem gosta de uma leitura fácil, recomendo. Mas acho que vale mais a pena escutar um podcast sobre serial killers, feito por pessoas não formadas na área.

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