Depois de trinta anos de procura e espera, Emilia Dupuy reencontra, num bar de Nova Jersey, seu marido, Simón Cardoso, desaparecido político da ditadura militar argentina, dado como morto. Após um instante de incredulidade, ela se certifica de que é ele mesmo. E nota que o marido absolutamente não envelheceu: está exatamente igual ao que era quando o casal foi detido, nos confins da província de Tucumán. O inusitado reencontro permite a Tomás Eloy Martínez recuperar a atmosfera asfixiante que tomou conta da Argentina depois do golpe de 1976. “Naqueles tempos as pessoas desapareciam aos milhares sem nenhuma razão aparente”, escreve o romancista, cuja obra tem se caracterizado pelo enfrentamento sistemático das feridas mais dolorosas da história recente de seu país. Ele próprio marcado pela experiência do exílio, Martínez fez deste romance o mapa descontínuo da espera de Emilia pelo reencontro com seu marido, espera que é sutilmente comparada a uma estadia no purgatório. “Você fica nele uma eternidade, mas do outro lado da eternidade está o céu”, diz o Simón reaparecido à sua esposa agora sexagenária.
Purgatório -
Tomás Eloy Martínez
Lá pelo terço final do romance “Purgatório”, um dos personagens principais pergunta ao diretor americano Orson Welles sobre seu interesse em realizar um documentário sobre a Copa do Mundo da Argentina de 1978. “A arte é ilusão, a realidade é ilusão” afirma Welles, pouco antes de recusar o convite. “As coisas existem somente quando você as vê, seria possível dizer que os seus sentidos criam os objetos”. A frase resume bem a capacidade do cinema de criar e destruir universos autossuficientes na mente do espectador. E funciona, em especial, como uma espécie de resumo deste belo romance do escritor argentino Tomás Eloy Martínez, que narra a estranha história de Emília, uma cartógrafa que reencontra o marido desaparecido há 30 anos durante a ditadura militar – apenas para descobrir que ele não envelheceu um ano sequer. O que começa como uma narrativa com ares de realismo fantástico aos poucos se revela algo mais complexo que isso. Talvez Emília seja louca. Talvez a reaparição do marido seja apenas uma intervenção do narrador na história, em uma solução metalinguística que aproxima “Purgatório” da obra-prima “Reparação”, de Ian McEwan e, em especial, de “Formas de voltar para casa”, do escritor chileno Alejandro Zambra. Tanto Martínez quanto Zambra escaparam da ditadura em seus países. O primeiro, por meio do exílio, o segundo, devido à idade. Mas ambos encontram na literatura uma forma de acertar as contas com o a sensação de dívida em relação ao passado. Seus narradores, nem um pouco confiáveis, reescrevem o passado ao mesmo tempo em que revelam seus truques narrativos, expondo assim as inseguranças e limitações dos próprios autores. Dessa forma, dentro do romance de Martínez, a simbologia da ilusão ultrapassa a esfera da arte e é utilizada também para ressaltar a dor das famílias que até hoje precisam lidar com o desaparecimento de entes queridos. Sobre assunto, o próprio Welles conclui, em um dos melhores trechos do livro: “Os seres humanos não são ilusões. São histórias, memórias, são imaginações de Deus. Se você apaga um só ponto dessa linha infinita, apaga também a linha inteira, e nesse buraco negro podemos cair todos nós.” É Martínez lembrando que, quando as luzes se acendem ou a última página é virada, infelizmente a ilusão se encerra.
Estatísticas
Avaliações
4 / 47- 5 estrelas38%
- 4 estrelas34%
- 3 estrelas17%
- 2 estrelas11%
- 1 estrelas0%
