Desilusão de ótica - Contos e Aparições

    Úrsula Antunes

    Urutau
    2024
    84 páginas
    2h 48m
    ISBN-13: 9786559006380
    Português Brasileiro

    Este livro é bicho selvagem. As palavras circulam pela escuridão, caminhando inquietas por entre as árvores, em espera salivante, aguardando o momento do bote. Farejam o ar, rosnam para a luz, e então saltam para junto da fogueira, caninos arreganhados, prontos para rasgar. Neste Desilusão de Ótica, Úrsula Antunes nos entrega narrativas que caçam o leitor pela mata, silentes, nem sempre revelando sua natureza brutal, por vezes fantástica. Sua fome é por aqueles que se arriscam no limiar, onde morre a luminosidade das chamas, os leitores transmutados em presa, pois não lhes resta outra opção. Ao darem por si, já, foram arrastados para as trevas. E as trevas estão lá, espreitando, mesmo quando – principalmente, bem dizer – não são imediatamente visíveis. Escorrem por estes nove contos, por vezes na superfície, mais frequentemente agitando-se ameaçadoras abaixo dela. Essa escuridão rasteja no canto do olho, quando Úrsula nos traz um encontro fortuito com uma figura espectral junto à uma cachoeira, e as coisas, como na maioria das boas histórias, não são exatamente o que parecem. Também quando um trapaceiro urde um plano, repleto de vingança, morte e ilusões, para reaver um amor que crê lhe pertencer por direito…amor que não é aquele que imaginamos ser. Por vezes, contudo, o horror deixa as sombras e se apresenta em toda a sua beleza selvagem. É o que acontece quando nos entranhamos na vida privada de uma mulher e seu gato, até o surpreendente e — que bom! — sanguinolento final. Da mesma forma ao conhecermos uma cidade no interior do Brasil, anglicizada e real, onde nem as crianças estão a salvo de algo incompreensível e de fora deste mundo. Por vezes, os contextos são históricos, como em uma clássica narrativa de fantasmas em um Rio de Janeiro oitocentista (e cuidadosamente pesquisado), onde a luxúria cobra um alto preço e os mortos não descansam. E assim, cercando nossos pensamentos, Desilusão de Ótica abocanha nossa atenção através do insólito, do incômodo, do grotesco, por vezes do rasgadamente romântico, em seus melhores momentos se mostrando em um horror despudorado.

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (4)Ver mais
    Aline Aimée Oliveira picture
    Aline Aimée Oliveira31/01/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Fantasmas discursivos

    É interessante a escolha do título "Desilusão de Ótica - contos e aparições" por Úrsula Antunes para a sua coletânea de estreia, porque, se analisamos com cuidado, o engano e o desvio estão perpassando seus nove contos. A autora participa de um movimento de escritoras do insólito, muito identificado em certas figuras latino-americanas, como Mariana Enriquez, que procura associar a tradição do terror e do horror com elementos da vida cotidiana. Há os fantasmas e o sobrenatural, mas eles parecem funcionar como dispositivos denunciadores de mazelas sociais: o preconceito, a misoginia, a loucura, o abandono, a violência política. Como os contos se passam no Brasil em diferentes épocas, do século XIX aos dias atuais, Úrsula compõe um mapeamento que sugere alternativas a causos, lendas e versões consagradas em nossas tradições culturais. O filho do latifundiário era uma aberração mesmo ou só recusávamos nome e olhos para algo que sempre existiu? Quantas mulheres foram mortas porque misóginos supostamente amaram demais? Quantas de nós souberam compreender o pesadelo de certos procedimentos médicos a que fomos submetidas? Quantos fomos reduzidos a espectros pelas exigências do capitalismo tardio? Nesse sentido, os contos apresentam situações que têm seus motores velados por um discurso que desvia os olhares das verdadeiras origens das crises. E é de modo parecido que a contista tece o texto. Numa leitura distraída, é possível se acreditar diante de histórias um tanto simples, compostas com tom objetivo, linguagem direta e apuro na reconstrução histórica. Com um olhar mais atento, percebemos as indicações que sutilmente subjazem no decorrer das cenas. Notamos algo imprevisto no revés das imagens e das sombras, tal como ocorre no jogo de espelhos montado pelo protagonista de "Miragem nos olhos vazios" para capturar sua presa. Conforme teoriza Ricardo Piglia sobre o conto, a narrativa verdadeira se esconde por trás da mais evidente. Úrsula Antunes nos desilude a ótica quando nos mostra que sempre tivemos e teremos fantasmas, mas que eles são feitos de histórias falseadas e silenciadas, pelos outros e por nós mesmos.

    8 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.5 / 15
    • 5 estrelas53%
    • 4 estrelas33%
    • 3 estrelas13%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%