Willian possui uma vida tranquila e confortável, uma boa casa, uma esposa amável e um perfil profissional em ascensão. Seu modo de ver o mundo parece leve e transparecer uma positividade saudável, porém ele possui algumas angústias que não vêm à tona até mesmo em seus pensamentos; há desavenças e impedimentos que ele não admite bloquear, de certa maneira, na sua mente. Isso porque não possui um bom relacionamento com o seu pai desde que uma grande briga na empresa que criaram juntos rompeu a amizade dos dois, levando Willian a se demitir e abandonar a empresa sob os cuidados unicamente do pai, Marcos. E a infertilidade de Eva, sua esposa, é outro grande assunto que parece incutir certa dose de impotência em sua vida, que de alguma maneira o faz se sentir amargurado.
Ele bloqueia a decisão de transbordar seus sentimentos e revelar para a sua consciência e o seu exterior (esposa, pais, chefe) que algumas coisas não estão saindo exatamente como ele queria, e que isso o machuca. Até que se vê indo visitar o pai, num impulso incitado por Eva e por um acidente de moto que feriu Marcos. A situação o leva à uma sequência de atividades preparadas pelo pai para os empregados da empresa, a qual tem por finalidade revelar algo grandioso - seja interiormente, ou mesmo exteriormente. E o desenrolar dos acontecimentos revelam camadas e mais camadas de potenciais vivências. Com elas, um turbilhão de reflexões que levará o leitor a questionar a conduta de Willian e das pessoas com quem ele convive, como também a se perguntar sobre o seu próprio modo de encarar a vida e as ações (próprias ou alheias).
Com um quê nada negativo de autoajuda (afirmado pelo professor que escreveu o prefácio do livro, Roque Weschenfelder, e confirmado pelo próprio autor), o livro nos leva a dimensões imprevistas. Estou confusa sobre o enredo e, sobretudo, sobre o final, e tenho a certeza de que nunca terei respostas para as inúmeras perguntas que encontrei lendo Uma vez você, uma vez eu. A intenção do autor era exatamente essa: a de tirar o leitor do piloto automático e fazê-lo pensar, refletir. É um livro que tende para a autoajuda por conta disso: os diálogos longos contém reflexões e máximas que, às vezes clichês, às vezes uma experiência enriquecedora, fazem com que nosso cérebro trabalhe mais durante a leitura.
E, ao contrário do que isso pode sugerir, a leitura é fluida e agradável, porque acolhe. E o plot twist empregado pelo autor durante a escrita do livro é de gerar um novelo de perguntas sem repostas positivo, pois é muito bacana a forma que o Diego Martello encontrou para quebrar a expectativa; é dessa forma que ele consegue concluir a sua intenção com a criação deste livro, a de colocar o leitor para refletir. Porem, meu único problema com o livro surge dessa mesma escrita: um pouco engessada por usar um português muito formal, um exemplo do que entendi como um aspecto inorgânico do livro - a presença nítida do autor no texto, o qual possui alguns erros que passaram despercebidos pelas revisões.
É um livro que indico para quem gosta de sair da atitude passiva que o leitor de hoje parece cada vez mais tomar para si, e para aqueles que procuram reviravoltas imprevisíveis capazes de abrir diversos caminhos para interpretações.