Orelha livro Cinthia Kriemler Viúvas de Sal de Cinthia Kriemler evoca trajetórias marcadas pela constância da violência concebida à existência do gênero feminino. Muito mais que narrativas explícitas e dolorosas, a autora nos oferece personagens com perfis psicológicos desenhados em corpos atravessados pela realidade omissa que nos afoga diariamente. São ritos de passagem de uma lógica patriarcal abusiva, repulsiva e degradante. Meninas silenciadas, expostas a traumas, ao abuso sexual, à exclusão social e à alienação religiosa. Mulheres “que aprenderam a conter a raiva, a revolta, as lágrimas, a piedade”. Não se enganem, Porto do Xaréu e sua Cooperativa de Pescadoras existem, e não estão tão distantes de nossas vidas: são sombras aprisionadas no fundo de um mar escuro. Fantasmas incapazes de retornar à superfície para respirar. Ninguém escuta os seus gritos inaudíveis. Ninguém enxerga as suas mãos estendidas buscando ajuda. A escrita de Cinthia Kriemler foge da neutralidade. Ela é política, corajosamente ativista e expõe a ferida em carne viva. Mas por favor não agreguem à obra o rótulo excludente de “destinado a um público específico”. Viúvas de Sal é leitura obrigatória e necessária para todos, principalmente para aqueles que insistem em não escutar ou enxergar a misoginia que mata e abençoa os perversos. É também uma aula sobre sororidade, essa palavra que precisa sair do dicionário e verdadeiramente ser aplicada para além dos discursos feministas. Quanto a João Galafuz, que ele descanse em paz e que uma nova tempestade se anuncie sem naufrágios e mortes, mas sob o brilho intenso da igualdade e respeito às mulheres.
viúvas de sal -
Cinthia Kriemler
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“Mulheres que desapareceram pela violência estão gritando. As vozes de mulheres desaparecidas estão ecoando. Eu canto com essas vozes.” (Kim Hyesoon Poeta sul-coreana) Viúvas De Sal é o terceiro romance de Cinthia Kriemler e gira ao redor da fictícia Cooperativa de Pescadoras de Porto do Xaréu, no litoral de Pernambuco.Liderada por Tonha, seu propósito oferecer às associadas um meio de sobrevivência a despeito da morte do companheiro e do amparo pouco efetivo do Estado. Aliás, “viúvas de sal”, como elas são tratadas, remete a história da mulher de Ló que consta no Gênesis. Jamais nomeada e de mãos vazias, esta mulher é obrigada a fugir de Sodoma onde vive sem olhar para trás, entretanto ela não consegue e é punida pela desobediência: transforma-se numa estátua de sal. No caso, trata-se de uma metáfora sobre a necessidade de vivenciar o luto e sua inviabilidade, pois é preciso seguir adiante. Em suma, a narrativa gira ao redor de diferentes trajetórias femininas expostas a violência, resultado de uma realidade omissa que é produto do patriarcalismo e da misoginia. Uma temática universal que abarca mulheres “silenciadas, expostas a traumas, abuso, exclusão social e alienação religiosa”, “que aprenderam a conter a raiva, a revolta, a lágrima e a piedade”, como Binta, uma refugiada senegalesa, a arredia Sebastiana, a renegada Ciça, a silenciosa Josefa e Augusta ou Ivenkra cujo passado misterioso não a deixa em paz. Paralelamente, o livro também aborda a corrupção endêmica, nosso folclore e a mutilação feminina (MGF), uma forma de controle do corpo da mulher. Não praticada e pouco conhecida no Brasil, ela afeta quase 200 milhões de mulheres ao redor do mundo e trata-se de um grave problema, em especial, na África, podendo causar problemas físicos, mentais e até levar a morte. Sou leitora assídua de Cinthia, uma escritora que consegue entrelaçar dor e beleza com raro talento tanto em verso como em prosa. Sua escrita não é anódina, surge politizada e essencialmente feminista, o que a torna seminal não só para as mulheres, mas para quem admite rever conceitos, posicionando-se diante deles. “A decisão de voltar para o mar está tomada. A cooperativa precisa retornar à sua finalidade original. No primeiro ano da pandemia, a venda de marmitas, doces e máscaras de pano artesanais foi essencial, mas não rendeu o bastante. O dinheiro da pesca fez muita falta. Foram meses longe dos barcos. Antes, por causa das manchas de óleo no litoral. Os peixes que não morreram foram contaminados. Depois, por causa do isolamento social imposto pela pandemia. Por fim, o governo atrasou o pagamento do seguro defeso, agravando ainda mais a crise. A maioria das famílias ficou na miséria. As viúvas sobreviveram ajudando-se umas às outras. Agora, com a reabertura da temporada de pesca, os barcos têm urgência de mar. Porque o mar é uma casa que não se abandona.” (Página 10)
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