Apesar de ser um livro de narração pausada, até mesmo cansativa, foi uma leitura que conclui em poucos dias. De momento, enquanto escrevo essa resenha ainda tenho vários sentimentos mistos com essa primeira parte de trilogia que, embora tenha me intrigado por sua ambientação misteriosa e sua trama carregada de toques sombrios, reconheço que é o tipo de livro que pode não agradar à todos os leitores, especialmente aqueles que possuem dificuldades em seguir uma história de narrativa lenta, onde os fatos tardam um pouco em acontecer.
Emmeline cresceu em uma comunidade isolada, onde o pânico se apoderou dos moradores que acreditam que ao abandonar as muralhas de seu esconderijo e aventurar-se no bosque poderão tornar-se vitimas do malmaci, um monstro que devora vítimas indefesas. Assim, durante gerações a pequena comunidade instituiu regras de sobrevivência, a fim de que todos pudessem viver em paz e união naquele espaço reduzido onde habitam.
Para tanto são guiados por um grupo de homens, os membros do Conselho, que são basicamente os que instituem as leis e zelam pelo cumprimento das regras, punindo àqueles que transgridem alguma das regras. O pior de todos os castigos é certamente ser condenado à Encruzilhada, para sofrer uma dolorosa morte, preso dentro de uma jaula, esperando dia após dia o próprio corpo perecer.
Emmeline já é mal vista desde sempre na comunidade, por causa do pecado de sua avó, que foi condenada à Encruzilhada.
Como se fosse pouco, a garota possuí uma curiosidade aguçada e não consegue manter-se longe do bosque. Emmeline sente como se o bosque estivesse a chamá-la, convidando à desbravá-lo, até mesmo desafiando a garota de alguma maneira. E ela quer entender porque se sente cada vez mais livre fora dos limites da comunidade e porque até mesmo os bons homens respeitados parecem ocultar segredos.
O que gostei de Winterkill foi justamente a diversidade de temas que o livro trata. A autora soube abordar bem todo o efeito que o medo ao desconhecido pode exercer em um grupo de pessoas, e isso associado ao misticismo pode permitir que homens controlem populações inteiras como vemos no caso da comunidade de Emmeline.
A comunidade possuí regras contraditórias, rígidas, que fazem o leitor questionar-se bastante já que grande parte dos fatos abordados fazem parte da realidade de sociedades que existem em nosso mundo atual. Embora a autora não faça referência à nenhuma religião específica, na trama em si fica tudo implícito já que a própria Emmeline por exemplo possui uma marca de ímpia por causa do pecado de sua avó, e até mesmo o próprio malmaci acaba sendo muitas vezes associado como uma figura enviada para a punição de um grande mal.
A maneira sucinta como a autora soube tratar todos os temas foi muito boa, e eu gostei porque a trama traz diversos assuntos como o casamento arranjado, a pena de morte, o fanatismo e tantos outros de uma maneira bastante simples ao leitor.
Apesar dos acertos a narração tem falhas, pois a história fica cansativa e arrastada. Os momentos mais intensos demoram para acontecer, alguns acontecimentos são muito previsíveis e não conseguem impressionar ao leitor, e por muitas vezes as páginas passavam sem que nada relevante acontecesse. É um livro que instiga e desperta a curiosidade, mas que ao mesmo tempo resulta pausado demais.
Os personagens são bons. Como se trata de uma trama pausada, sem ação ou demasiadas reviravoltas, a autora acaba traçando personalidades bem detalhadas em seus personagens, de maneira que grande parte deles é possível ao leitor conhecer profundamente, em especial Emmeline, uma protagonista forte que, apesar de suas limitações não se deixa abater e persiste acreditando na sua própria intuição.
Winterkill é um livro que recomendaria com ressalvas. Quem não se importe em ler uma trama mais pausada, que está mais focada na ambientação e na construção da história do personagem, pode desfrutar e até mesmo se encantar pela história, pois a premissa é boa e mantem o leitor intrigado. No entanto, pra quem está em busca de histórias mais cheias de reviravoltas e emoções, acredito que esse não seja o livro ideal.