A cidade sitiada foi escrito durante os três anos que Clarice viveu em Berna, quando seu marido trabalhava no consulado brasileiro local. Ela sentia-se melancólica, solitária e oprimida pelo silêncio da capital suíça. Isso deve ter sido devido ao fato de que a cidade é majoritariamente germanófila e Clarice, que dominava bem o inglês e o francês não falava alemão. A autora transferiu suas aflições e sentimentos pessoais para a protagonista, Lucrécia Neves, “mulher sitiada” que sentia-se sufocada no insípido subúrbio de São Geraldo. Assim que terminou de escrever o livro, Clarice rumou para a maternidade, para ter o primeiro filho, Pedro. O posfácio é de Benjamin Moser, traduzido da edição norte-americana por ele coordenada desta obra.
A cidade sitiada - Edição comemorativa
Clarice Lispector
Edições (2)
Ver maismas um bicho conhece a sua floresta; e mesmo que se perca - perder-se também é caminho.
É difícil resenhar Clarice, ela é sempre mais profunda do que a gente consegue mergulhar, sempre tem algo a mais em um nome, em um significado, em um elemento, que não está na superfície, apesar de Lucrécia Correia (L.C.) inverter Clarice Lispector (C.L.) e propor uma subversão disso, tudo o que Lucrécia Neves podia conhecer de si mesma estava fora dela: ela via. sua vida íntima é exterior a ela, a própria cidade de S.Geraldo, com seus cavalos livres, soltos em confronto com as máquinas urbanas que chegam transformando tudo, um mulher-cidade em mutação. Era uma paciência de construir e de demolir e de construir de novo e de saber que poderia morrer um dia exatamente quando demolira em vias de erguer. Ouvi falar que esse livro era um dos mais difíceis dela ou um dos que fez menos sucesso na época que foi lançado e lendo eu consigo entender o porquê. Pra mim ele foi como uma cidade sitiada mesmo que eu precisei adentrar com meu Cavalo de Tróia construído de pedaços de Clarice que eu já conhecia, da sua obra e da sua vida, e outras tábuas de referências (gregas: nos nomes Perseu, Lucrécia; católicas: São Geraldo padroeiro das mulheres grávidas e partos felizes, E SIM Clarice estava grávida quando escreveu esse livro), certas coisas que eu precisei pesquisar um pouco depois para entender.. mas entrando no livro-cidade-mulher-cavalo, teve vezes que eu encontrei a Clarice que gosto com suas frases pungentes e explanação emocional e em outros momentos eu me senti muito escondido, sitiado, encontrando muros (propositais?) ou sem achar o que procurava nessa cidade. Não foi algo que me arrebatou completamente como A Hora da Estrela: mas tive momentos de conexão forte ou estranhamento estrangeiro que sempre me visita com Clarice. ‘“Uma alegria mansa já começava a circular no sangue com o primeiro calor Não queria entrar em caminho de amor, seria uma realidade sangrenta demais ; Mas seria paixão ou fome de piedade?, A maravilha como a larva escura no coração. “‘ Pensei nela, uma mulher inteligente, advogada, jornalista, escritora, vivendo no exterior como mulher de diplomata, longe de tudo, sitiada, grávida de um filho mas também de si mesma o sacrifício da carne é realizar-se como carne, selvagem e urbanizada. Acho que ela questiona um pouco seu papel e seu destino aqui (não fazemos isso sempre? em todos lugar e tudo que fazemos?), de quem ela é com quem ela se quer e pode se relacionar, sim também, mas principalmente o que ela é, o que ela quer, o que ela pode querer e ter, o que pode uma mulher, o que pode uma cidade fazer com os campos e selvas que engole ou destrói enquanto cresce, como a selvageria criativa e criadora da vida continua a existir mesmo entre muros e automóveis e viadutos. ‘“o milho no campo era a sua vida mais interior. O campo se estendia silencioso; lá estava a outra vida”’ O que nos resta de humano primordial em um cidadão civilizado e encaixado, do quanto precisamos de outras formas de entender o mundo, de sentí-lo, de vivê-lo, cavalos correndo, trotando, livres e donos de si, com um conhecimento de mundo que nós humanos nunca conseguiremos alcançar completamente porque é só deles, mas podemos procurar nos aproximar. ‘"Havia uma coisa que o pensamento não pegava e que um cavalo veria; com esse olhar sobre o mundo que tem um cão deitado?”’ Que nossa humanidade não nos sitie demais, e possamos trotar quando for preciso ou brotar como campos de milho, centauros, animais, matéria, carne se fazendo carne, que somos. ’”O milho crescendo no campo fora o seu maior pensamento. E o cavalo era a beleza do homem. Assim eram as coisas. Sua paz fora a beleza de um cavalo. Seria esta a história de uma vida vazia? “‘
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