Depois do tão aguardado como surpreendente e bem recebido livro de Margarida Vale de Gato (Mulher ao mar), de novo a Mariposa Azual edita uma autora cujo trabalho poético se aguardava há muito em livro, depois de Crematório sentimental («Quasi», reeditado na «Livrododia»). Os poemas de Golgona Anghel, alguns deles dispersos em publicações e blogues, prometiam nova corporização num conjunto publicado (organizado num tríptico temático), francamente estimulante até pela singularidade da voz poética da autora. Vim porque me pagavam é o título da obra. * VIM PORQUE ME PAGAVAM, e eu queria comprar o futuro a prestações. Vim porque me falaram de apanhar cerejas ou de armas de destruição em massa. Mas só encontrei cucos e mexericos de feira, metralhadoras de plástico, coelhinhos de Páscoa e pulseiras de lata. A bordo, alguém falou de justiça (não, não era o Marx). A bordo, falavam também de liberdade. Quanto mais morríamos, mais liberdade tínhamos para matar. Matava porque estavas perto, porque os outros ficaram na esquina do supermercado a falar, a debater o assunto. Com estas mãos levantei a poeira com que agora cubro os nossos corpos. Com estas pernas subi dez andares para assim te poder olhar de frente. Alguém se atreve ainda a falar de posteridade ? Eu só penso em como regressar a casa; e que bonito me fica a esperança enquanto apresento em directo a autópsia da minha glória.

