sempre em frente até o fim
Edgar Wallace foi um escritor incrivelmente prolífico, capaz de escrever dezenas de romances policiais a toque de caixa. Reza a lenda que certa vez ele ditou um livro completo entre a noite de sexta e a manhã de domingo! Isso é o que relata o grande cronista Paulo Mendes Campos, em seu divertido prefácio à coleção de E.W. publicada pela Ediouro: “Edgar Wallace ou Dez Quase-Constantes do Autor Policial”. Aliás, sobre esse prefácio vale dizer que é tão divertido (pela ideia de apresentar a biografia do autor como uma série de “leis do autor policial”) quanto totalmente furado (pois as “quase-constantes” listadas não se encaixam na vida dos principais autores policiais que eu conheço). Voltando a Edgar Wallace, é de se supor que essa facilidade e rapidez em escrever gere uma obra com altos e baixos. Eu lembro de ter gostado muito, por exemplo, de “O Sineiro”, e de ter detestado outros livros dele, como “Os Quatro Homens Justos”. Esse “A Serpente de Plumas” fica no meio termo. A trama é interessante o suficiente para manter o leitor virando as páginas, mas há toda uma série de incongruências que vão testando nossa paciência. Mais ou menos da metade para o final comecei a imaginar a seguinte situação, que atiçou o meu lado escritor: como seria escrever uma história mantendo sempre um determinado ritmo de escrita, sem jamais poder corrigir o que foi escrito, seguindo sempre em frente até o final. Um livro assim tentaria uma expressão fiel da própria vida, que não admite pausas para reflexões, muito menos reescrever algum trecho. Achei essa ideia fascinante, e só não me atirei de cabeça nesse projeto por ter bem claro que o resultado final desse esforço certamente estaria repleto de furos e falhas de roteiro. Como, infelizmente, é o caso de “A Serpente de Plumas”. Tantas e imaginativas reflexões, quem diria, acabaram me convidando a admirar uma vez mais a divina Verve do grande Autor ao qual todos nós, escritores, consciente ou inconscientemente imitamos: o Demiurgo que com incomparável criatividade tece as tramas de nossas vidas nesse sublime e sempre novo magistral drama cósmico. https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2020/04/a-serpente-de-plumas-edgar-wallace.html


