Sinopse: Tento domar o Cavalo. Não consigo! Tenho-o em meu potreiro literário desde 2013. Já somos bem conhecidos. Por vezes ponho-lhe o laço e ele se deixa levar por um tempo. Depois, percebe minha empáfia e me derruba; foge, se afasta. Calmamente levanto, bato a poeira do corpo e o percebo, garboso, distante, como se me dissesse, te prepara mais, lê alguma outra coisa e tenta novamente. E eis que o Pedro agora nos brinda publicamente com o seu Cavalo Selvagem. E eu imagino um crioulo selvagem pela pampa afora, indomável! O Pégasu das Musas, o mitológico cavalo formado pelo sangue da Medusa, a serviço dos poetas, voando sobre o céu das coisas, revisitando memórias. O Cavalo Selvagem conta também um pouco da vida de todos nós, e nos vemos através do espelho, como Alice, muitas vezes esmaecendo, perdendo o tom forte da juventude, cedendo espaço à naturalidade da vida, que a toda hora nos cobra atitudes impetuosas, contra o arbítrio, ou em favor de uma fugaz democracia. Tudo está (estará?) aqui neste livro. Mas quando o autor pensa em nos ludibriar, como sendo este o seu primeiro e derradeiro livro, ele não sabe que apenas abriu a porta das suas/nossas memórias, e terá muito ainda a relatar. Luiz Carlos Vaz Jornalista
A memória é um cavalo selvagem -
Pedro Pérez
Edições (1)
Ver maisA memória como força constitutiva da vida
De origem atribuída aos alemães, o Bildungsroman, ou romance de formação, designa o tipo de obra em que é exposta, de forma pormenorizada, o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social e político de um personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade. Parece ter sido mesmo o escritor Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), com o seu “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1795-1796), aquele que deu a partida ao gênero ao apresentar-nos também, um personagem em terrível conflito entre o eu e o mundo. Todavia ao longo do tempo, ocorreram desdobramentos. Óbvio que acompanhando o contexto sócio-político-cultural próprio de cada país e época. O século XIX inclusive verificou crescente interesse por tais enredos. Aqui no Brasil tivemos o célebres: “O Ateneu “(1888), de Raul Pompéia, e outros ainda como “Menino de engenho” (1932), de José Lins do Rego e também o inesquecível “Ciranda de pedra” (1954), de Lygia Fagundes Telles. Temos nesse “inícios” do século XXI, “A memória é um cavalo selvagem”, do escritor e professor Pedro Perez. É uma obra sui generis esta porque logo em suas primeiras páginas, o narrador nos avisa: “estou um tanto certo que não se trata de uma autobiografia”. Por outo lado, a texto traduz um esforço definitivo para realizar confissões que revelarão o desespero interior que o narrador, há mais de cinquenta anos, diz sentir. Não há como também, deixar de associar um texto dessa natureza, com aquelas teorias do duplo ou do embate entre o homem e da besta tão bem exploradas por Xavier de Maistre em Viagem à roda do meu quarto (que é obra de 1794) e também por Machado de Assis em vários momentos de sua produção: “Há um indivíduo que meu corpo movimenta, e há aquele a quem, com muito custo, chamo de eu, apenas o contém.” Muito bem; passamos a acompanhar o protagonista narrador que relata a sua trajetória de vida desde os primórdios, ou seja, desde quando lembra. E recuamos no tempo para o início dos anos setenta do século XX. Este o ponto de partida do desenvolvimento de uma personalidade que confessa e deixa-nos entrever com frieza de detalhes, sua desordem interior que embora foque com veemência numa oposição aos ideais e a estrutura socioeconômica de uma sociedade burguesa, racista e autoritária, como a brasileira, por outro lado, segue nos mostrando também, como o protagonista – e o ser humano de uma maneira geral – , vai se adequando, se adaptando, e torcendo circunstâncias para, como um camaleão, assumir as cores da brutal realidade circundante. E vai “longe” assim. Ou seja; partiu da inocência infantil de um menino nascido em uma pequena cidade do interior dos pampas gaúchos que brincava com soldadinhos de forte apache, aqueles cara-pálidas norte-americanos a exterminar impiedosamente os diabólicos índios pele vermelhas, entrou na adolescência mergulhado em leituras sistemáticas da coleção de livros “Os Pensadoresaa’ (e que quem viveu os anos setenta do século XX ao menos ouviu falar daquela coleção), com as obras das principais cabeças que construíram toda essa imensa herança cultural do ocidente, põe-se rapaz a frequentar os textos de Sartre, Camus, Hemingway e Proust, passa a fazer “uso razoável do padrão emocional do existencialismo, “que muito me interessava filosófica e literariamente.”. E Pronto! Temos estruturada a personalidade do rapazinho deprimido e sorumbático que ele se torna. Finalmente esta criatura muda-se da cidade de Nascentes para Pontes onde acabou por estudar na ‘prestigiosíssima’ faculdade de Direito. Interessante notar que sua memória sempre retorna saudosa para a imagem de um rádio valvulado que existia na casa de seu avô. Aquele mesmo homem que era para ele um mágico inventor de histórias fantásticas que o encantavam. Explícita alusão à única fase de sua vida em que ele realmente foi feliz. O texto do senhor Pedro Pérez carrega uma retórica pesada, que não chega a surpreender o leitor (não nos esqueçamos que o protagonista é formado em direito e para piorar, exerceu por décadas a cátedra de filosofia do direito, portanto não há de se estranhar). Falar em retórica (entendida como técnica de persuasão por meio da palavra), é complicado porque sempre provoca controvérsias. Se por um lado, é preciso refletir que não existe um estilo, uma linguagem literária distinta essencialmente dos demais discursos. Um discurso só ganha o estatuto de literário por um juízo de valor estético. Para compor o discurso literário, o escritor lança mão dos mesmos recursos que estão disponíveis para a criação dos demais discursos. Não há estilos, nem recursos retóricos exclusivamente literários. Assim, não é a metáfora nem a rima, nem o verso que estabelecem a poesia. Não é a ‘opacidade’ de um recurso retórico nem um suposto ‘desvio’ a um modo normal de discursar que fundam o caráter literário. No discurso literário podemos encontrar o estilo culto, e o elevado, a gíria e o arcaísmo, o racional, o conciso, o opulento, o opaco e o claro, figuras que causam estranhamento e figuras que não causam estranheza alguma. Decididamente não há formas essencialmente literárias. O crítico literário Hélio Pólvora escreveu que, “apurar o ponto de cozimento da escrita não significa necessariamente cortar, enxugar, como queria Ernest Hemingway. Às vezes é preciso acrescentar, conforme lições de Balzac, Henry James e Joseph Conrad. Havemos de entender que a retórica não é apenas adorno; também pode acentuar ênfases, tangenciar o indizível”. Condena-se a retórica, privilegia-se o estilo seco, enxuto — e, no entanto, Faulkner é um escritor retórico, Conrad é um retórico. Retóricos são dois de seus seguidores, García Márquez e José Saramago e no entanto escreveram obras significativas. Por outro lado, alongar-se em demasia em digressões, em volteios excessivos, positivamente cansa o leitor porque não sente a narrativa avançar. Por certo a questão da dosagem tem seu peso... Com efeito. Na leitura de “A memória é um cavalo selvagem”, ficamos mais envolvidos com as palavras. Como o curso da narrativa dialoga com os paradoxos ou pensamentos que o narrador está explorando; ou melhor, as verdades ditadas pelo temperamento e formação do escritor/narrador. A realização dos ideais humanistas é intensamente buscada pelo narrador, não constitui somente parâmetro para julgar as diversas classes e seus representantes – com destaque para a classe dos operadores do Direito. É força e critério da ação de todo o livro. Observe-se como se situadas certas questões éticas e morais: “O século XX emprestou ao poder a necessidade de purificação pelo direito, mas impediu que essa revelação fosse feita. O poder não se mostra muito, a nitidez de seus estratagemas apresenta uma nudez ideológica que o constrange. Então tudo fica oculto, tudo precisa ficar escondido, a verdade que mora no peito do poder não lhe desce pela boca. A política vexa o direito se alguém lhes denuncia a proximidade e a dependência. Quem sai de escolas jurídicas como a minha nega o contato do direito limpo com a política suja. O fetiche é uma necessidade dos juristas, uma etnia medrosa, e eles se afastam dessa constatação torcendo a cara.” Veja-se ainda o desabafo de um homem que, por décadas viveu os meandros do tal Direito: “Muitas vezes percebi a formação de uma casta agressiva no ministério público, e vi que a ele a sociedade recorre para realizar os atos de vingança específicos do Estado de Direito. A lei basta. A lei justifica. A lei legitima o homem mau quando ele a abraça e permite que ela fale por ele. O homem mau abre a boca e a lei sai como esterco, um excremento validador do seu argumento. O homem bom também faz isso, mas quando a lei está acima dos homens já não sabemos identificá-lo. A lei nubla tudo, a visão se torna turva e os sentidos se atrapalham. Meu curso me mostrou a torpeza de sua orientação, e eu fui detestando aqueles detritos ideológicos todos, os professores, os autores, os recém-formados de fatiota, os juízes, os promotores e toda a racionalidade jurídica”. E eis que, revela-se uma das faces da problemática que aflige o protagonista: “Mil novecentos e setenta e nove foi um ano assustador. Minha doença nervosa instalou-se definitivamente”. É no desespero que o personagem se revela, bem consciente de que ao passar por esses transes pode-se sim escolher a ironia, apelar para o sarcasmo. Amadureceu o bastante para perceber que, quem afinal ri de si mesmo não pede perdão; salva-se. O senhor Pedro Perez mostra-se hábil em não permitir que se lhe escapem circunstâncias e vicissitudes eloquentes; garante ao leitor, se entusiasmado ou cúmplice, estupefato ou indignado, mais de uma leitura, segundo planos narrativos insinuados ou interpostos, em uma narrativa rica em técnicas, em cruzamentos de pontos de vista e jogos de tempo. Alguns leitores podem até ver na obra menos que um “romance de formação”, há por certo também um outro lado da moeda que é um processo deformativo singular, (do menino ao homem no que ele tinha de puro e bom, talvez) que, como tal, pede do leitor uma outra epistemologia, uma epistemologia negativa da destruição do sujeito imposta por um mundo desconexo e brutal. O sujeito, apesar de levar uma vida social comum, é fundamentalmente um solitário (e tem absoluta consciência disto). Positivamente. Contar com um solo tão raro de interlocutores não só exponencia e dramatiza os limites do literário, como também empresta à recepção da obra um veio forte do humano. Mas a grande força propulsora, é mesmo a memória e sua característica de “Cavalo selvagem”, que não se deixa domesticar ou menos ainda iludir. Aquilo que há séculos escreveu Miguel de Cervantes: “Ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!” É a mola mestra desta narrativa que acaba por alcançar aquela dimensão da literatura como fiandeira de achados e perdidos de que tanto necessitamos. TRECHO: ... “Vivemos convencidos de certas coisas, mas elas se vão embaralhando e nos confundindo até misturarmos fatos e pessoas, a biografia voando, o futuro virando presente, o presente virando passado e o passado se remontando em nostalgias férteis. O tempo visto assim, como um bicho esfomeado, engole sem perdão nossas recordações, e ficamos sós com nossas impressões inventoras. Tudo o que foi não é mais, e tudo o que não foi é agora. Esses subterfúgios tormentosos me foram necessários para marcar as fronteiras onde me movimentei desde o início, mesmo que essa minha tão minúscula biografia fosse se estabelecendo por criações imprecisas e alucinações oportunistas; ah, como é comovente o desespero dos homens pela paz da identidade!” Livro: “A memória é um cavalo selvagem”, Romance de Pedro Pérez – Editora Penalux, Guaratinguetá - São Paulo, 2019, 294 p. ISBN: 978-85-5833-593-5 - Link para compra e pronta entrega: https://www.editorapenalux.com.br/loja/a-memoria-e-um-cavalo-selvagem
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