Li o primeiro capítulo de As Aventuras de Tom Sawyer e fiquei muito intrigada, como se já tivesse feito essa leitura em algum momento; aí me lembrei que já havia lido este livro durante o ensino fundamental. Não sei por quê, contudo, isso foi completamente apagado da minha memória quando listei minhas leituras aqui no Skoob. Porém, percebi que foi um grande prazer reencontrar e rememorar essa experiência que, se tratando de Mark Twain, é sempre cheia de ironias e sátiras, com tiradas muito boas.
Mas de uma coisa eu tenho certeza: de maneira nenhuma eu compreendi tão bem as nuances contidas na escrita de Mark Twain na infância como nessa nova leitura. Um exemplo é o primeiro capítulo, na apresentação da tia Polly, onde, em um único monólogo dela, o autor consegue condensar várias camadas do mundo moral dos adultos neste livro. Aqui, as citações das Escrituras não trazem paz; elas funcionam como se fossem usadas por um tribunal inquisidor: “Deus está vendo”, “estou acumulando pecado”, “serei a destruição dessa criança”. Isso demonstrou para mim uma fé pesada, que oprime. Tudo se torna dever, culpa e vigilância. Em minha leitura, me pareceu que Mark Twain quis mostrar como a religião internalizada de forma tão rígida consegue causar paralisia, ao invés de orientar.
E assim segue em todos os capítulos posteriores. A escrita riquíssima condensa um mundo de nuances que, à primeira vista, sendo lido por uma criança, passam despercebidas, mas que, em uma leitura mais madura, revelam a genialidade do autor ao conseguir expor um modelo moral incoerente e doloroso, de alguém que não sabe amar sem ferir, nem como disciplinar sem se sentir monstruosa. Sei que é um livro infantil e talvez eu tenha analisado demais cada fala e minúcia da narrativa, mas foi tão prazeroso cavoucar e encontrar essas camadas, em busca de um sentido pleno, que me fez apreciar muito mais este clássico.
No início, eu já estava admirada com as nuances contidas nos curtos diálogos, mas conhecer Tom Sawyer, este menino que representa a imaginação tentando respirar dentro de um mundo que insiste em apertar o laço, foi extremamente fascinante. Ele é astuto, imaginativo e escrito na medida certa de humor e ironias. Confesso que ele me arrancou boas risadas com seus embates com o garoto novo, sua esperteza e sagacidade, além de seu modo dinâmico e libertador de encarar a vida, que trouxe uma profundidade maior para o livro.
A escrita de Twain sempre foi, para mim, algo prazeroso de ler; é impossível ficar indiferente diante do tom leve, irônico, observador e bem-humorado, que está sempre dizendo mais do que está na superfície. Ele torna o universo de Tom tão rico e palpável que é como se eu tivesse vivenciado essa infância do século XIX, tão contrastante com a que realmente vivi.
Quanto às questões problemáticas do livro: fico sempre incomodada quando leio pessoas negras sendo diferenciadas de pessoas brancas pelo jeito “errado” de falar. Mesmo Twain sendo pessoalmente um crítico da escravidão, e mesmo que ele não estivesse conscientemente tentando desumanizar seu personagem ao usar a fala “errada” de Jim para diferenciá-lo, o fato é que, ainda assim, lendo o livro com o olhar de hoje, é impossível não notar que ele reflete o racismo estrutural da época. Mas, no entanto, o autor ganha pontos por não rir de Jim. O que acabou me fazendo pensar que o personagem não nasce de um lugar de desprezo, mas de um realismo que, sem querer, carrega os limites e os preconceitos do seu tempo.
Terminei o livro pensando: por que personagens como Tom Sawyer são tão estimulantes de ler? Talvez por serem personagens vibrantes, vívidos e imperfeitos, imaginativos, impulsivos e profundamente avessos a qualquer forma de autoridade que tente moldá-los. Personagens assim parecem escapar das páginas e lançar suas raízes em nossas mentes, tornando-se mais reais e tangíveis a ponto de nos afastar do nosso papel de leitores, atravessar o véu que separa nosso mundo do mundo da imaginação e embarcar na aventura com eles. Isso me faz lembrar Antoine de Saint-Exupéry e seu Pequeno Príncipe me alertando da importância de manter a criança dentro de mim viva; sei que é devido a isso que consigo, mesmo depois de adulta, vivenciar as histórias que leio, mesmo que o público ao qual foram destinadas tenha ao menos metade da minha idade.
Esta foi uma leitura vibrante, com uma aventura fascinante que me arrancou do mundo sério e sem brilho dos adultos para me lançar em um maravilhoso mergulho pela infância de um garotinho da pequena cidade fictícia de St. Petersburg, às margens do rio Mississippi, nos Estados Unidos dos anos 1840.
Li o primeiro capítulo de As Aventuras de Tom Sawyer e fiquei muito intrigada, como se já tivesse feito essa leitura em algum momento; aí me lembrei que já havia lido este livro durante o ensino fundamental. Não sei por quê, contudo, isso foi completamente apagado da minha memória quando listei minhas leituras aqui no Skoob. Porém, percebi que foi um grande prazer reencontrar e rememorar essa experiência que, se tratando de Mark Twain, é sempre cheia de ironias e sátiras, com tiradas muito boas.
Mas de uma coisa eu tenho certeza: de maneira nenhuma eu compreendi tão bem as nuances contidas na escrita de Mark Twain na infância como nessa nova leitura. Um exemplo é o primeiro capítulo, na apresentação da tia Polly, onde, em um único monólogo dela, o autor consegue condensar várias camadas do mundo moral dos adultos neste livro. Aqui, as citações das Escrituras não trazem paz; elas funcionam como se fossem usadas por um tribunal inquisidor: “Deus está vendo”, “estou acumulando pecado”, “serei a destruição dessa criança”. Isso demonstrou para mim uma fé pesada, que oprime. Tudo se torna dever, culpa e vigilância. Em minha leitura, me pareceu que Mark Twain quis mostrar como a religião internalizada de forma tão rígida consegue causar paralisia, ao invés de orientar.
E assim segue em todos os capítulos posteriores. A escrita riquíssima condensa um mundo de nuances que, à primeira vista, sendo lido por uma criança, passam despercebidas, mas que, em uma leitura mais madura, revelam a genialidade do autor ao conseguir expor um modelo moral incoerente e doloroso, de alguém que não sabe amar sem ferir, nem como disciplinar sem se sentir monstruosa. Sei que é um livro infantil e talvez eu tenha analisado demais cada fala e minúcia da narrativa, mas foi tão prazeroso cavoucar e encontrar essas camadas, em busca de um sentido pleno, que me fez apreciar muito mais este clássico.
No início, eu já estava admirada com as nuances contidas nos curtos diálogos, mas conhecer Tom Sawyer, este menino que representa a imaginação tentando respirar dentro de um mundo que insiste em apertar o laço, foi extremamente fascinante. Ele é astuto, imaginativo e escrito na medida certa de humor e ironias. Confesso que ele me arrancou boas risadas com seus embates com o garoto novo, sua esperteza e sagacidade, além de seu modo dinâmico e libertador de encarar a vida, que trouxe uma profundidade maior para o livro.
A escrita de Twain sempre foi, para mim, algo prazeroso de ler; é impossível ficar indiferente diante do tom leve, irônico, observador e bem-humorado, que está sempre dizendo mais do que está na superfície. Ele torna o universo de Tom tão rico e palpável que é como se eu tivesse vivenciado essa infância do século XIX, tão contrastante com a que realmente vivi.
Quanto às questões problemáticas do livro: fico sempre incomodada quando leio pessoas negras sendo diferenciadas de pessoas brancas pelo jeito “errado” de falar. Mesmo Twain sendo pessoalmente um crítico da escravidão, e mesmo que ele não estivesse conscientemente tentando desumanizar seu personagem ao usar a fala “errada” de Jim para diferenciá-lo, o fato é que, ainda assim, lendo o livro com o olhar de hoje, é impossível não notar que ele reflete o racismo estrutural da época. Mas, no entanto, o autor ganha pontos por não rir de Jim. O que acabou me fazendo pensar que o personagem não nasce de um lugar de desprezo, mas de um realismo que, sem querer, carrega os limites e os preconceitos do seu tempo.
Terminei o livro pensando: por que personagens como Tom Sawyer são tão estimulantes de ler? Talvez por serem personagens vibrantes, vívidos e imperfeitos, imaginativos, impulsivos e profundamente avessos a qualquer forma de autoridade que tente moldá-los. Personagens assim parecem escapar das páginas e lançar suas raízes em nossas mentes, tornando-se mais reais e tangíveis a ponto de nos afastar do nosso papel de leitores, atravessar o véu que separa nosso mundo do mundo da imaginação e embarcar na aventura com eles. Isso me faz lembrar Antoine de Saint-Exupéry e seu Pequeno Príncipe me alertando da importância de manter a criança dentro de mim viva; sei que é devido a isso que consigo, mesmo depois de adulta, vivenciar as histórias que leio, mesmo que o público ao qual foram destinadas tenha ao menos metade da minha idade.
Esta foi uma leitura vibrante, com uma aventura fascinante que me arrancou do mundo sério e sem brilho dos adultos para me lançar em um maravilhoso mergulho pela infância de um garotinho da pequena cidade fictícia de St. Petersburg, às margens do rio Mississippi, nos Estados Unidos dos anos 1840.