Cotidiano -

    Mariana Travacio

    Moinhos
    2019
    106 páginas
    3h 32m
    ISBN-13: 9786550260309
    Português Brasileiro

    O mundo não acaba com um estrondo, já sabemos por T.S. Eliot. Mas de que trama é feita esse gemido que às vezes é um final, a dissolução de algo, e às vezes é só um rumor, um ronronar interno que reverbera em cada esquina da mente e não nos deixa respirar? Os contos, as vozes de Mariana Travacio transitam por esse limite estreito, cuja única escapatória parece se materializar nas duas caras da mesma moeda: a loucura e o esquecimento, últimas estações de uma viagem que com frequência apenas se inicia. A distância e estranheza dessas vozes as tornam perigosas; exageradamente controladas, se fundem, contudo, no exagero sem perceberem, como se retardassem algo que pode vir a resultar em uma fatalidade. Talvez haja um traço que defina a escritura de Travacio como nenhum outro: esse traço é a angústia. E se essa angústia se volta onipresente para os seus personagens, não é porque eles distorcem a realidade, muito pelo contrário: é porque aninham em cada gesto, em cada movimento, o silencioso fluir do cotidiano. José Maria Brindisi

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    Ivandro Menezes07/01/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O horror do cotidiano?

    Os contos de Cotidiano, como sugere o título, remete a situações comuns, corriqueiras, mas não simplórias. Guarda uma contradição generosa do quão absurdas são (ou podem ser) os pequenos gestos imperceptíveis que repetem e repetem e repetem. O ciclo infindo traz estabilidade e tédio; uma certeza incômoda que se disfarça de normalidade. Quando deixamos de amar quem está ao nosso lado? Quando perdemos a liberdade de escolher um outro destino, uma nova realidade? Quando abandonamos a audácia e a ousadia de nos sentirmos vivos e não aprisionados ao dilema de Sísifo no contínuo nascer, crescer, reproduzir e morrer? Mariana revela os desencontros e escreve de modo quase displicente a sedução das tramas e da vida diária, tomando-nos de assalto com cortes abruptos e coisas por concluir, sem se encerrarem, tal qual a infinita roda do cotidiano. Em certa medida, somos nós. Cada um de nós tentando, fracassando, lidando com dilemas, continuando, fazendo a engrenagem da vida seguir no ritmo inconstante, ainda que busquemos lhe imprimir uma constante. E eis aí o assustador, o surpreendente. Talvez não queiramos ser os personagens daquelas histórias, nosso reflexo nos espelhos de uma nova casa de uma nova mulher desmemoriada (como em Construção), nossos amores joviais ou tardios, dados por ridículos, haja vista a perspectiva que ninguém foge da própria solidão. Ao fim, resta a sensação incômoda de que a rotina, apesar de chata, burocrática e deprimente, é ainda o melhor consolo e remédio para continuarmos vivos, seguindo sem o assombro de ver-se como realmente somos. Vale destacar o ótimo trabalho de tradução do Bruno Ribeiro e a delicadeza da capa de Sérgio Ricardo. Ótimo livro.

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