Você conhece ou já ouviu falar de Bodocó? Se consultar o dicionário, trata-se de uma planta aquática abundante na microrregião de Araripina, no sertão pernambucano, aliás, a palavra pode ter sua origem ligada a uma tribo indígena, os Bodorocós, que habitou o local.
Contudo, minha pergunta não gira ao redor da planta nem da tribo, mas da cidade de Bodocó que encontrei no mapa, após ela entrar no radar da literatura brasileira por ocasião da divulgação dos vencedores do Sexagésimo Segundo Prêmio Jabuti, ocorrida virtualmente em 26 de novembro de 2020.
O motivo de tal interesse é auspicioso: De autoria da pernambucana Cida Pedrosa, nascida e criada em Bodocó, Solo Para Vialejo foi o vencedor na Categoria Poesia e escolhido o Livro do Ano durante o evento. Uma consagração que despertou interesse pelo ineditismo: jamais uma nordestina conseguira tal êxito.
Em linhas gerais, a autora lança mão das lembranças para contar em versos histórias de sua cidade natal, tendo como foco a maneira que Bodocó se relaciona com o mundo por intermédio da música. Para tanto, ela realiza uma jornada interior, inversa a viagem que realizou aos 15 anos, quando foi tentar a vida em Recife. Esse percurso é o mesmo realizado no passado por índios e negros fugitivos, empurrados do litoral para o interior, a fim de escapar do domínio do homem branco.
Fato que resultou numa rica miscigenação étnica e deu origem a diferentes ritmos como o xote, inspirado numa dança de salão trazida pelos portugueses, e um lamento sertanejo, aparentado com o blues. Aliás, curiosamente aparentado, pois ambos floresceram em áreas de cultivo do algodão, o vale do Mississipi e o semiárido nordestino, expressando sentimentos análogos, isto é, tristeza, sofrimento e até uma certa complacência com os infortúnios da vida.
Conforme explica a crítica literária Mariana Ianelli no Prefácio: Solo Para Vialejo é um grande poema de redescobrimento, mas também, para a poeta, um buscar-se a si mesma numa escuta interna, tendo por bússola e amuleto, em viagem ao passado e às notas dos antepassados, uma gaita. ‘Paraíso perdido prometido ‘, este vialejo azul foi um presente do pai que ela nunca aprendeu a tocar.
Agora sim a poeta o toca, revolvendo tempos, trazendo à tona todos aqueles a quem ela e sua poesia se filiam, mestres, maestros, país e mães de carne e alma que povoam sons de infância, como o som da roca de fiar, o violão de seu Dim, os benditos catados pelas mulheres nos campos de algodão, os aboios estrada afora na ‘voz blues’ do seu Bindô, as ladainhas da mãe, a Ave Maria de Schubert numa serafina de marfim nas manhãs de domingo. Sons que vem de longe, também de outras cidades, outras culturas, outros chãos peregrinos como a gaita de Bob Dylan ou as guitarras de Tom e John Fogerty.”
Para Johnny Martins que assina a contra-capa: “essa musicalidade é um grande elemento de destaque, sobretudo quando se lê essa epopeia mestiça em voz alta. No entanto, toda a estrutura visual é igualmente importante e se afasta do pertencimento a uma ‘tradição’ da poesia oral e performática à qual Cida Pedrosa se vinculava. Agora, ela precisa ser lida, não apenas ouvida”. (vide fotos)
Finalmente, Wellington de Mello, o editor que assina o Posfácio, propõe uma interessante perspectiva para o poema: “Pode-se afirmar que todo ele é construído a partir de tensionamentos que assumem diversas configurações: entre o individual e o comunitário, entre o racional e o afetivo, e, naturalmente, entre o lírico e o épico. A tensão entre memórias pessoais e as coletivas funciona como um pêndulo entre o ‘dentro’ e o ‘fora’, entre o que pertence ao domínio da memória afetiva do indivíduo e o que está fincado numa memória cultural compartilhada”.
Trecho do Solo Para Vialejo:
“... quase todos os filhos de bodocó vieram ao
mundo pelas mãos de hermínia parteira
de ofício senhora de muitos saberes e sempre
a postos para a luz quando a parturiente residia
longe montava de lado no lombo de um animal
ou era transportada por dois homens em uma
rede sempre acudia às mulheres nessa hora de
solidão coragem e fé suas mãos além de darem a
vida tocavam música das missas domingueiras
em uma serafina de dois pedais e teclas de
marfim comprada às suas expensas
as mãos de minha mãe hermínia
e o som de suas teclas nem sempre afinadas
foram
minha primeira experiência com deus
ao ouvi-la dedilhar a ave maria de schubert meu
coração se apertava e ficava com medo de perder
minha mãe as lágrimas sempre apontavam nessa
hora a hora dessa língua mater materializando a
saudade de um deus sertão e de algo nunca
vivido
ave maria
schubert
na igreja a tua música parece tão sincera
tão silenciosamentesertão
tão teluricamenteateia
schubert
schubert
schubert...”
(páginas 94, 95 e 96)
Nota: Vialejo é uma corruptela de realejo, instrumento musical também conhecido como harmônica ou gaita.
Boa leitura!