"Os periquitos que roíam o olho dos buritis da vargem esparramaram seu vôo verdolengo numa algazarra de menino, porque o baque de um tiro sacudiu o frio da manhã. Nalgum ponto, umas araras ralharam severas."
Nosso Graciliano Ramos do Cerrado! Reificação do sertanejo, relação (de exploração) do trabalhador com o dono de terra.
Conta a história de Piano, apelido para Supriano, que precisa trabalhar para o Coronel Elpídio para suprir uma dívida, mas ele não tem uma enxada e precisa ir atrás de uma. Tenta pedir emprestada, mas ninguém quer emprestar para que ele trabalhe para esse Coronel. Depois vai à cidade com um vigário e um sacristão, mas mesmo assim não consegue a enxada, e por fim não resiste às tentações de furtar uma. Acaba sendo pego por soldados, e o final do conto é pela perspectiva de habitantes de uma cidade próxima, que veem Piano capturado.
Além de maravilhosamente ambientado (sou suspeita pra falar do meu serTão), o conto também trabalha muito bem com as personagens, além de desenvolver incrivelmente o tema da reificação e da condição do sertanejo nas terras quase que feudais, que persistem até hoje no centro oeste. Ao longo do conto fica claro como o protagonista, Piano, vai perdendo seu propósito, sua vontade na sua busca. Ele vai se tornando cada vez menos humano, cada vez mais um objeto: ao final, ele já nem é mais Supriano, ele é, talvez, própria enxada? "Os soldados aproximaram-se mais para se certificarem se aquele era mesmo o preto Supriano. Tão esquisito!"
Viva Bernardo Élis.