A nova perspectiva que quero trazer começa na clássica esnobada que nossa heroína do romance - Elizabeth - bonita, eloquente, carismática e perspicaz, leva do Sr.
Darcy - um nobre ricaço que acaba de chegar a cidade e fica de pé, impassível e quieto enquanto todos dançam no baile.
Então o Sr. Bingley seu amigo expansivo, carismático e festeiro, tenta convence-lo a dançar. Porém Sr. Darcy, além de ofender a aparencia e classe social de Elizabeth se coloca em um estado de superioridade e antipatia - e detalhe: ela ouve todo o diálogo. Elizabeth teve que ouvir que era toleravel, e que o Sr. Darcy não iria dar atenção a quem estava sentada e já havia levado fora de todos os homens, que seria um castigo dançar com qualquer mulher naquele baile, que ele detestava dançar, ainda mais com um bando de pobres.
Porém, arrisco a fazer uma leve defesa ao Sr. Darcy, isso mesmo, uma defesa.
Primeiramente, Sr. Darcy era um nobre extremamente rico, tinha sangue azul como ninguém mais naquele baile. Quando ele chega ao baile, o que acontece? Surge a realidade social mais comum ao populacho - a fofoca descarada. Todos falam do Sr. Darcy, de sua aparencia, altura e modos, há até uma fofoca sobre exatamente o quanto ele ganha.
E em segundo lugar, quando o Sr. Bingley tenta convence-lo a dançar, a primeira coisa que faz é insultá-lo, daí já não é de se esperar uma resposta favorável.
O título original de orgulho e preconceito é "Primeiras Impressões'. Ao longo de toda a história vemos alguns personagens quebrando a cara com suas primeiras impressões. Um sujeito que parecia um nobre é um canalha; um marido que se casa na juventude pela beleza de sua mulher e depois não a suporta mais.
Porém as primeiras impressões não se restringem somente aos personagens, nós, leitores, também temos nossas primeiras impressões. Quando lemos as frases do Sr. Darcy já estamos fazendo parte da fofocaiada do baile, somos igualmente expectadores que não sabemos nada sobre o sujeito, "ouvimos" o que estão dizendo por ai e estamos formando nossa primeira impressão. Lendo as frases rapidamente só pescamos as partes mais escandalosas e logo concordamos com a opinião geral: o cara é um nojento.
Se prestarmos atenção ao diálogo completo, entenderemos que Sr. Darcy detesta dançar com qualquer pessoa, abomina dançar com pessoas que não conhece muito bem. E ali ele não conhecia ninguém, além de ser extremamente orgulhoso. O Sr. Darcy é tão orgulhoso quanto incapaz de lidar com pessoas desconhecidas, um misto de arrogancia e desajuste social. Um sujeito rico, bonito, inteligente que despreza quem está socialmente abaixo, mas igualmente um banana. Porém ninguém percebia esta parte dele.
Quando o Sr. Darcy diz que Elizabeth é tolerável, está sendo orgulhoso e tentando se defender de uma situação que seria horrível.
Além de que, por Sr. Darcy ser um nobre, chamar uma mulher especifica para dançar iria causar uma fofoca ainda maior. Além da frase de sua frase ser arrogante, havia um pouco de verdade, Darcy não podia arriscar chamar uma mulher pra dançar e causar um grande escandalo.
Sr. Darcy é um misto de orgulho, falta de traquejo social e comentários "justos" sobre a reação da sociedade e suas ações.
E essas características são magistralmente exploradas ao longo do livro, sem que tenha de forçar a barra, eles só mudam... interagindo. Os personagens são assustadoramente consistentes.
Mais tarde, Elizabeth, de um modo inusitado vai ajudar o Sr. Darcy a mudar e arrumar suas tres características. E o Sr. Darcy, por sua vez, vai ajudar a Elizabeth vai descobrir que também tinha muito orgulho escondido.
O livro é magistral porque, nele, o amor vem depois de uma revolução moral nos personagens. Descobrindo-se a si mesmos, descobrem o outro. Um larga mão do orgulho (que o levava a ter preconceito); ela abre mão
dos preconceitos (porque de descobre orgulhosa).
Enfim, o amor não é uma paixão cega, é uma decisão racional e alimentada por admiração moral. O próprio leitor participa das transformações e ve um pouco de si em cada personagem, descobrindo seus próprios orgulhos e preconceitos.