Sem querer desmerecer os autores nacionais, se a trama tivesse sido escrita por Stephen King ou mesmo por Peter Straub, teria dado um clássico de arrebentar. Infelizmente parece que o famoso "complexo de vira-lata" brasileiro tomou conta do autor, porque ele se concentrou mais em fazer uma crítica aos tempos da ditadura (o livro foi escrito nos anos 80) do que trabalhar no elemento-título: cachorros que revertem ao seu estado primitivo, depois que alguns provam a carne de um mendigo.
Os primeiros capítulos dão aquele arrepio gostoso na espinha e te enchem de expectativas; cachorros começam a atacar seus donos e se reunir em bandos nas ruas devorando quem vir pela frente. A polícia, impotente para cuidar do caso, procura abafar como pode, e entra em cena Maria Cecília, uma clichética repórter sensual, determinada a levar a verdade ao povo. Previsivelmente, ela se envolve com o único policial honesto (Setúbal) metido nessa bagunça e rola um pouco de sexo cru e desnecessário. Só que Setúbal é divorciado e sua esposa e filhos querem ele de volta de qualquer jeito; então Maria é meio que a vadia destruidora de lares... epa, mas esse lar já estava destruído mesmo, não?
Tipicamente, as autoridades recusam-se a tocar no assunto porque assumir a própria incompetência ia desmoralizá-las aos olhos da população. Maria Cecília é apanhada numa armadilha, torturada (há uma descrição terrível dos efeitos causados pelo pau-de-arara) e estuprada repetidamente por policiais, que depois a atiram na rua para ser comida viva pelos cachorros. A tragédia faz seu namorado ter um colapso nervoso. Mas, no final das contas, tudo se resolve: os cachorros são exterminados no Brasil inteiro e em outros países e o pobre Setúbal se consola nos braços da ex. Com a "vadia encrenqueira" (tô ironizando, gente), eliminada, o governo e a família brasileira podem descansar em paz. FIM.