"Somos uma sociedade oprimida por uma pequena minoria que apela para a alienação e para uma falsa democracia a fim de manter o povo ignorante do fato de que é ele o principal ator dessa história".(LEÃO Aquino Rubim Santos. Brasil: Uma História Popular. p.15).
Lançado originalmente em 2003 em uma época de intensa efervescência política e redemocratização no país, o livro se propõe a fazer exatamente o que o título promete, contar a trajetória da construção do Brasil não pelo topo, mas pela base.
"Você se lembra do caso do indio José Galdino, que foi queimado vivo em Brasilia por jovens de classe média? Do juiz Nicolau, apelidado de Lalau por ter lesado o Brasil em quase 170 milhões de reais? Do ministro que pagou 200 mil reais a deputados para que votassem na lei de reeleição do presidente? Do presidente da Republica que declarou preferir cheiro de cavalo a cheiro de gente? Ou do assassinato de várias crianças de rua, na Candelária, na cidade do Rio de Janeiro? Fatos como esses só podem acontecer em uma sociedade em que existe uma grande distância entre as camadas populares e a elite.É esse tipo de modernismo que alimenta a sociedade de consumo. Aumenta o individualismo, a alienação e a ideia de impunidade". (LEÃO Aquino Rubim Santos. Brasil: Uma História Popular. p.46).
O livro é estruturado cronologicamente, passando pelo período colonial, o Império e as várias fases da República. No entanto, a narrativa evita a mera decoreba de datas e nomes. Os autores utilizam uma linguagem que, embora rigorosa do ponto de vista acadêmico, é extremamente acessível, fluida e engajadora, o que explica seu enorme sucesso tanto no ambiente universitário quanto no ensino médio. Ao longo dos capítulos, a análise econômica e social caminha junta. O leitor compreende como os ciclos econômicos (açúcar, ouro, café) moldaram a profunda desigualdade social que o país carrega até hoje. O Estado brasileiro é frequentemente analisado como um instrumento de manutenção de privilégios das elites, que historicamente sufocaram as demandas populares por meio da violência ou da conciliação por cima (as famosas "transições pacíficas" que mantêm tudo como está).
"Mas continuamos produzindo para o mercado externo. A estrutura de propriedade da terra não foi modificada. Seguimos dominados pela presença do capital estrangeiro: o capital inglês. Não lhe parece que hoje vivemos uma situação semelhante?" (LEÃO Aquino Rubim Santos. Brasil: Uma História Popular. p.31).
O que gosto aqui é como eles fazem o deslocamento do protagonismo histórico. Enquanto a historiografia tradicional e oficial, tendia a glorificar os "grandes heróis" (reis, generais, presidentes e oligarcas), esta obra adota uma perspectiva firmemente ancorada no materialismo histórico. Aqui, os verdadeiros protagonistas da história são os povos indígenas e sua resistência à invasão colonial, os africanos escravizados, destrinchando não apenas o horror do tráfico, mas as complexas formas de rebelião, a criação de quilombos e a preservação cultural e a classe operária, os camponeses e os movimentos populares que, ao longo da República, lutaram por direitos, terra e dignidade.
"Só alguém, oriundo desse outro Brasil, que sentiu no corpo a paixão dolorosa do povo brasileiro (...) pode legitimamente se propor refundar, com outros, um Brasil para todos. Esse é o sentido profundo do anunciado novo pacto social; sem essa repactuação, Lula será um presidente como os de- mais, apenas mais à esquerda e com acento mais social. E nada mais. Mas Lula sabe: se não fizer a revolução politico-social de que carecemos, tornará impossivel o salto de qualidade rumo a um país autônomo, moderno, aberto à fase planetária da Humanidade, e terá defraudado as grandes maiorias em nome das quais se elegeu". (LEÃO Aquino Rubim Santos. Brasil: Uma História Popular. p.103).
O livro desconstrói a ideia de que o povo brasileiro é historicamente passivo ou pacífico. Os autores trazem à tona dezenas de revoltas populares (como a Cabanagem, a Balaiada, a Revolta da Chibata e o Contestado) que foram violentamente reprimidas pelo Estado. A obra dialoga muito bem com documentos da época, trechos de manifestos populares e dados socioeconômicos que fundamentam a crítica social. Mesmo tendo sido gestada no final do século XX, as reflexões sobre o racismo estrutural, a concentração de terras (latifúndio) e a exclusão política continuam dolorosamente atuais para entender o Brasil de hoje.
"Será que as eleições de outubro de 2002 representaram uma ruptura com o passado? Não resultaram elas na vitória presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva? Ele, que é um antigo retirante nordestino, um ex-torneiro-mecânico e sindicalista, que nem concluiu o Ensino Fundamental! Não foge ele aos padrões culturais valorizados pelas tradicionais elites dirigentes do Brasil? Ainda que assim seja, não há a menor dúvida que ele encarna valores da enorme parcela da população que realmente é o nosso país!". (LEÃO Aquino Rubim Santos. Brasil: Uma História Popular. p.197).
Por ter uma linha ideológica e metodológica muito clara (a historiografia de esquerda/marxista), leitores que buscam uma análise de neutralidade liberal podem achar o tom dos autores excessivamente panfletário em alguns momentos. Além disso, por focar intensamente nas macroestruturas de opressão e resistência de classes, alguns matizes culturais e contradições internas dos próprios movimentos populares às vezes ganham menos espaço do que as dinâmicas de conflito direto com as elites. Contudo, é uma leitura indispensável para quem deseja ir além da superfície e dos feriados nacionais. É um livro que incomoda porque mexe nas feridas abertas da nossa formação social.