O dia em que morri em um desastre aéreo -

    João Saraiva

    Nós
    2019
    120 páginas
    4h 0m
    ISBN-13: 9788569020493
    Português Brasileiro

    Se é verdade a máxima de Tolstói – de que as famílias felizes são todas iguais, enquanto as infelizes são únicas em sua tristeza –, no seu romance de estreia, João Saraiva tematiza uma família muito ímpar. Pois, o que se põe em cena em O dia em que morri num desastre aéreo é uma derrocada, ao mesmo tempo sintomática do Brasil atual, e única em sua loucura. Desde a primeira linha estamos mergulhados nesse universo imprevisível, quando um publicitário arrogante descobre, por meios kafkianos, que morreu num acidente de avião. Giovani é um patriarca que se acredita no controle de todas as situações. A sua própria morte traz uma ruptura tão radical que a visão que ele tinha de própria família se estilhaçará nos capítulos seguintes. O foco desloca-se, então, para a esposa, a filha, a empregada. Dialogando com uma tradição literária de romances fragmentados entre vários pontos de vista – Enquanto agonizo, de William Faulkner, A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan –, João Saraiva dá voz a personagens em busca de uma maneira de expressão muito distante do jugo racionalizante e totalitário da figura paterna de Giovani. O recurso, para além dos efeitos mais óbvios, abre as portas da experimentação, permitindo que Saraiva mescle diversos gêneros literários e registros linguísticos num só texto. O resultado é complexo, esfacelado e poderoso. Dessa maneira, O dia em que morri em um desastre aéreo constrói um caleidoscópio das mudanças que o núcleo familiar brasileiro tem vivido nas últimas décadas ao mesmo tempo em que nos apresenta um escritor estreante com um estilo já tão seguro. Antônio Xerxenesk

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    Camila Aranha Barros31/03/2021Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    O dia em que morri em um desastre aéreo

    Você já se perguntou como sua morte afetaria seu grupo de pessoas mais próximas? Tem certeza de como qualquer uma delas agiria? Giovanni é um publicitário brasileiro que acabou de morrer em um desastre aéreo enquanto viajava de Madri para São Paulo. Ou melhor, era para ter morrido, mas perdeu o horário daquele voo. No livro, o que me chamou atenção foi que, embora Giovanni não fosse um personagem “tão morto assim” fisicamente, ele já estava, há muito tempo, completamente morto por dentro. Existe uma quebra de expectativa muito grande logo no começo da obra que me surpreendeu positivamente. Pensando eu que o autor iria explorar um pouco mais o íntimo de Giovanni, ele desvia o foco para as pessoas que conviviam com ele, amigos e inimigos próximos. Isso foi positivo pois: 1- eu realmente não queria ouvir a história do ponto de vista de homem arrogante e totalitário, e 2- me fez perceber que, às vezes, alguém que você acredita te amar, na verdade, ficaria melhor sem você. A pessoa tóxica do relacionamento nunca vai achar que tem algo errado. Bom, a história revela boa parte da vida da mulher, da empregada doméstica, da filha, de um antigo sócio e até do cachorro (o que eu, particularmente, achei mais incrível) de Giovanni. Em apenas 105 páginas conseguimos conhecer a essência de seis personagens muito bem desenhados, com sotaques e modos de falar muito distintos. Todos eles com uma trilha sonora de tristeza intensa, daquelas tão profundas e incrustadas na alma que a gente já trata como colega, sabe? E ao mesmo tempo tem uma pitada de humor e ironia. Talvez um pouco mais que uma pitada de ironia. E eu não poderia deixar de falar que esse livro foi inspirado na obra “A Metamorfose” de Kafka e cumpriu seu papel interpretativo com o clássico. Além disso, ele traz a tona alguns acontecimentos políticos brasileiros que enriquecem o cenário e existe uma mistura de gêneros literários que eu nunca tinha visto antes, o que torna o texto divertido e completo. E assim, eu finalizo com esse tapa na cara que o melhor personagem (o doguinho, Martin) nos dá: “Eu e você podemos fazer muitas coisas com nosso tempo. Temos muitas possibilidades de escolha. Mas as pessoas não. As pessoas fazem apenas uma coisa por toda a vida: levantar muros. (...) As pessoas fazem muros e depois se orgulham dos muros que fizeram. Tanto que, em seguida, fazem mais muros e acabam sem ver os muros que fizeram primeiros. Mas nada disso adianta, porque elas sabem que por trás daqueles muros, tem alguém andando com a mesma cara que a sua. As pessoas são muito tristes.”

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