Ao cartografar as andanças de personagens dos mestres da ficção do século XIX e confrontá-las com a geografia do mundo real, o "Atlas do Romance Europeu", do crítico literário italiano Franco Moretti, mostra como o romance europeu identificou-se com a imaginação do estado nacional.
Não foram as limitações dos transportes e das comunicações que enquadraram a narrativa nas fronteiras nacionais. Nos romances helenísticos da Antiguidade e em muitos dos romances picarescos do início da Idade Moderna, os personagens se moviam por um espaço bem mais amplo.
Houve também um breve florescimento de narrativas longas supranacionais como as utopias ("A Cidade do Sol", de Campanella) e os romances filosóficos e alegóricos ("Candido" de Voltaire, "As Viagens de Gulliver" de Jonathan Swift). E também de romances puramente locais ("Werther", de Goethe).
Entretanto, à medida que avança o século XIX, os cenários exóticos são reservados para contos góticos e histórias fantásticas. Os personagens de romances sérios (salvo os vilões que, sobretudo na Inglaterra, são de preferência estrangeiros) raramente cruzam mares ou fronteiras.
Os autores fixam-se no estado-nação e, nos romances históricos, tratam de sua construção – às vezes de forma direta, agindo em nome do rei para impor o monopólio da violência legítima, como "Os Três Mosqueteiros" de Alexandre Dumas.
A luta pela unificação nacional também se mostra, como em "Waverley", de Walter Scott, na tragédia do “nobre traidor” que, embora corajoso e apaixonado, é sentenciado à morte pelos obedientes romancistas como inimigo do estado centralizador. E a abolição das fronteiras que defendiam – cenário preferido de obras como esta – traz a felicidade para personagens mais representativos dos novos tempos.
Já no chamado "bildungsroman" ou romance de formação, acompanha-se, como em "Ilusões Perdidas" de Honoré de Balzac ou "David Copperfield" de Charles Dickens, um jovem personagem da província que, para realizar ou para frustrar seus sonhos que não cabem na aldeia natal, dirige-se quase sempre à capital nacional e raramente passa por outros países.
Se não há uma capital, como na Alemanha e na Itália da primeira metade do século XIX, o jovem perambula irresolutamente entre os centros culturais de sua nacionalidade, como a tentar unificar uma nação que ainda não existe – como em "O aprendizado de Wilhem Meister", de Goethe.
No romance “de idéias”, a geografia também tem um papel central: em Crime e Castigo, de Dostoiévski, a obsessão do protagonista Raskolnikov, que o leva à loucura, aparece quando escreve um artigo no qual combina Napoleão (a utopia política francesa), Hegel (o ateísmo filosófico-científico alemão) e Carlyle (a economia política britânica). Precisa ser preso e internado na Sibéria antes de redescobrir a religião e a compaixão de sua própria pátria.
Além de definir fronteiras da nação, o romance traça mapas do seu espaço interno, mais claros e transparentes do que os permitia a vida real. Os mapas sociais de Londres e Paris do século XIX eram complexos – fractais, diríamos hoje. Havia cortiços a poucos quarteirões de residências aristocráticas ou de classe média. Mas em Dickens, são bem nítidas as fronteiras de classe entre o West End nobre, o centro burguês, os pacíficos subúrbios pequeno-burgueses e o perigoso East End – zona raramente pisada pelo Sherlock Holmes de Conan Doyle, pois o crime real não apresentava mistérios dignos do detetive.
Da mesma forma, para clareza e efeito dramático, Victor Hugo agrupa no “Pátio dos Milagres” os inúmeros becos em que se abrigava a miséria parisiense e Flaubert e Balzac carregam de simbolismo a fronteira entre a rive gauche (margem esquerda) boêmia e a rive droite (margem direita) burguesa.
A geografia da leitura é também instrutiva. Além de menores, as bibliotecas provincianas eram mais homogêneas e monótonas. Não abrigam uma amostra do que está disponível no centro, mas uma imagem purificada e idealizada.
No máximo, um terço do acervo das bibliotecas de Londres do século XVIII era constituído de romances, mas estes chegavam a 90% nas pequenas bibliotecas do interior, nas quais as obras de não-ficção estavam quase ausentes. E quanto menores as bibliotecas, mais suas coleções se restringiam a obras canônicas inglesas, em prejuízo de autores menos conhecidos e das traduções. A perda de variedade também se observa nos países da periferia européia. Mercados menores traduziam menos romances e em menor variedade.
Nas duas potências do romance – França e Inglaterra – as traduções eram uma parcela bem menor das edições do que em outras nações. Mas enquanto na primeira a proporção subiu de 10% em 1750 para 20% em 1850, na segunda caiu de 20% para 5%.
À medida que ascendia à hegemonia política, a Inglaterra tornava-se uma ilha cultural que, em nome do patriotismo e da decência, repudiava o realismo e defendia as tradições nacionais – dominante cômica, moralismo sentimental, finais felizes. Em resumo, lia Dickens, hostilizava Zola e ignorava Balzac. “Bem feito”, conclui Moretti.
A influência inglesa se reduziu aos países protestantes do norte da Europa, enquanto o romance francês era lido em toda a Europa. O poder não só corrompe, como também emburrece? Esse paradoxal “provincianismo” da metrópole lembra a Moretti o mercado de filmes americanos de hoje: “não espera nada de fora, não tem curiosidade, não tem interesse”.
O encontro das inovações metropolitanas com o atraso semiperiférico mostra-se mais fértil, ao obrigar o escritor a assumir riscos e tentar combinações inauditas – como o romance russo de idéias, no final do século XIX. Ou o realismo mágico latino-americano, cem anos depois.