Forrest Gump é um idiota. Mas um idiota cuja vida foi muito mais interessante do que a de muito gênio por aí.
Claro que minha leitura da história de Forrest já estava um pouco "contaminada" pelo filme, que sempre achei incrível e agora acho ainda mais - pois, após a leitura do livro, considero a adaptação simplesmente perfeita, acolhendo os elementos mais marcantes da obra e reinterpretando outros para encaixá-los nas telas de cinema.
Assim, quando comecei a leitura do livro de Winston Groom (já ouvindo os acordes conhecidos da trilha do filme na cabeça), foi com uma nostalgia gostosa que revivi a infância de Forrest e o acompanhei sendo empurrado de lá para cá, sempre repelido por ser "um idiota", mas acolhido porque conseguia fazer coisas incríveis (como correr como ninguém e fazer cálculos matemáticos complexos).
Aliás, uma coisa que, para mim, se mostrou muito mais clara no livro (e não é tão explícito no filme) foi a construção de Forrest como um personagem autista e como a sociedade lida com ele. Por trás do olhar ingênuo do Forrest, que narra a história para nós com todas as suas gírias e maneirismos na fala, conseguimos identificar o preconceito da sociedade para com suas dificuldades, chamando-o de "idiota" o tempo todo e tratando-o com condescendência, para então passar a respeitá-lo quando ele finalmente faz algo que dá certo (e que na maioria das vezes irá beneficiar ao interesse dos outros).
De fato, o autor utiliza a inocência e ingenuidade de Forrest como um véu para disfarçar diversas críticas que ele faz não apenas à mesquinharia da sociedade, mas ao momento político norte americano como um todo: desde a guerra do Vietnã até os movimentos hippies da década de 70 e à corrida espacial.
Outra vantagem que temos como espectadores tão ativos na história é notar como, em cada uma dessas situações, as pessoas sempre tentam tirar proveito da ingenuidade de Forrest para, no final, serem vencidos por ela.
Divertido e irreverente, o romance de Winston nos guia pelas aventuras desse moço simpático e meio abobalhado de dois metros de altura através de situações improváveis, em uma saborosa sátira norte americana.
O filme diverge bastante do livro em alguns pontos, principalmente a partir da metade, mas achei muito bacana ter essas duas versões para acompanhar a vida de Forrest. Vivida pelo Tom Hanks ou lida nas páginas do romance de Winston Groom, não importa; a essência da personagem é marcante e me cativou do início ao fim.