“Só a dor é intelectual, só o mal é interessante. Está é a traição do artista: a recusa em admitir a banalidade do mal e o terrível tédio da dor”
Esse conto da Le Guin retrata uma sociedade aparentemente perfeita, na qual todos são felizes nos colocando diante do tema sociedade versus indivíduo, retratando a alegre sociedade de Omelas, concentrando-se nas crianças e em sua infância idílica e inocente.
Esta descrição inicial de Omelas é crucial para estabelecer o que está em jogo na história. Eu, enquanto leitor, devo primeiro ver esta sociedade como perfeita para mais tarde entender o custo total de tal perfeição aparente.
Le Guin brilhantemente me conta a história como uma alegoria ao sugerir que Omelas é uma cidade imaginária e, portanto, difícil de descrever. Parte dessa dificuldade tem a ver com as noções preconcebidas do homem sobre felicidade e sofrimento – outro tema importante da história.
Ela enfatiza o tema da felicidade e do sofrimento, descrevendo com mais detalhes os princípios em que se baseiam a felicidade de Omelas e introduzindo os conceitos de necessidade e destrutividade como variáveis importantes no cálculo dessa felicidade.
Explicitamente sou direcionado a usar a imaginação para preencher os detalhes dessa idílica cidade e, ao fazê-lo, percebo que ela não é tanto um lugar real quanto uma ideia.
Então, me é revelado o primeiro ‘Plot Twist’ do conto quando a narradora passa da visão panorâmica da próspera sociedade de Omelas para um close-up de uma criança cuja experiência sombria, miserável e solitária contrasta dramaticamente com o ‘Festival de Verão’ que se desenrola na cidade.
A narradora se concentrou em retratar a grande felicidade de Omelas como um todo, agora ela volta seu foco para a outra metade da equação: um indivíduo em sofrimento. Uma criança.
O foco dessa história é colocado sobre a criança que é mantida no porão fétido sem janelas em um belíssimo prédio no centro da cidade. Esta criança está imunda e desprovida de qualquer luz solar sendo removida de qualquer contato social. Mesmo assim, alguns cidadãos vêm espiar a criança para ver quem lhes traz uma espécie de alegria e conforto em suas vidas.
A criança experimenta sofrimento em todos os aspectos de sua vida: mental, emocional e físico. Sua existência não poderia ser mais diferente da infância idílica das outras crianças de Omelas. A narradora se concentra no seu crescimento atrofiado para destacar como é negado a ela sua própria maturidade ou mesmo um senso de identidade.
Depois de contrastar a solidão e o sofrimento da criança com a feliz sociedade de Omelas, me é revelado que todos os cidadãos omelianos sabem desse terrível contraste e, ainda assim, ninguém faz nada para ajudar a criança.
Esse é o segredo sujo, obscuro e desagradável que assegura a felicidade do resto da cidade de Omelas: ela só pode funcionar se esta criança for mantida em ‘miséria abominável’ todo o tempo.
A felicidade dos omelianos não vem da inocência ou estupidez, vem de sua disposição de sacrificar um ser humano em benefício dos demais e da sua terrível negação da existência de qualquer resquício de culpa.
‘Felicidade versus Sofrimento’ e ‘Indivíduo versus Sociedade’ não são apenas temas implícitos neste texto – ao contrário, o extremo contraste entre o sofrimento do indivíduo e a felicidade da sociedade é o próprio fundamento de Omelas.
Embora todas as sociedades tenham algum desequilíbrio entre a felicidade de alguns e o sofrimento de outros, a extrema e aparentemente arbitrária lei de Omelas (que uma criança deve sofrer pela felicidade de todos os outros) coloca tais desequilíbrios em nítido relevo.
Toda felicidade para toda a sociedade deve depender da completa miséria de uma criança a partir da negligência coletiva. Crescer em Omelas exige que todos entendam o verdadeiro e trágico preço da felicidade de sua sociedade.
A narradora esclarece que, embora o povo de Omelas justifique o abandono de uma criança em sofrimento, eles não tomam essa decisão levianamente. O conhecimento da existência da miserável criança obriga os cidadãos a reconhecer a natureza inter-relacionada da felicidade e do sofrimento.
Mesmo sabendo que estão em dívida com ela, eles se recusam a ajudá-la. Aqui nesse ponto do conto, entram de maneira veloz, ansiosa, porém organizada e metódica, minhas reflexões: o terrível segredo de Omelas é uma cidade com um segredo cruel e injusto mais realista do que uma cidade perfeitamente feliz?
A felicidade dos omelianos não vem da inocência ou estupidez, vem de sua disposição de sacrificar um ser humano em benefício dos demais e da sua terrível negação da existência de qualquer resquício de culpa.
E é exatamente nesse sentido que entra o debate do existencialismo na história de Le Guin. O existencialismo é visível nesta curta história porque os personagens principais se recusam a salvar aquela criança daquele porão deplorável porque é benéfico para toda a sociedade.
Então, a autora insere outra questão na história debatendo sobre o individualismo de uma nova maneira: por meio da difícil decisão tomada por “os que vão embora.”
Embora os cidadãos sejam incapazes de mudar a estrutura que exige que a criança sofra pela felicidade da cidade, os cidadãos podem optar por se desligar completamente da sociedade de Omelas abandonando-a.
Deixar Omelas é um ato final de individualismo, pois exige que alguém rejeite o conforto da sociedade em defesa de seu próprio senso de moralidade.
Os que vão embora de Omelas são diferentes. Eles não aprenderam a aceitar a miséria daquela criança e não aprenderam a rejeitar a culpa. É certo que eles estão se afastando da alegria mais completa que alguém já conheceu, então não há dúvida de que sua decisão de se afastar dessa cidade irá corroer sua própria felicidade.
Mas talvez eles estejam caminhando em direção a uma terra de justiça, ou pelo menos em busca de justiça e, talvez valorizem isso mais do que sua própria alegria. É um sacrifício que eles estão dispostos a fazer.
A narradora não diz se ir embora é certo ou errado, mas mais uma vez eu reflito sobre os limites de minha própria capacidade de imaginar uma alternativa a uma cidade como Omelas.
O fato de ser impossível para mim e também, para a narradora imaginar o que está além de Omelas implica que é impossível para os humanos imaginar uma sociedade sem sofrimento injusto. Ainda assim, certos indivíduos se empenharão por conta própria para viver de acordo com sua moral, em seus próprios termos.
Le Guin escreveu uma ficção especulativa, pegando o real e remodelando-o no que poderia ser. Aqui, ela nos pede para considerar um mundo em que nossa felicidade depende da miséria do outro. Ao fazer isso, ela sugere um ponto mais incisivo: talvez já dependa.
A sociedade ocidental depende de trabalho quase escravo para o fornecimento de luxos, como eletrônicos baratos, por exemplo. Le Guin não está escrevendo apenas sobre uma sociedade fictícia. Ela está falando sobre todos nós.
Le Guin força o leitor a examinar suas próprias convicções e formar uma opinião. A vida é cheia de compensações trágicas como a enfrentada pelos cidadãos de Omelas, e o conceito que a autora nos traz é prontamente aplicável à nossa sociedade fora do mundo ficcional. Na minha opinião, é isso que torna a história tão envolvente.
Um conto curto, breve, objetivo, não totalizando nem 30 páginas, mas que me arrancaram horas de reflexões, divagações filosóficas, metafísicas e, por vezes, até religiosas, para compreender, ainda que minimamente, o que a mente brilhante de Úrsula Kroeber Le Guin quer tanto provocar no meu conforto social ao me revelar a distopia imoral de Omelas.
Então, se você fosse um privilegiado cidadão de Omelas, você iria ficar ou iria embora? Você garantiria a felicidade de uma cidade inteira em troca da miséria de uma pobre alma? Essa é a pergunta que nos faz chegar a esse dilema moral: o sofrimento intenso de uma criança vale a felicidade de uma cidade?
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