Dos 14 artigos, os 5 sobre Paulo Coelho me pareceram os mais fracos. Estendem-se demais em criticar a atitude de recusa e rejeição da academia e dos literatos em relação à obra e acabam falando pouco ou nada da obra em questão (quando muito, dão uma ou outra pincelada sobre a carreira do escritor e as atitudes dos leitores). É supérfluo escrever um texto só para afirmar que não se deve ler Paulo Coelho, concordo, mas me parece igualmente desnecessário escrever outros só para denunciar essa atitude. Mais valia mostrar que é possível dizer algo interessante sobre esses livros, sobre as estratégias de sedução do leitor, que expectativas eles atendem ou não.
Os artigos sobre ficção científica e fantasia são mais interessantes e falam mais das obras em si, apesar de o tom geral ser de “primeira abordagem”, genérica e com pouca profundidade, para apresentar um gênero a quem dele ainda pouco conhece e não para oferecer enfoques novos ou particularmente instigantes.
Desse conjunto de nove, o que achei menos satisfatório foi “O Gume Ignorado das Espadas Mágicas”, de Caio Bezarias. Seu argumento é aceitável em relação às ambigüidades de Conan – meio underdog rebelde, meio fascista e autoritário, conforme a situação e de maneira um pouco parecida com muitos skinheads da vida real. Mas ele me soou como um fanboy inconformado ao pretender aplicar a mesma análise a SdA, uma obra de sentido inequivocamente maniqueísta, na qual o autor não deixou espaço para tais interpretações.
Só uma leitura equivocada, que ignora as referências culturais do autor e do público que visava, pode enxergar a Sociedade do Anel como um grupo de rebeldes ou identificar a luta contra Sauron com manifestações contemporâneas contra “o Sistema”. Essa leitura foi feita, é verdade, por jovens nos anos 60 que, por não conhecer essas referências, tomaram o duro reacionarismo católico e antimoderno de Tolkien por defesa neopagã da ecologia e crítica contracultural do capitalismo. Mas é um erro, e ainda que parte da popularidade da obra se deva a isso, é um fenômeno curioso de recepção a ser atribuído às deficiências dos leitores, não a ambivalências inerentes à obra. A Sociedade do Anel não é subversiva, é uma associação para defender um idealizado status quo medieval, religioso, da ameaça da tecnologia e da modernização.
O mais interessante, para mim, foi o último, “Os Sentidos da TV”, sobre a fanfiction como prática e como forma nova e peculiar de leitura e de extrapolação do texto original (ou melhor, do roteiro, já que geralmente são baseadas em séries televisivas) – uma abordagem que para mim é nova e valia um aprofundamento maior.