Entre todos os contos do legendário de Tolkien que li até agora, A Queda de Gondolin me tocou por sua beleza e tragédia. Desde o conto original, escrito ainda na juventude do autor, eu já senti aquela emoção de estar diante de algo grandioso, quase mítico, onde orgulho, lealdade, traição e destruição se misturam de forma arrebatadora. Essa primeira versão tem um frescor especial, e por isso guardo um carinho único por ela.
Já na chamada Última Versão, a sensação é diferente: ao mesmo tempo maravilhosa e melancólica. Maravilhosa porque nela Tolkien já escrevia com uma maturidade impressionante, próxima da grandeza que vemos em O Senhor dos Anéis. Os trechos que chegaram até nós, principalmente aqueles que narram o percurso de Tuor até Gondolin, são cheios de descrições de paisagens e de uma atmosfera épica muito própria. Mas também melancólica, porque essa versão nunca foi concluída. E, ao lê-la, é inevitável imaginar como teria sido acompanhar essa narrativa até o fim nesse tom mais desenvolvido.
O que mais me marcou nessa história foi perceber como a queda de Gondolin está ligada ao orgulho de Turgon. Ele recebeu conselhos diretos de Ulmo, mas escolheu acreditar na segurança das muralhas da sua cidade, certo de que nada poderia alcançá-lo. E, assim como aconteceu em Doriath e Nargothrond, o aviso foi ignorado. Thingol, Orodreth, Turgon… todos caíram na mesma armadilha: a da autossuficiência, da sensação de invulnerabilidade que os cegava para a realidade. Esse padrão se repete: três reinos erguidos em esplendor, três reinos destruídos por não ouvir. E, ao mesmo tempo, não consigo deixar de pensar que tudo isso também carrega o peso inevitável da maldição dos Noldor, pairando como uma sombra desde o início.
Outro ponto que me emocionou foi a própria edição de Christopher Tolkien. No prefácio, ele anuncia que este será o último livro publicado por ele, já aos 94 anos, e isso dá à obra uma melancolia particular. É como se fosse também a despedida do filho que dedicou a vida a preservar e compartilhar o legado do pai. Nesse sentido, tanto seus comentários quanto as cartas de Tolkien acrescentam uma profundidade enorme ao livro. Eles revelam caminhos possíveis, nuances da narrativa e até o próprio processo criativo do autor, o que torna a leitura ainda mais especial.
No fim, A Queda de Gondolin me deixou dividida entre encantamento e melancolia. Encantamento, pela beleza das descrições, pelo impacto épico da batalha e pela dramaticidade da fuga. Melancolia, porque sei que nunca terei em mãos essa versão reimaginada por Tolkien em toda a sua extensão. No fundo, Gondolin deixou em mim a sensação de uma lembrança distante, algo que se perdeu, mas que permanece vivo na imaginação.