A penosa busca do equilíbrio humano
A escritora Marina Colasanti escreveu: “Literatura é isso, um texto com face oculta, fundo falso, passagens secretas, um texto com um tesouro escondido que cada leitor encontra em lugar diferente e que para cada leitor é outro.” Sem dúvida. O jogo da ficção pode (ou não), violar probabilidades. E o leitor, por sua vez, faz as simpáticas e generosas concessões quanto a isto, porque convenhamos, o texto não é neutro, intocável, ele ganha vida través da imaginação do leitor, não diz apenas o que deseja, é o leitor que permite a partir das vivências de seu cotidiano, e sua capacidade múltipla de construção de sentidos (que também são suscitados e vividos justamente pelo texto), criar novas articulações, interpretações e desfechos possíveis. Disto decorre uma conclusão. Quanto mais hábil for o autor em provocar esses sentimentos e sensações no leitor, e tanto mais este exercitar a atividade de abstração, que se repercute na capacidade de imaginar, estimulando seu pensamento criativo, maior será a comunicação entre texto e leitor. E dá-se aquele delicioso encanto que é ler Literatura. O romance “Baseado em fantasmas reais”, do escritor Rafael de Oliveira Fernandes não é texto fácil. Transita entre as esferas do prosaico cotidiano, o lirismo saudosista do narrador e, finalmente, um metafísico com pitadas de fantasioso. O narrador é comunicado por sua irmã que descobrira um caderno da mãe – tida e havida como desparecida e provavelmente morta por um assaltante -, onde está escrito por ela mesma, um misterioso texto que deixa entrever que talvez ela mesma tenha tomado a atitude de sumir-se no mundo abandonando os dois filhos. Permanece o mistério para os dois irmãos que iniciam uma verdadeira busca pelo paradeiro da mãe. Pelo texto depreende-se que a pobre mulher cheia de problemas existenciais entre eles o de ter que criar os dois filhos sozinha, um belo dia simplesmente despe-se e cai no mundo completamente nua. Desaparece como num passe de mágica. Teria sido assim? Por quê? Para onde teria ido? Esse o ponto de partida da trama eivada de simbolismos e metáforas. Os irmãos são sendo levados para a casa de uma tia onde acabam de ser criados e já adultos é que descobrem o tal texto. O narrador, na busca que empreende por notícias da mãe conhece uma garota de dezessete anos, chamada Nina que por seu lado também sofre o desaparecimento misterioso de seu gato de estimação. O forte sentimento de perda se agrava muito depois que ele tem a irmã internada em coma profundo – vítima de um acidente na banheira de sua residência enquanto tomava banho. Esses os fantasmas que rondam as vidas dos protagonistas e acabam por uni-los em forte e profunda amizade. De um lado um homem de 34 anos em forte crise existencial a procura de encontrar-se tendo como amparo apenas as memórias de sua curta convivência com a mãe, e farrapos de memórias. De outro, uma adolescente inteligente e sensível a querer entender o mundo brutal e sem sentido. "Quem morre, ou não está por perto, sobrevive na vida dos outros, ainda que, muitas vezes, na forma de fantasmas." Lemos em certo trecho: O cenário em que boa parte do livro se passa é no interior de uma lanchonete de sugestivo nome: “Anos dourados”. Ali, numa ambiência de estilização temporal, tudo lembra os anos sessenta do século vinte. Inclusive o pessoal que trabalha na lanchonete. Os atendentes se vestem como ícones da cena cultural do passado como Marilyn Monroe e Elvis Presley. Neste cenário acontecem os principais diálogos entre o narrador e a garota Nina, alternando capítulos onde acompanhamos uma certa retrospectiva da vida do protagonista até onde sua memória alcança. Falamos mais acima de narrativa eivada de simbolismos. Alguns: parte da trama se desenrola no interior de uma lanchonete que reproduz um tempo que não mais existe. Símbolo de uma condição imprópria para o tempo em que ocorre, já que os eventos se dão em pleno século XXI. Tal paradoxo nos lembra a ausência de delimitação entre passado e presente como a que vivemos, onde o que interessa é o aqui e agora; O nome do tal gato da garota que desparece é Donatello, não porque lembrasse o escultor italiano que viveu na Renascença, mas, pasmem! Porque era o nome de uma das tartarugas ninja. Seriado televisivo que a mocinha meio punk “cabeça feita” assistia na televisão quando era criança. Veja-se a perda, ou melhor, desconhecimento de valores culturais. O que dizer então, o que pensar de figuras como os atendentes da lanchonete. Um cantor de romantismo piegas como foi Elvis Presley ou a sensualidade histérica da loura de cabelos brancos - Marilyn Monroe. É um cenário surreal com personagens idem. Nessa levada meio louca temos ainda uma tal de Ana, mãe de uma coleguinha do protagonista que andava praticando uma espécie de espiritualismo de forças misteriosas. Os irmãos da tal Nina que iam assistir filmes de Alfred Hitchcock dentro de um cemitério e assim por diante. Isso sem falar da busca desesperada e por dias a fio do tal do gato desaparecido que aparece de uma hora para outra, num verdadeiro delírio imaginativo. Aí temos a ambiência do mundo hoje. O homem sempre a tentar se vestir a todo custo com os paramentos do ilusório – são inúmeras as referências a cobrir o corpo. A mãe, ou uma personagem criada pela mãe que some andando nua pelas ruas, o avô do protagonista que era alfaiate, a irmã do protagonista que perde a parte de cima do biquíni quando está tomando banho de mar na praia com os amigos, e é vista por todos. A nudez do corpo e o vazio da alma atrapalhada com tantos fogos de artifício da consciência. A querer descobrir o que está além da vida antes de viver a própria vida. Bichos complicadíssimos somos nós... “Baseado em fantasmas reais”, se mostra como oportunidade do leitor ampliar as suas experiências de vida no momento que passa a imaginar, a preencher os vazios do texto, a perceber detalhes, a refletir e imaginar ainda outros silêncios, porque é justamente neste viés que exorcizaremos certos fantasmas e criaremos afinal mundos melhores em nossos corações e em nossas consciências. Livro: “Baseado em fantasmas reais”, Romance de Rafael de Oliveira Fernandes – Editora Patuá – São Paulo – SP, 2019, 192 p. - ISBN: 978-85-8297-861-0 Link para compra e pronta entrega: https://www.editorapatua.com.br/produto/107197/baseado-em-fantasmas-reais-de-rafael-de-oliveira-

