A história de como este livro foi escrito já é um romance policial. Tudo começou quando o escritor Paco Ignacio Taibo II recebeu um mensageiro que lhe trouxe uma carta na qual o legendário Subcomandante Marcos, porta-voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) lhe propunha um livro a quatro mãos.
Além de historiador das lutas populares, jornalista e personagem da biografia em quadrinhos "Modotti", do amigo Ángel de la Calle, Taibo organiza a Semana Negra de Gijón, um dos maiores festivais internacionais da literatura policial. Espanhol residente no México desde a infância, é um dos mais bem-sucedidos autores do gênero em castelhano, apesar de quase inédito no Brasil (salvo pelo romance "Como a Própria Vida", Brasilense).
Desconfiado de um trote, Taibo olhou fixamente para o mensageiro, que então lhe disse: “Se disser que sim, tenho outro envelope...” Apesar de muito ocupado com uma biografia de Pancho Villa, não teve alternativa: seria “como recusar um café da manhã com Marilyn Monroe”.
A segunda carta expunha o plano: o Sup (Subcomandante), escreveria os capítulos ímpares e criaria um personagem – que veio a ser comissário de investigação zapatista Elías Contreras, um Cantinflas detetivesco a serviço da guerrilha. Taibo organizaria a trama e escreveria os pares, usando seu Héctor Belascoarán Shayne, protagonista de nove romances anteriores – um detetive durão à mexicana, que conquistou a admiração de Marcos por seus confrontos com o corrupto estado mexicano deixaram caolho, manco e esquerdista radical.
A troca de mensagens, de dezembro de 2004 a fevereiro de 2005, seguiu rotas igualmente rocambolescas: um capítulo saía em lombo de burro do quartel-general zapatista em La Realidad, Chiapas, com cada página assinada pelo Sup, para chegar sete dias antes da publicação (pelo jornal mexicano "La Jornada", de dezembro de 2004 a fevereiro de 2005). Então, Taibo escrevia o seu e o enviava a um e-mail que imediatamente desaparecia, a partir do qual o texto passeava pela internet até chegar aos acampamentos zapatistas.
A obra quer divulgar o zapatismo e sua visão de mundo e também denunciar a repressão no México, desde a guerra suja travada pelo governo com as esquerdas a partir do massacre de Tlatelolco em 1968 até a aliança informal entre o governo de Vicente Fox e a organização de extrema-direita El Yunque. Mas também se sustenta muito bem como entretenimento original: um feliz cruzamento de policial "noir" estadunidense com realismo fantástico hispanoamericano.
Os zapatistas procuram um certo Morales, agente de El Yunque, enviado para sabotá-los e abrir as riquezas naturais de Chiapas às transnacionais. O confuso mas certeiro Elías Contreras é enviado pelo Sup para juntar forças com o astuto e experiente Belascoarán, detetive particular. Por aparente coincidência, este já havia sido contatado por um funcionário público para investigar telefonemas de um morto na “guerra suja” que insiste em denunciar o ex-militante que o traiu e entregou à execução – um Morales, que pode ser ou não o mesmo “mau”, mas representa o mesmo mal.
Se os momentos mais intensos e dramáticos são de Taibo e seu retrato impiedoso do “Monstro”, a imensa e desumana Cidade do México, o humor e o insólito devem-se em boa parte à “La Realidad” alternativa fundada pela gente do Sup nos municípios rebeldes das montanhas de Chiapas, com sua lei, polícia, tribunais, serviços públicos e impagáveis turistas e cidadãos, ele mesmo incluído.
Para a maioria dos brasileiros, principalmente os de metrópoles como São Paulo, será mais fácil reconhecer o primeiro cenário como realista. Mas, se ambos os lados desse painel do México e da América Latina soam tão surreais quanto verdadeiros, o segundo é o mais instigante. Por menos que se aprecie a visão de mundo do Sup, vale a pena visitar, ao menos nas páginas do romance, essa provocadora possibilidade que luta por concretizar.