Mesmo para os não paulistanos, as duas obras do historiador Afonso de Taunay (filho do Visconde de Taunay, escritor e cronista do Império) reeditadas no terceiro volume da "Coleção São Paulo" pela primeira vez desde sua publicação original na década de 20, oferecem uma perspectiva única da vida nas primeiras décadas do domínio lusitano.
Nessa época, a vila de São Paulo do Campo de Piratininga não era a mais importante da Terra de Santa Cruz, ou mesmo da Capitania de São Vicente. Entretanto, só essa primeira incursão portuguesa no interior pôde preservar documentos do século XVI. Os arquivos mais antigos das primeiras povoações do litoral – São Vicente, Santos, Olinda, Salvador e Rio – foram destruídos pelas traças ou saqueados por piratas.
Para os dez por cento de brasileiros para os quais nomes como Barueri, Guarulhos, Pinheiros, Mogi, Santo André ou São Miguel soam familiares, o livro pode ser também uma fonte de revelações inesperadas sobre o passado de seus bairros e municípios. Para isso, porém, deve estar preparado para enfrentar alguns percalços.
Taunay escreveu estas obras às vésperas da Semana de Arte Moderna, mas entrincheirado no mundo estilístico e conceitual de um século XIX que, no Brasil, ainda se não se decidia a morrer.
Para o leitor do terceiro milênio, paulistano ou não, pode ser quase tão difícil de penetrar quanto o período quinhentista que procura nos descrever. O abismo entre a Avenida Paulista de hoje e a das mansões dos barões do café freqüentadas pelo historiador não é muito menor do que o que se abre entre estas e a densa mata do Caaguaçu que ocupava o mesmo lugar no século XVI.
Se para o paladar do historiador dos anos 20, o estilo e a ortografia toscos dos escrivães do século XVI caíam penosos e indigestos, o leitor moderno sente da mesma forma ante seu preciosismo afetado. E fica tão chocado com o etnocentrismo do autor quando este com a rudeza dos paulistanos quinhentistas.
Taunay não hesita em exaltar, sem ironia, à “redenção das raças inferiores” pela “raça superior” ou em lamentar o “extermínio dos tipos inferiores da humanidade”, mas não lhe é possível citar atas municipais referentes a escândalos públicos (provavelmente esclarecedoras e divertidas), porque seu estilo não é “propriamente o da Biblioteca das Mães de Família”.
Esse estranhamento ao quadrado recorda ao leitor que este é tanto um livro de história quanto um documento histórico. Dedicada a Washington Luís no auge da prosperidade cafeeira, preludia sua obra mais importante, a épica "História Geral das Bandeiras Paulistas", que fundou o mito do bandeirante como herói civilizador dos sertões e tornou-se a pedra fundamental do ufanismo paulista.
Misto de ensaio sociológico e crônica de costumes, "São Paulo nos Primeiros Anos" inovou em relação a uma tradição para a qual só os feitos heróicos eram dignos do historiador e até antecipa algo do interesse pós-moderno pelo quotidiano e pela vida privada. Mas trata, principalmente de demonstrar “o espírito de independência, a oposição à prepotência, do povo de São Paulo, desde as primeiras décadas quinhentistas”.
Sem deixar, é verdade, de mencionar detalhes menos edificantes, como a impunidade dos criminosos por falta de meios para prendê-los, as dificuldades da Câmara com empreiteiros ineptos ou desonestos e a escassez de consciência cívica. Um dos primeiros paulistanos derrubou o muro que protegia a vila dos ataques tamoios porque obrigava sua mulher a fazer uma caminhada muito grande para chegar à sua horta.
A segunda parte, "São Paulo no Século XVI", é uma narrativa tão envolvente quanto maniqueísta dos primeiros conflitos entre jesuítas, colonos e nativos. A dinâmica social, política e antropológica dessa história rica e dramática mereceria ser revisitada por um historiador menos comprometido com a apologia da catequese e da civilização branca.