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    Guerra e Cinema (Estado de Sítio) -

    Paul Virilio

    Boitempo
    2005
    201 páginas
    6h 42m
    ISBN-10: 8575590766
    Português Brasileiro
    3.4
    27 avaliações
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    Este não é um livro sobre filmes de guerra. Vai muito além disso. Se para o lendário cineasta Samuel Fuller, ele mesmo um ex-soldado, "O cinema é como um campo de batalha", Paul Virilio nos mostra que a guerra também tem muito da sétima arte. Ele analisa o desenvolvimento paralelo das duas técnicas - desde a Primeira Guerra Mundial e a invenção do Cinema - e conclui que a vitória em um conflito, que depende da conquista de "corações e mentes", passa tanto pelo campo de luta quanto pelo da imagem.

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    Marcelo Gabriel Delfino19/08/2015Resenhou um livro
    1 (Ruim)

    O desenvolvimento da tecnologia leva a novas descobertas e novas percepções sobre o mundo. Basicamente essa é a tese de todo o trabalho de Paul Virilio. Neste livro, mostra como guerra e cinema podem ser compreendidos mutuamente, justamente pelo desenvolvimento de novos equipamentos que provocam mudanças profundas nas duas atividades. A guerra moderna sofre alterações desde a formulação de estratégias (a antiga cavalaria como fonte de informação sobre a posição do inimigo perdeu espaço para meios instantâneos de gerações de imagens através de aviões, drones e satélites), até mesmo ao posicionamento das tropas. A velocidade de transmissão das informações sobre o inimigo se tornou crucial, não importando mais (ou importando menos, relativamente) a posição que este ocupa. E isto é crucial porque desde a Primeira Guerra, que modificou completamente o modo de disputa de batalhas, não é tão importante assim que os soldados vejam o inimigo, precisam apenas saber que ele está ali e atirar. Agora, imagine uma guerra onde as imagens podem ser geradas em tempo real, do alto, posicionando corretamente suas tropas em relação ao inimigo e diminuindo riscos consideravelmente? As técnicas do cinema foram usadas com amplo sucesso na guerra, inclusive aquelas que visavam produzir um espetáculo. E neste ponto o livro envereda pelo caminho de mostrar como os nazistas conseguiram manipular seus eventos para assustar o mundo. Speer, com seus holofotes que produziam um castelo de luzes a várias centenas de metros de altitude e que podiam ser vistos há quilômetros de distância, por exemplo. Ou a preocupação de Hitler e de Speer em produzir construções que seriam ruínas ainda mais esplendorosas do que as gregas e egípcias... Mesmo a figura de Hitler, atuando e conquistando a todos. A guerra ganha novos métodos de percepção da realidade, métodos que trazem a ironia de ter sido criados para produzir ilusões. Mas usados de outra forma, com novas intenções, fizeram o olhar se tornar preponderante, ao mesmo tempo em que descola o soldado do combate direto. Novas formas de percepção, novas perspectivas sobre o campo de combate e objetivos a cumprir para derrotar o inimigo. Ao mesmo tempo, embora de forma um pouco imprecisa, o livro mostra a maneira como o cinema procura captar a realidade da guerra. Ironicamente, a guerra mostrada no cinema é cada vez menos fiel à realidade. O exemplo de Griffith, ao visitar as trincheiras na Primeira Guerra e ficar decepcionado com a falta do combate corpo a corpo, porque os soldados ficavam entrincheirados, é emblemático. Vemos filmes cada vez menos realistas, mas que nos prendem pelo impacto do espetáculo que exibem. Ou seja, tanto a guerra quanto o cinema são instrumentos da simulação da realidade. É aqui que as coisas começam a complicar. Porque o pressuposto de Virilio é um pouco discutível: embora jamais se refira abertamente, o conceito que trabalha é o de que o real é o concreto. Ora, sabemos que o real não se limita ao concreto. Logo, ao “espetacularizar” a vida, a modernidade não pode ser acusada de simular o real. O imaginário é uma parte do real, ajuda a produzi-lo, inclusive. Vejamos o próprio exemplo do livro: o cinema influenciava os jovens soldados, que se referiam, à guerra como uma performance (antes de viajar para o campo de batalha). Quando voltavam, desiludidos e amargurados, muitos deles não conseguiam expressar o que haviam vivido. Walter Benjamin se refere a esse evento em um texto emblemático sobre a pobreza de experiências dos homens modernos. Virilio cita Benjamin inúmeras vezes... Mas podemos pensar que se os soldados iam ao campo imaginando combates espetaculares e atos de puro heroísmo, mas ficavam fechados em trincheiras, enlameados e doentes, congelando, sem comida e sem sequer ver o inimigo, esse confronto entre o imaginário e a experiência em si é o que deveria ser analisado. Benjamin cede e Virilio segue seu exemplo ao deixar de analisar o evento para analisar a ausência de evento... Não sei se me faço entender. A dialética precisa explicar como o imaginário se manifesta na história, no concreto, não que o imaginário é uma deturpação da realidade. Ao entender que a guerra é vista como espetáculo, devido ao cinema, sua conclusão é que a realidade é simulada, quando deveria entender como o evento em si ocorria e como esse imaginário sofreu ao se deparar com algo completamente diferente. Ou seja, esse “simulacro” produzia uma percepção das coisas que não se confirmava na guerra verdadeira. Se era assim, o interessante de tudo não é declarar que a realidade é simulada e diferente do que o cinema fazia, mas como de fato ela ocorreu, e como essas pessoas sofreram com essa distância entre percepção e realidade. Não sei se podemos dizer que guerra e cinema produzem uma simulação da realidade; que ela é diferente de tudo que se diz. Ora, se as pessoas agem conforme o imaginário, ele não é falseamento da realidade, mas um nível diferente dela. Essa distinção, não devemos esquecer, aparece claramente de outra forma: a realidade humana deve ser explicada exclusivamente pelo desenvolvimento das forças materiais. Tudo o mais é uma mera distração, ideologia, névoa; e deve ser explicado com base no desenvolvimento das forças materiais e não o contrário. Esse dogma materialista, parece, deixa sempre o lado mais importante dos eventos que tenta explicar de lado... O autor compartilha desse dogma, pois não cansa de apontar como a técnica gera uma nova percepção da realidade lhe simulando pouco a pouco. O imaginário aparece como consequência da técnica, quase como um efeito de resto, afinal o que se pretendia era uma reprodução fidedigna da realidade, mas cada vez se distancia mais e mais dela. Mas a pergunta inicial é o que motivou o desenvolvimento da técnica, não depois que ela se instalou. O fundamental, ao menos me parece, para se entender todo esse processo é o que motivou as pessoas a iniciar o desenvolvimento de uma técnica que procurava reproduzir perfeitamente a realidade para que outros pudessem ver sem estar presentes, técnica que havia sido criada com o intuito de criar ilusões, de dar asas à imaginação...

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    Paul Virilio

    Paul Virilio nasceu em 1932. Arquiteto e urbanista, presidiu e editou a revista do grupo Architecture Principe. Foi professor e, mais tarde, diretor-geral da École Spéciale d´Architecture, e diretor, a partir de 1973, da coleção L´Espace Critique (Éditions Galilée).<br> Reconhecido no meio acadêmico internacional como filósofo e crítico da contemporaneidade, tornou-se, em 1990, diretor de programas do Collège International de Philosophie de Paris.<br> Especialista em questões estratégicas, tem se destacado como um dos principais ensaístas sobre os meios de comunicação, a "guerra da informação" e o mundo cibernético. Nos últimos anos, Paul Virilio vem se notabilizando como uma voz cética, quase uma nova dissidência, frente a uma sociedade desenfreadamente informatizada e onde o cidadão é vítima de um constante bombardeio (des)informacional. <br>Em 2000, inaugurou no Japão o Museu das Catástrofes, projetado e dirigido por ele. No Brasil, publicou, entre outros, os livros: Velocidade e política (1996), A bomba informática (1999) e Estratégia da decepção (2000).

    6 Livros
    5 Seguidores

    Paul Virilio