O privilégio dos mortos -

    Whisner Fraga

    Editora Patuá
    2019
    250 páginas
    8h 20m
    ISBN-13: 9788582978528
    Português Brasileiro

    "Em O privilégio dos mortos, o narrador viaja de volta à cidade natal, Tejuco, um lugar fictício no interior do estado de Minas Gerais, para visitar o túmulo de seu melhor amigo. Durante a viagem, o narrador, sempre em uma conversa íntima com Helena, personagem que nunca se conhece, de fato, inicia uma busca por suas origens, e descobre que sua história é contaminada pela história de sua terra."

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (2)Ver mais
    Krishnamurti Góes dos Anjos picture
    Krishnamurti Góes dos Anjos03/01/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O privilégio dos mortos & o calvário dos vivos

    Sem dúvida a dimensão intolerável oferecida à trajetória humana na Terra é a morte. Daí constituir-se tal ocorrência nossa única certeza desde que tomamos consciência da própria vida. Inúmeras obras literárias fizeram da morte seu elemento chave a registrar essa incomensurável incógnita da vida. Desde a epopeia de “Gilgamesh” um antigo poema épico mesopotâmico, escrito pelos sumérios em algum momento em torno de 2000 a.C. que narra os feitos de Gilgamesh, rei de Uruk, em sua procura pela imortalidade, até Shakespeare (especialmente em “Hamlet’); de “Antígona” de Sófocles, até “A Morte de Ivan Ilitch”, de Leon Tolstoi e mais recentemente, “As intermitências da morte” de Saramago, muita tinta e papel se gastou com o tema. Desde tempos imemoriais o homem se ocupa com a questão, e a Arte em suas tão variadas instâncias está repleta dessa temática. Em Literatura cumpre acrescentar que os personagens criados e que protagonizam enredos marcados pelo encontro com a morte, são entidades que imitam da existência dos seres de carne, sangue e ossos os seus mais profundos dramas e visões decorrentes do eterno conflito entre a existência e o óbito. Seus dramas são dramas humanos centrados no plano da subjetividade psíquica. Daí concordarmos com Lacan quanto a afirmativa de que o que emociona e seduz o leitor em uma criação literária é a possibilidade de reconhecimento que ela oferece ao que de problemático se esconde no humano. Na própria relação do homem com a existência e sua finitude. A dúvida atroz que nos assola. O nosso vis-à-vis com a morte. Mas há ainda duas ou três considerações que merecem relevo. Como construímos a ideia que fazemos da morte? Seja por intermédio das formas míticas, ou religiosas, ou ainda criando teorias especulativas, tentamos dar conta de nossa natureza finita, porque nosso psiquismo, está marcado simbolicamente por essa condição mortal. Dentro de nossa estreita visão antropocêntrica, criamos, imaginamos, contemplamos e buscamos desesperadamente comprovações. E entretanto, o mistério não se demove. Recentemente Philipe Ariès, em “O homem diante da morte”, identificou que a cultura do Ocidente nos tempos atuais consolida a tendência, desde meados do século XX, a conceber a morte em contrapartida à vida; ela seria a negação, sua imagem a caracterização da destruição, do fim. A atitude do homem perante a morte encontra-se relacionada à visão de self de cada sociedade. Este um ponto. Outro, liga-se a nosso instinto de preservação, e entra em cena a vocação humana que cria os mecanismos de defesa e preservação. Na “intenção” de proteger sua nação, raça, confrades que comungam do mesmo credo e princípios morais, o homem destrói, com os produtos de mentes inteligentes, ardilosa e engenhosamente, seu próximo, uma imensa coletividade ou, simplesmente aquele que entende ser seu inimigo. E é exatamente na confluência desses pontos que cumpre falar de uma obra do escritor Whisner Fraga recentemente publicada. O romance “O privilégio dos mortos”, coloca em cena essas e outras questões, dentro daquela perspectiva que nos parece fundamental. Como construímos em vida, a ideia da morte. Ou melhor, o que fazemos da VIDA? Porque, sejamos sinceros, em verdade não interessa ao vivos falar de mortos. Interessa falarmos dos vivos. Da vida que levamos até que a “indesejada das gentes” nos colha para o nada absoluto, ou o que cada um acredite que existe (ou não), além da vida. A trama romanesca envolve um narrador que se dirige à uma cidade hipotética no interior de Minas Gerais (a princípio), para participar da missa de sétimo dia de um amigo colhido pela morte depois de uma luta dolorosa contra um câncer de pulmão. Durante o percurso tomamos conhecimento da trajetória de vida do narrador que viveu naquela cidade, conheceu e firmou solida amizade com o morto (Heitor). O texto se desdobra em uma interlocução com a personagem Helena num crescendo de descobertas e revelações que descortinam ao leitor como se forjaram aquelas vidas ao sabor das circunstâncias de tempo e espaço. Nisto, insistimos, não o “Privilégio dos mortos” mas a desvantagem, a inferioridade, a dificuldade, a inconveniência, os empecilhos, os prejuízos sem fim dos VIVOS. Daqueles que habitam ou habitaram um país como o Brasil no período que medeia a vigência de uma ditadura e uma redemocratização amalucada que deu frutos podres como o governo de Fernando Collor de Mello (e que poucos, sobretudo as gerações mais novas, sabem). O que salta à vista é o homem jogado em um verdadeiro inferno em vida. Esse “o privilégio dos mortos”. É não ter mais que viver em um país assim, onde as roubalheiras, os desacertos, as marchas e retrocessos, esse nosso eterno desnorteio faz parecer que o Brasil é um imenso hospício a céu aberto. Nada de cultura, nada de educação, nada de segurança, prostituição a torto e a direito, drogas e o tremendo repertório de derrotas que vem trazendo até aos nossos dias a mais completa falência dos valores humanos. E o ser em formação (o narrador se refere a um período de sua vida em que está com 19/20 anos), obrigado a viver em tal ambiência. Que esperar de vidas assim? Qual o sentido da vida? Como encarar a morte? Como um privilégio, lógico. Eis o que vamos fazendo da vida dos vivos! O escritor Ronaldo Cagiano em texto sobre esta obra escreveu com muita propriedade: “A morte de Heitor metaforiza um certo desejo de resgate daquela vida (ou de sonhos e utopias) não alcançados, de déficits morais e políticos, pois nos confrontos com um mundo distópico – e essa desordem se reflete na própria estrutura formal da obra, em sua arquitetura ousada e impactante – autor, narrador, personagens e cenários se interpenetram como num sistema de vasos comunicantes. Um trânsito em que predomina a tênue fronteira entre o delírio e a lucidez, a fantasia e a realidade, o tangível e o onírico, percebe-se uma dicotômica fusão do que se vive com o que se (re)inventa, como se o suprarreal viesse acudir cada um de seu naufrágio nesse tempo e nesse mundo cão.” De muitas formas, sutis ou escancaradas, o autor consegue mostrar como atua e como se reproduz em nosso caráter a intolerância, o racismo, a desonestidade e o terror físico e psicológico, bola da vez do século XXI; características que oprimem nosso semelhante, criando, pela desigualdade, diferenças arbitrárias e, justificando-as como naturais à vida em sociedade. E vamos abertamente exterminando nossos “inimigos” para proteger nossos "iguais", irmãos, conforme interesses políticos, econômicos e ideológicos ou, quem sabe, narcísicos e individuais. Para evitar a morte e, por temê-la, o homem mata ou determina a morte do semelhante. (Freud já apontava isto em “Sobre a transitoriedade”). E Fernando Pessoa através de seu heterônimo Álvaro de campos escreveu: ... “Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido? / Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces, / para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial? / Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida? / Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente: / Torna-te parte carnal da terra e das coisas! / Dispersa-te, sistema físico-químico / de células nocturnamente conscientes / pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos, / pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências, / pela relva e a erva da proliferação dos seres, / pela névoa atómica das coisas, / pelas paredes turbilhonantes / do vácuo dinâmico do mundo...” A cena dantesca e escatológica que fecha esta brilhante narrativa tem como cenário o cemitério onde está enterrado o amigo do narrador. Reúne seres sem rumo, sexo e drogas, afogados “Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos”. Grande metáfora do mundo dos vivos. Livro: “O privilégio dos mortos”, romance de Whisner Fraga – Editora Patuá, São Paulo-SP, 250 pag. ISBN: 978-85-8297-852-8 Link para compra e pronta entrega: https://www.editorapatua.com.br/produto/104531/o-privilegio-dos-mortos-de-whisner-fraga Informações: whisnerfraga@whisnerfraga.com.br

    58 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.8 / 4
    • 5 estrelas75%
    • 4 estrelas25%
    • 3 estrelas0%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%