Um clítoris encostado na eternidade -

    Matheus Arcaro

    Editora Patuá
    2019
    148 páginas
    4h 56m
    ISBN-13: 9788582978252
    Português Brasileiro

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    Krishnamurti Góes dos Anjos04/01/2020Resenhou um livro
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    Um clítoris encostado na eternidade

    EITA QUE TODO MUNDO QUER SABER que diabo significa um título assim. QUER? QUER SIM, mas calma, muita calma, devagar com o andor que o santo é de barro. Este é o título do novo livro de poesias do escritor Matheus Arcaro. Antes de entrarmos no âmbito da obra propriamente dita falemos do autor, por que vamos deslindar melhor a obra em questão. Conheci a obra de Arcaro pelos idos de 2016 quando me chegou às mãos para a crítica do costume, o seu romance de estreia na literatura: “O lado imóvel do tempo”. Na oportunidade, observei que o autor mostrava-se exímio prosador na arte de, casando linguagem e inventiva, criar um texto com efeitos verdadeiramente iluminadores de uma dada personalidade. Referia-me então ao protagonista do romance que encarnava personalidade doentia, é verdade, mas que, por outro lado, exprimia em muito boa medida “o instinto fundamental da vida que é a insaciabilidade do desejo de evoluir. Daí a aspiração nascida do íntimo movimento da alma que clama a paixão de exprimir sua potencialidade interior, a paixão do Eu; que luta para vir à luz e revelar-se. Essa a indomável necessidade do desejo da alma. Eternidade.” Dois anos depois, já em 2018, volto a encontrar o autor nos contos reunidos em “Amortalha”. Escrevi sobre o livro, dentre outras coisas, que “Indagações, perplexidades e desesperos humanos estão sempre a convocar e atualizar certos temas básicos. Amor e morte são dois eternos, com as suas variações, que se repetem de escritor para escritor, retomados, reabertos e redimensionados, segundo a visão-de-mundo de quem os versa. Qualquer escritor pode habilitar-se a deles lançar mão, sem pudor, porque mais importante que o tema a ser desenvolvido, será a maneira de exprimi-lo.” ... “É obra na qual filosofia & literatura se imbricam para retratar, à sua maneira, as vicissitudes humanas. Assim, no horizonte dos textos, nos deparamos com o mesmo homem atravessado pela incompletude, pelo desejo de ser, pelo medo elementar da morte, pela falta ou pela busca de sentido do existir, e pelo amor, mola mestra da vida. Filosofia & literatura partilham deste mesmo para-si e buscam, cada uma por seu estilo próprio de significação, comunicar o drama da existência.” Observei ainda, e finalmente, que “Vislumbramos no autor uma atividade literária que força a linguagem a advir outra, força-a a flertar com o indizível – “as palavras... não dão conta das acontecências mais profundas” - . Ou seja, trata-se de uma inspiração recebida da atividade literária, dos processos de criação e da poética artística. Ou seja, reconhece na literatura um verdadeiro operador transcendental do e no, pensamento que o leva a pensar pelo encontro com o fora. E é assim que o lemos num perspectivismo cujos ângulos se lançam prazerosamente também a partir das relações da escrita filosófica com a escrita literária. Aqui e agora, nesse 2020 (o livro foi impresso em fins de 2019), volto a encontrar Matheus Arcaro nesse seu “Um clítoris encostado na eternidade”, e quem espera encontrar na obra algum tratado de sexualidade ou uma ode rasgada à libido feminina, ou pornografia pura e simples, não se dê ao trabalho de abrir o livro (embora a sexualidade, um dos referentes óbvios do humano, esteja presente, pelo que recomendo a leitura sobretudo de “Orgasmo anônimo”). O fato inconteste é aquele que apontou Manoel Herzog na orelha da obra. “O clítoris encostado na eternidade é o próprio poeta, antena de sensibilidade que não refoge às experiências do mundo tal e qual se apresentam.” Senão vejamos: “Relatório vital” “O que você busca na vida, perguntaram. Respondi que não busco. Buscar pressupõe caminhos pré-traçados, pressupõe conhecimento do objetivo. As metas me espantam. Talvez a vida seja um não buscar. Talvez seja uma dança que valha por si, sem a necessidade de se chegar ao outro lado do salão. Talvez seja mais reticências que exclamações. Talvez seja mais talvez. O que busco então? A perfeição do que não tem forma. A plenitude do que é incompleto.” Poema “Procura-se” “Em que parte do corpo / se encontra a clemência? / Consultemos para o resgate, / os manuais da criação humana! Estaria camuflada / sob a língua / que proíbe verbos imperativos? Estaria presa / às cavas do peito / que prefere morte em vez de afeto? Estaria desmaiada / no assoalho do pulmão / que suspira ares / de quepes, coturnos e castração? Estaria no caminho / de volta ao cérebro, / desejo de um estado pré-fetal, / ao descobrir que se tornara obsoleta? A clemência está desaparecida / mas pouco adianta pregar / placas pelos órgãos oferecendo recompensa. A clemência não aparecerá / enquanto os homens / continuarem com o chorume nas veias. / enquanto os homens / não virarem pelo avesso / o que chamam de vida.” Poema “Receita”. “Para fazer poesia, / é preciso mastigar a palavra / e sorrir com as sílabas / entre os dentes ensanguentados. É preciso / lambuzar as palavras de silêncios / e saltar com ela a tiracolo / do precipício mais alto do interior de si. Para fazer poesia, / é preciso prostituir a palavra / a ponto de canonizá-la. / Segurar a palavra pelo rabo e, / assim que ela gritar grosso, / saltá-la no vácuo da lógica. É preciso furar as palavras / até que se derramem os sentidos. / Todos, um a um: esturricados. E, na poesia, só ficam as palavras / teimosas. As palavras com recheio. / As palavras com o gosto vermelho da vida. Poema “Culto”. “O culto / incute no inculto / palavras e proibições. Curte o cérebro / em promessas / sem premissas, / em pecados / sem perdão. O culto / encurta os vãos Põe o porvir em / curto-circuito, / prostrado e mudo, / miúdo no chão.” E finalmente o Poema da pag. 131, sem título “É insuportável / não sentir / a dor do mundo. A incompletude / inunda a vida / de tal modo / que o pasmo / esconde o rosto / sob o silêncio do instante. A fenda de cada frase / o hiato do amor / o vácuo do olhar / engolido a seco. Todos os sentimentos / acumulados na curva da alma: / lama tóxica que enrijece / a dança do tempo.” Impossível não reconhecer o acerto da afirmativa de Tarso de Melo na quarta capa dessa obra. “O sexo, a religião, a liberdade, o amor, a própria poesia: a tensão originária do pensamento diante dos objetos que mais o atormentam aqui se transfigura (ou pré-figura?) em versos que riem de si próprios e, assim, desarmam a bomba da razão. Nos poemas de Matheus Arcaro, com suas próprias palavras, o que se dá a ver é “a perfeição” do que não tem forma” e “a plenitude do que é incompleto”. É bem aí que a poesia de Matheus quer morar – e mora.” Mora e escancara portas e janelas para aquela verdade suprema e inalienável da epígrafe de autoria de Jean-Paul Sartre que inaugura esse belíssimo livro de poesias. “O homem nada mais é do que aquilo que faz de si mesmo.” Talvez aí esteja o passo certo rumo ao “lado imóvel do tempo”, a eternidade... Livro: “Um clítoris encostado na eternidade”, Poesias de Matheus Arcaro – Editora Patuá, São Paulo - SP, 148 p. ISBN: 978-85-8297-852-2 - Link para compra e pronta entrega: https://www.editorapatua.com.br/produto/97781/um-clitoris-encostado-na-eternidade-matheus-arcaro

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