O mundo conhecido, romance luminosamente escrito por Edward P. Jones, abrange de forma original passado, presente e futuro, costurando na mesma trama as vidas de negros libertos e escravizados, brancos e índios. Não se apresentam nem abolicionistas nem mártires. Sua ampla rede de personagens possibilita uma compreensão profunda do complexo regime escravocrata, cujos ecos são ouvidos ainda nos dias de hoje. Henry Townsend, um fazendeiro negro, sapateiro e ex-escravo, é apaixonado pela obra Paraíso perdido, clássico de John Milton, e tem um mentor pouco provável: William Robbins, um dos homens mais poderosos do Sul dos Estados Unidos de antes da Guerra Civil. Henry torna-se dono de sua própria fazenda - e também de seus próprios escravos. Mas algo começa a mudar: escravos fogem, famílias com boas relações traem-se umas às outras, negros livres são vendidos de volta à escravidão, há desconfiança por toda a parte. Um mundo conhecido começa a desmoronar.
O mundo conhecido - The known world
Edward P. Jones
Um olhar incomum sobre a escravidão (Sem Spoiler)
Em 2015, um grupo de críticos norte-americanos analisou 156 obras e elegeu “O Mundo Conhecido” como o segundo melhor livro escrito desde o início deste século. Vencedor do Pulitzer de 2004, do IMPAC, do National Book Critics Circle Award e do Anisfield-Wolf Book Awards, “O Mundo Conhecido” é uma narrativa ficcional sobre um escravo livre no estado da Virgínia que se torna dono de terras e de escravos. Embora possa soar estranho, é historicamente correto: no século XIX, os escravos compravam o direito à liberdade com o próprio trabalho. Uma vez alforriados, alguns negros optavam por comprar escravos e utilizá-los em terras que arrendavam ou conseguiam adquirir ao longo do tempo. Eram ex-escravos negros que compram negros não libertos e os utilizavam como escravos. É como o que acontece em uma linhagem familiar com histórico de abuso infantil, o comportamento passa de geração a geração. Em outras casos, os negros alforriados, no afã de reunir suas famílias, costumavam comprar seus parentes dos brancos que os mantinham como escravos em suas fazendas, sem, contudo, terem a possibilidade de dar-lhes a alforria. Logo, seus parentes continuavam sob o status de escravos, sendo vistos perante a lei como “propriedade”, como um bem físico do comprador. Não bastasse o sofrimento, viravam proprietários dos próprios parentes, sem poder libertá-los de fato. São esses os assuntos principais do livro. Impactantes, heim? Outro ponto interessante é a narrativa em si. Há uma fusão entre presente, passado e futuro. Um parágrafo pode contar a história no momento presente só para dar um salto de 50 anos no próximo e então retroceder novamente, em uma linha do tempo elástica que não é pontuada por capítulos, como se vê na maioria dos romances não-lineares. O autor mergulha em todos os personagens, contando o que fizeram até ali e o que seria deles anos mais tarde. Dá pulos no tempo abrindo pequenas janelas no presente por onde pode-se vislumbrar o futuro. Essa é uma técnica que já havia visto em outros livros, mas, talvez, não tão bem costurada como neste livro. Por fim, O Mundo Conhecido bateu na trave por um único motivo: cheguei nele por meio de outro livro com o qual concorreu pelo Pulitzer de 2004, chamado “A invisível Máquina do Mundo”, de Marianne Wiggins. Como eu simplesmente fiquei fascinado pelo livro de Wiggins (e sabendo que ele perdeu o Pulitzer para “O Mundo Conhecido”), eu esperava por uma experiência ainda mais fantástica. Infelizmente, ele não superou, mas, mesmo assim, é um excelente livro, que rende ótimos insights e promove bastante reflexão. Recomendo que você leia os dois, ok? Pra fechar, não espere que o livro rode somente sob a dramaticidade do tema. O autor investe bastante energia em despir seus personagens, o estilo de vida local, o clima pré-guerra civil americana e leva a história de forma peculiar. É, em resumo, um lembrete constrangedor e doloroso de uma época quando, em nossos quintais, pessoas eram consideradas propriedade e as vidas eram dispensáveis. Leva 5 de 5 estrelas. Passagem interessante: "Quem bate não pode nunca ser o juiz. Só quem recebe o golpe pode lhe dizer se foi forte ou não, se mataria um homem ou se faria um bebê apenas bocejar" (pg. 193)
Estatísticas
Avaliações
4.2 / 37- 5 estrelas43%
- 4 estrelas32%
- 3 estrelas19%
- 2 estrelas5%
- 1 estrelas0%



