Os Grandes Iniciados (Gnose #17) - esboço da história secreta das religiões

    Edouard Schure

    IBRASA
    1985
    389 páginas
    12h 58m
    ISBN-13: 9788534800716
    Português Brasileiro

    "Os grandes iniciados" é, certamente, a mais importante obra de Édouard Schuré. Tem influenciado de forma marcante pensadores, teólogos, filósofos, sacerdotes, ficcionistas e poetas "pelo painel mágico que nos apresenta desde os tempos das primeiras civilizações, em que surgiram os primeiros iniciados." Nesta obra imortal, traço o autor a "História oculta das religiões", as chamadas "Doutrinas Secretas", as mensagens mais profundas dos iniciados, profetas, reformadores do conhecimento humano pela tradição esotérica. É um livro inspirador e de interesse permanente, pois permanente é a indagação do homem sobre suas origens e seu destino.

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    Os grandes iniciados

    🧝‍♂️ Eis o que retirei do livro que mais me agradou: A corrente semítica e a ariana, eis os dois rios por aonde vieram todas as nossas ideias, mitologias e religiões, artes, ciências e filosofias. Cada uma dessas correntes traz consigo uma concepção oposta da vida, cuja reconciliação e equilíbrio seriam a própria verdade. A corrente semítica contém os princípios absolutos e superiores: a ideia da unidade e da universalidade em nome de um princípio supremo que, na aplicação, conduz à unificação da família humana. A corrente ariana encerra a ideia da evolução ascendente, em todos os reinos terrestres e supraterrestres e, na aplicação, conduz à diversidade infinita dos desenvolvimentos, em nome da riqueza da natureza e das múltiplas aspirações da alma. O gênio semítico desce de Deus para os homens; o gênio ariano sobe do homem para Deus. Um é representado pelo arcanjo justiceiro, que desce sobre a Terra armado do gládio e do raio; o outro, por Prometeu, que empunha o fogo roubado do céu, e percorre o Olimpo com o olhar. Esses dois gênios, nós os trazemos dentro de nós mesmos. Pensamos e agimos alternadamente sob o império de um e de outro. Todavia, eles estão ligados em nossa intelectualidade, e não fundidos. Contradizem-se e se combatem em nossos mais íntimos sentimentos e pensamentos sutis, como na vida social e em nossas instituições. Ocultos sob múltiplas formas, que se poderiam resumir sob os nomes genéricos de espiritualismo e naturalismo, dominam nossas discussões e nossas lutas. A Índia e o Egito foram as duas grandes matrizes das religiões. Possuíram o segredo da grande iniciação. Entraremos em seus santuários. Os semitas encontraram o Deus único, o Espírito universal no deserto, no cume das montanhas, na imensidão dos espaços estelares. Os citas e os celtas encontraram os Deuses, os espíritos múltiplos, no fundo de seus bosques. Lá eles ouviram vozes, lá tiveram os primeiros arrepios do Invisível, as visões do Além. Eis porque a floresta encantadora ou terrível sempre foi amada pela raça branca. Dizem os livros sagrados do Oriente que Rama, por sua força, seu gênio e sua bondade, tornara-se senhor da Índia e rei espiritual da Terra. Sacerdotes, reis e povos diante dele se inclinavam como diante de um benfeitor celeste. Sob o signo do carneiro, seus emissários divulgaram ao longe a lei ariana, que proclamava a igualdade entre os vencedores e vencidos, a abolição dos sacrifícios humanos e da escravidão, o respeito pela mulher no lar, o culto dos antepassados e a instituição do fogo sagrado, símbolo visível do Deus inominado. Os árias, conquistadores de raça pura, viam-se diante de raças muito misturadas e bastante inferiores, onde o tipo amarelo e vermelho se cruzavam sobre um fundo negro de múltiplas nuances. A civilização hindu assim nos aparece como uma formidável montanha, trazendo na base uma raça melanina, nos flancos, os sangues-mesclados, e no vértice, os puros arianos. A separação das castas, na época primitiva, não era muito rigorosa, e grandes misturas ocorreram entre esses povos. O prodígio foi que, apesar dessa mestiçagem, as ideias dominantes na raça branca conseguiram se manter no vértice dessa civilização, através de tantas revoluções. Aí está, pois, bem definida, a base étnica da Índia: de um lado, o gênio da raça branca com seu sentido moral e suas sublimes aspirações metafísicas; de outro, o gênio da raça negra com suas energias passionais e sua força dissolvente. Foi o filho mais velho de Deus, Krishna, quem reconciliou os dois gênios em luta, o da raça branca e o da raça negra, os cultos solares e os lunares. Esse homem divino foi o verdadeiro criador da religião nacional da Índia. Além disso, através de sua doutrina brâmane, esse poderoso espírito lançou no mundo uma ideia nova, de imenso alcance: a do verbo divino ou da divindade encarnada ou manifestada no homem. Seja o que for, foi por intermédio de Krishna, que esta ideia surgiu no mundo antigo; e é por Jesus que ela se irradiará sobre toda a Terra. Krishna assim ensina: Escute um enorme e profundíssimo segredo, o mistério soberano, sublime e puro. Para chegar à perfeição, é preciso conquistar a ciência da unidade, que está acima da sabedoria; é preciso elevar-se ao ser divino que está acima da alma, acima da própria inteligência. Ora, este ser divino, este amigo sublime, está em cada um de nós. Pois Deus reside no interior de todo homem, mas poucos sabem encontrá-lo. Eis o caminho da salvação: uma vez que tiveres percebido o ser perfeito que está acima do mundo e em ti mesmo, determina-te a abandonar o inimigo que toma a força do desejo. Dominai vossas paixões. Os prazeres que os sentidos obtêm são matrizes de penas futuras. Não somente fazei o bem, mas sede bons. Que o motivo esteja na ação e não nos frutos. Renunciai ao fruto de vossas obras, mas que cada uma de vossas ações seja como uma oferenda ao Ser supremo. Aquele que fizer o sacrifício de seus desejos e de suas obras ao Ser do qual procedem todas as coisas, e por quem foi formado o Universo, obtém por meio desse sacrifício a perfeição. Unido espiritualmente, atinge aquela sabedoria espiritual que está acima do culto das oferendas e sente uma felicidade divina. Pois aquele que encontra em si mesmo a sua felicidade, sua alegria e também sua luz, é uno com Deus. Ora, sabei vós, a alma que encontrou Deus está livre do renascimento e da morte, da velhice e da dor, e bebe a água da imortalidade. Pouco a pouco, mas em uma esfera crescente, vê-se reluzir a doutrina dos iniciados no centro das religiões, como um sol deslindando sua nebulosa. Cada religião aparece como um planeta diferente. Em cada um deles, mudamos de atmosfera e de orientação celeste, mas é sempre o mesmo sol que nos ilumina. O mundo organizado, o universo vivo, é o produto do verbo criador, que se manifesta por sua vez sob três formas: Brama, o Espírito, corresponde ao mundo divino; Visnu, a alma, corresponde, ao mundo humano; Shiva, o corpo, corresponde ao mundo natural. Nesses três mundos, o princípio masculino e o princípio feminino (essência e substância) são igualmente ativos, e o Eterno Feminino se manifesta ao mesmo tempo na natureza terrestre, humana e divina. Ísis é tríplice, Cibele também. Vemos, assim concebida, a dupla trindade, a de Deus e a do Universo, encerrando os princípios e o quadro de uma teodicéia e de uma cosmogonia. É justo reconhecer que esta ideia-mãe saiu da Índia Todos os templos antigos, todas as grandes religiões e inúmeros filósofos célebres adotaram-na. No tempo dos apóstolos e nos primeiros séculos do cristianismo, os iniciados cristãos reverenciavam o princípio feminino da natureza visível e invisível sob o nome de Santo-Espírito, representado por uma pomba, sinal da potência feminina, em todos os templos da Ásia e da Europa. Se, depois, a Igreja ocultou e perdeu a chave desses mistérios, seu sentido ainda está inscrito em seus símbolos. As religiões da Assíria, do Egito, da Judéia, da Grécia só podem ser compreendidas quando se toma seu ponto de ligação com a antiga religião indo-ariano. O homem contemporâneo procura o prazer sem a felicidade, a felicidade sem a ciência, e a ciência sem a sabedoria. A antiguidade não admitia semelhante separação. Em todos os domínios, ela levava em conta a tríplice natureza do homem. A iniciação era um treino gradual de todo ser humano rumo aos cumes vertiginosos do espírito, de onde se pode dominar a vida. Os sábios antigos acreditavam que o homem somente possui a verdade se ela se tornar uma parte do íntimo de seu ser, um ato espontâneo da alma. Durante aquele profundo trabalho de assimilação, o discípulo era deixado sozinho consigo mesmo. Os mestres não o ajudavam em nada, e muitas vezes ele se espantava com sua frieza e indiferença. Vigiavam-no com atenção; submetiam-no a regras inflexíveis; exigiam dele obediência absoluta; mas não lhe revelavam nada além de certos limites. Hermes preside à região supraterrestre da iniciação celestial. O nome de HermesTote, misterioso e primeiro iniciador do Egito nas doutrinas sagradas, relaciona-se, sem dúvida, a uma primeira e pacífica mistura da raça branca com a negra, nas regiões da Etiópia e do Alto Egito, muito tempo antes da época ariana. Hermes assim explicou o grande enigma da vida: “Uma única alma, a grande alma do Todo, gerou, dividindo-se, todas as almas que se movem no Universo”. A importância do povo de Israel para a história da humanidade salta aos olhos, logo à primeira vista, por duas razões. A primeira é que ele representa o monoteísmo; a segunda é que ele deu origem ao cristianismo. Mas, o fim providencial da missão de Israel somente se revela a quem, interpretando os símbolos do Antigo e do Novo Testamento, percebe que eles encerram toda a tradição esotérica do passado, ainda que sob uma forma muitas vezes alterada (no que concerne, sobretudo, ao Antigo Testamento), pelos numerosos redatores e tradutores, a maior parte dos quais ignoravam o seu sentido primitivo. Então, o papel de Israel torna-se claro. Pois este povo forma como que o elo necessário entre o antigo e o novo ciclo, entre o Oriente e o Ocidente. Moisés, iniciado egípcio e sacerdote de Osíris, foi incontestavelmente o organizador do monoteísmo. Por seu intermédio, esse princípio, até então oculto sob o tríplice véu dos mistérios, saiu do fundo do templo para entrar no círculo da história. Moisés teve a audácia de fazer do mais alto princípio da iniciação o dogma único de uma religião nacional, e a prudência de revelar suas consequências somente a um pequeno número de iniciados, impondo-o à massa pelo temor. Além disso, o profeta do Sinai evidentemente teve visões longínquas que ultrapassavam de muito os destinos de seu povo. Para o estabelecimento de uma religião monoteísta, Moises teve precursores na pessoa dos reis nômades e pacíficos que a Bíblia nos apresenta sob a figura de Abraão, de Isaac e de Jacó. Para a obra que sonhava realizar era preciso envidar todos os reforços. Antes dele, Rama, Krishna, Hermes, Zoroastro, Fo-Hi haviam criado religiões para os povos; Moisés quis criar um povo para a religião eterna. Para esse projeto tão ousado, novo e colossal, era necessária uma base poderosa. Por isso Moisés escreveu o Séfer Bereschit, seu Livro de Princípios, síntese da ciência passada e quadro da ciência futura, chave dos mistérios, tocha dos iniciados, incentivo para a união de toda a nação. Quando, no tempo de Salomão, traduziu-se o Gênese em caracteres fenícios; quando, após o cativeiro de Babilônia, Esdras o redigiu em caracteres aramaico-caldaicos, o sacerdócio judeu já manejava essas chaves com bastante imperfeição. Quando, finalmente, vieram os tradutores gregos da Bíblia, estes tinham somente uma pálida ideia do significado esotérico dos textos. São Jerônimo, malgrado suas sérias intenções e seu grande espírito, quando fez a tradução latina segundo o texto hebreu não pôde penetrar seu significado primitivo; e, se o conseguiu, viu-se obrigado a calar-se. No Gênese, Psiquê, a Alma humana, chama-se Aísha (esposa de Aísh, o Intelecto), outro nome de Eva. Sua pátria é Shamaim, o céu. Lá, ela vive feliz, no éter divino, mas inconsciente de si mesma. Ela desfruta o céu sem compreendê-lo. Pois para compreendê-lo, é preciso ter esquecido e depois lembrar; para amá-lo, é preciso tê-lo perdido e depois reconquistá-lo. Ela não saberá senão pelo sofrimento, não compreenderá senão pela queda. E que outra queda profunda e trágica senão a Bíblia infantil que lemos? Pitágoras atravessou todo o mundo antigo antes de revelar sua palavra à Grécia. Ele conheceu a África e a Ásia, Mênfis e Babilônia, sua política e iniciação. Pitágoras era filho de um rico joalheiro de Samos e de uma mulher chamada Partênis. A Pítia de Delfos, consultada durante uma viagem, pelos jovens recém-casados, prometera-lhes “um filho que seria útil a todos os homens, em todos os tempos”, e o oráculo enviara os esposos a Sidon, na Fenícia, para que o filho predestinado fosse concebido, gerado e nascido longe das influências perturbadoras de sua pátria. Antes mesmo de seu nascimento, a criança maravilhosa fora dedicada por seus pais à luz de Apolo, na lua do amor. O menino nasceu; quando completou um ano, sua mãe, atendendo ao conselho dos sacerdotes de Delfos, levou-o ao templo de Adonai, num vale do Líbano. Lá, o pontífice o abençoou. Depois a família voltou a Samos. O filho de Partênis era muito bonito, meigo, moderado, pleno de senso de justiça. Somente a paixão intelectual brilhava em seus olhos e imprimia aos seus atos uma energia secreta. Longe de contrariá-lo, seus pais encorajavam sua inclinação precoce para o estudo da sabedoria. Assim, ele pôde livremente conferenciar com os sacerdotes de Samos e com os sábios que começavam a fundar, na Jônia, escolas onde ensinavam os princípios da Física. Aos dezoito anos, recebia as lições de Hermodamas, de Samos; aos vinte, as de Ferecides, em Siro. E já conferenciara com Tales e Anaximandro, em Mileto. Estes mestres tinham-lhe aberto novos horizontes, mas nenhum satisfizera. Entre seus ensinamentos contraditórios ele procurava interiormente o liame, a síntese, a unidade do grande Todo. O filho de Partênis chegara, então, a uma dessas crises em que o espírito, superexcitado pela contradição das coisas, concentra todas as suas faculdades num esforço supremo para entrever o objetivo, para encontrar o caminho que leva ao sol da verdade, ao centro da vida. A Terra dizia: Fatalidade! O Céu dizia: Providência! E a Humanidade, que flutua entre os dois, respondia: Loucura! Dor! Escravidão! Mas, no fundo de si mesmo, o futuro adepto ouvia uma voz irrefutável que respondia às cadeias da Terra e aos clarões do céu com este grito: Liberdade! Quem, pois, teria razão? Os sacerdotes, os sábios, os loucos, os infelizes ou ele mesmo? Todas aquelas vozes diziam a verdade, cada uma delas triunfava em sua esfera, mas nenhuma lhe revelava sua razão de ser. A doutrina de Pitágoras estava baseada em uma ciência experimental e acompanhada de uma organização completa da vida. Mostrava ainda que o amor pela pátria vem do amor que se sentiu na infância pela mãe. Os pais não nos são dados por acaso, como acredita o vulgo, mas por uma ordem antecedente e superior, chamada fortuna ou necessidade. Dizia o mestre: “O amigo é um outro eu. Deve-se honrá-lo como a um Deus”. No fundo dos mistérios antigos, todos os Deuses conduziam ao Deus único e supremo. Essa revelação, com todas as suas consequências, era a chave do Cosmos. Pitágoras formulou esta ciência em um livro escrito pessoalmente chamado hiéros logos, a palavra sagrada. Este livro não chegou até nós. Mas os escritos posteriores dos pitagóricos, Filolaus, Arquitas e Hiérocles, os diálogos de Platão, os tratados de Aristóteles, de Porfírio e de Jamblico, dão-nos a conhecer seus princípios. Se eles permaneceram ocultos, para os filósofos modernos, é porque só se pode compreender seu significado e seu alcance pela comparação de todas as doutrinas esotéricas do Oriente. Através da ciência dos números ele acreditava poder fornecer a chave do ser, da ciência e da vida. Portanto, Deus, a substância indivisível, tem por número a Unidade que contém o Infinito, por nome o de Pai, de Criador ou de Eterno-Masculino, por sinal o Fogo vivo, símbolo do Espírito, essência do Todo. Eis o primeiro dos princípios. Pitágoras dizia que a grande Mônada age como Díada criadora. No momento em que se manifesta, Deus é duplo, essência indivisível e substância divisível; princípio masculino ativo, animador, e princípio feminino passivo ou matéria plástica animada. A Díada representava, pois, a união do EternoMasculino e do Eterno-Feminino em Deus, as duas faculdades divinas essenciais e correspondentes. Na humanidade a Mulher representa a Natureza; e a imagem perfeita de Deus não é só o Homem, mas o Homem e a Mulher. Daí sua invencível, sedutora e fatal atração; daí a embriaguez e o Amor, onde se representa o sonho das criações infinitas e o obscuro pressentimento de que o Eterno-Masculino e o EternoFeminino gozam de uma união perfeita no seio de Deus. A Mônada representa a essência de Deus; a Díada, sua faculdade geradora e reprodutora. Esta gera o mundo, manifestação visível de Deus no espaço e no tempo. Ora, o mundo real é tríplice. Porque, assim como o homem se compõe de três elementos distintos, mas fundidos um no outro: o corpo, a alma e o espírito, assim também o Universo é dividido em três esferas concêntricas: o mundo natural, o mundo humano e o mundo divino. A evolução material e espiritual do mundo são dois movimentos inversos, mas paralelos e concordantes em toda a escalada do ser. Um não se explica sem o outro, e, vistos em conjunto, explicam o mundo. A evolução material representa a manifestação de Deus na matéria pela alma do mundo que a elabora. A evolução espiritual representa a elaboração da consciência das mônadas individuais e suas tentativas de se reunirem, através do ciclo das vidas, ao espírito divino do qual emanam. Ver o Universo do ponto de vista físico ou do ponto de vista espiritual não é considerar dois objetos diferentes; é considerar o mundo pelos dois polos opostos. Onde começa a mônada? Seria o mesmo que perguntar a hora em que se formou a nebulosa, ou um sol brilhou pela primeira vez. Seja como for, o que constitui a essência de qualquer homem teve de evoluir durante milhões de anos, através de uma cadeia de planetas e reinos inferiores, conservando, porém, através de todas essas existências um princípio individual que a acompanha por toda a parte. Esta individualidade obscura, mas indestrutível, constitui a marca divina da mônada, na qual Deus quer manifestar-se pela consciência. A verdadeira fé é aquela muda fidelidade da alma a si mesma. Compreende-se assim que Pitágoras, como todos os teósofos, tenha considerado a vida corporal como uma elaboração necessária da vontade, e a vida celeste como um crescimento espiritual e uma realização. Para Pitágoras, a apoteose do homem não era a imersão na inconsciência, mas a atividade criadora na consciência suprema. A alma transformada em puro espírito não perde sua individualidade; completa-a, pois se reúne a seu arquétipo em Deus. Ela se lembra de todas as existências anteriores, que lhe parecem outros tantos degraus para atingir o degrau máximo, de onde ela abrange e penetra o universo. Nesse estado, o homem não é mais homem, como dizia Pitágoras. É semideus; porque reflete em todo o seu ser a luz inefável, com a qual Deus preenche toda a imensidade. Para ele, saber é poder; amar é criar; ser é irradiar a verdade e a beleza. Três anos após Platão ter-se tomado discípulo de Sócrates, este foi condenado à morte pelo Areópago. Morreu cercado de seus discípulos, bebendo cicuta. Poucos acontecimentos históricos são tão discutidos quanto este. E poucos, não obstante, têm tido suas causas e seu alcance tão mal compreendidos. Chega-se a dizer, hoje, que o Areópago teve razão, de seu ponto de vista, ao condenar Sócrates como inimigo da religião do Estado porque, negando os deuses, ele abalava as bases da República ateniense. A serena imagem de Sócrates morrendo pela verdade e passando sua derradeira hora conversando com seus discípulos sobre a imortalidade da alma, gravou-se no coração de Platão como o mais belo espetáculo e o mais santo mistério. Foi sua primeira, sua grande iniciação. Mais tarde, ele deveria estudar a Física, a Metafísica e muitas outras ciências. Mas permaneceu sempre o discípulo de Sócrates. Mas os discípulos de Orfeu, de Pitágoras e de Platão fracassaram diante do egoísmo dos políticos, diante da mesquinhez dos sofistas e das paixões da multidão. A decomposição social e política da Grécia foram a consequência de sua decomposição religiosa, moral e intelectual. Se alguém compreendeu o que faltava ao mundo antigo, se alguém tentou reerguê-lo por um esforço de heroísmo e de gênio, esse alguém foi Alexandre, o Grande. Por uma suprema ironia e uma suprema lógica das coisas, César, que se faz Deus, nega a imortalidade da alma em pleno Senado. Haverá melhor forma de dizer que não há outro Deus além de si? Com os césares, Roma, herdeira da Babilônia, estende seus tentáculos sobre o mundo inteiro. O Estado romano destruiu externamente toda a vida coletiva. E então a orgia romana pode expor-se às claras, com sua bacanal de vícios e seu desfile de crimes. Começa pelo voluptuoso encontro de Marco Antônio e Cleópatra; terminará com os deboches de Messalina e os furores de Nero. Estreia com a paródia lasciva e pública dos mistérios; acabará no circo romano, onde as feras lançam-se sobre as virgens nuas, mártires de sua fé, diante dos aplausos de vinte mil espectadores. Mas uma vaga expectativa pairava sobre os povos. No excesso de seus males, a humanidade inteira pressentia um salvador. Há séculos as mitologias vinham sonhando com um menino divino. Os templos falavam dele misteriosamente. Os astrólogos calculavam sua vinda. A terra esperava um rei espiritual que seria compreendido pelos pequenos, pelos humildes e pelos pobres. Jesus foi uma criança consagrada a uma missão profética pelo desejo da mãe, antes do nascimento. Fala-se a mesma coisa com referência a vários heróis e profetas do Antigo Testamento. Esses filhos consagrados a Deus por suas mães chamavam-se nazarenos. A propósito, é interessante relembrar as histórias de Sansão e Samuel. A linguagem figurada do monoteísmo judaico encobre aqui a doutrina da preexistência da alma. A mulher iniciada faz um apelo a uma alma superior, para recebê-la em seu seio e dar ao mundo um profeta. Esta doutrina muito velada entre os judeus, completamente ausente de seu culto oficial, fazia parte da tradição secreta dos iniciados. As almas profundas e ternas têm necessidade de silêncio e paz para desabrocharem. Jesus cresceu na calma da Galiléia. Suas primeiras impressões foram doces, austeras e serenas. O sentimento originário de unidade com Deus na luz do Amor; eis a primitiva, a grande revelação de Jesus. Uma voz interior dizia-lhe para encerrá-la no mais profundo de si mesmo; mas ela devia iluminar toda a sua vida. Deu-lhe uma certeza invencível; tornou-o doce e indomável; fez de seu pensamento um escudo de diamante, e de seu verbo um gládio de luz. A consciência religiosa em Jesus foi inata, absolutamente independente do mundo exterior. Os Evangelhos mantiveram um silêncio absoluto sobre os fatos e sobre as ações de Jesus antes de seu encontro com João Batista, no qual, afirmam, Jesus de algum modo tomou posse de seu ministério. Logo depois ele aparece na Galiléia com uma doutrina definida, com a segurança de um profeta e a consciência de ser o Messias. Jesus e seus discípulos viajarem de cidade em cidade, de província em província, sempre seguros de encontrarem abrigo junto aos essênios, os quais mantinham uma conduta moral exemplar. Indiferente à pompa exterior do culto de Jerusalém, repelido pela dureza dos saduceus, pelo orgulho farisaico, pelo pedantismo e secura da sinagoga, Jesus foi atraído para os essênios por uma afinidade natural. Acima de Engaddi, onde os essênios cultivaram o sésamo e a vinha, uma vereda escarpada conduzia a uma gruta que se abria na muralha do monte. Entrava-se ali por duas colunas dóricas, talhadas na rocha bruta, semelhantes à do Retiro dos Apóstolos, no vale de Josafá. Lá, ficava-se suspenso acima do abismo a pique, como em um ninho de águia. No fundo de uma garganta, viam-se vinhedos e habitações humanas; mais distante o mar Morto, imóvel e cinzento, e as montanhas isoladas de Moab. Os essênios tinham reservado esse retiro àqueles que queriam submeter-se à prova da solidão. Havia ali vários rolos de papiro dos profetas, arômatas fortificantes, figos secos e um filete de água, único alimento para o asceta em meditação. Jesus para lá se retirou: foi onde teve visões de toda a sua missão e onde dialogou com uma voz celeste que questionou se Ele estava disposto a ser o salvador da humanidade. Quando Jesus despertou daquela visão, nada mudara em torno dele. O sol levante dourava as paredes da gruta de Engaddi. Um orvalho tépido como lágrimas de amor angélico molhava seus pés doloridos e brumas flutuantes elevaram-se do Mar Morto. Ele, porém, não era mais o mesmo. Um acontecimento definitivo ocorrera no abismo insondável de sua consciência. Ele resolvera o enigma de sua vida, conquistara a paz; a grande certeza penetrara nele. Do esfacelamento de seu ser terrestre, que ele havia pisado e lançado no abismo, uma consciência nova surgira radiosa. Ele sabia que se tinha tornado o Messias por um ato irrevogável de sua vontade. Logo depois desceu à aldeia dos essênios. Soube que João Batista acabava de ser preso por Antipas e fora encarcerado na fortaleza de Makerus. Longe de assustar-se com este presságio, viu nele um sinal de que os tempos tinham chegado e era preciso agir por sua vez. Anunciou então aos essênios que ia pregar na Galiléia “o Evangelho do reino dos céus”. Isto queria dizer: levar os grandes Mistérios ao alcance dos simples, traduzir-lhes a doutrina dos iniciados. Semelhante audácia nunca mais fora vista desde os tempos em que Sáquia-Muni, o último Buda, movido por uma imensa piedade, havia pregado às margens do Ganges. A mesma compaixão sublime pela humanidade animava Jesus, acrescida de uma luz interior, um poder de amor, uma grandeza de fé e uma energia de ação que só pertenciam a ele. Do fundo da morte que sondara e experimentara de antemão, trazia a seus irmãos a esperança e a vida. Seu ensinamento popular está contido nesta palavra: o reino do céu está dentro de vós mesmos! O profeta galileu coloca a vida interior da alma acima de todas as práticas exteriores, o invisível acima do visível, o reino dos céus acima dos bens da terra. Ele ordena escolher entre Deus e Mamon. Resumindo, enfim, sua doutrina, ele diz: “Amai vosso próximo como a vós mesmos, e sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”. Ele deixava entrever assim, sob uma forma popular, toda a profundeza da moral e da ciência. Negar Deus é pouco, matar é nada, mas conspirar contra César é o crime dos crimes. Pilatos é forçado a render-se e pronunciar a condenação. Assim, no término de sua carreira pública, Jesus encontra-se diante do senhor do mundo que ele combatera indiretamente, como adversário oculto, durante toda sua vida. A sombra de César o envia à cruz. Profunda lógica das coisas: os judeus entregaram-no, mas o espectro romano, estendendo a mão, mata-o. Mata o seu corpo. Mas é Ele, o Cristo glorificado, que, por seu martírio, tirará de César, para sempre, a auréola usurpada, a apoteose divina, a infernal blasfêmia do poder absoluto. E nenhum outro iniciado nos mistérios ocultos, nem mesmo Paulo de Tarso, o grande disseminador do cristianismo no Ocidente, conseguiu ser maior do que Jesus.

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