o bebedor de auroras -

    Tonho França

    Multifoco
    2009
    75 páginas
    2h 30m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    pra quem gosta de poesia pura, de observação mais lírica e angustiada e eufórica da aurora e seus desdobramentos.

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    Fabiano Fernandes Garcez picture
    Fabiano Fernandes Garcez25/03/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um trago sozinho à tarde

    Ernest Fischer, em A necessidade da arte, afirma: Em todo poeta existe certa nostalgia de uma linguagem “mágica”, original. Em O Bebedor de Auroras, mais novo trabalho do premiadíssimo poeta Tonho França nos brinda com magia, lírica íntima e sintaxe peculiar para resgatar do mundo contemporâneo, a cada dia repleto de surpresas, armadilhas e contradições, a humanidade perdida. A experiência individual do eu-poético, traz ao livro um tom de saudade e de desencanto, talvez contaminado pelo sentimento de desencaixe, como se pode notar em: aprendi a ver através das margaridas, mas não entendo mais o [olhar dos homens (...) (Tardes Artificiais) ou: A toda hora A todo momento Estou fora ou dentro? (Muros) A pena de Tonho corre sobre o fazer poético, em inúmeros poemas se encontram as palavras: versos, poesia e poeta, isto em consequência a reclusão no presente de eu-poético fragilizado pelas incertezas do futuro e as recordações do passado: Meus olhos, embora cansados, Pressentem o que não podem ver Aprenderam com o meu silêncio – rituais e rotinas de solidão – Meus instintos guardam a memória dos amores E de tudo o que me é caro e que meu coração... Já não suportaria. E de nada me adiantam, agora, lembranças, Penitências, alegrias ou arrependimentos ¬Estou recluso nos versos – E nas minhas dores, culpas Nos enfrentamentos em calmos e intermináveis silêncios Abertos, vulneráveis, extremamente íntimos E despidos de profecias, santos e defesas, Num encontro definitivo, conclusivo, coeso Do qual nem poeta, nem poesia, saem ilesos. (Autorretrato (Diálogo do último dia)) O sotaque poético de Tonho França permanece intacto, maneira singular de construção semântica, que aproveita fragmentos de versos anteriores para dar aos posteriores outras significações: As ladeiras de pedra Os homens a seguir o destino em procissão As ladeiras de pedra e os homens a segui As ladeiras de pedra tentam a remissão: Os homens de pedra a seguir vão, homens de pedra a seguir os homens, em vão. (...) (Procissão) Na construção sintática, menos recorrente nesta obra é verdade, Tonho França também é mestre, trabalha duas orações coordenadas, porém com o segundo elemento do paralelismo inusitado: Meus olhos guardam o segredo da morte Suas mãos enrijecidas em pétalas de mármore-rosa Colhiam maças e notas musicais. (Canto III) Mares... destoa do resto do livro, o uso constante da mesma rima dá ao poema um ritmo arcaico, lembrando muito a poesia do século XIII e XIX: Os barcos deixam o cais, Aventuram-se e deixam o cais, Nas ondas inseguras, deixam o cais, Levando as desventuras, deixam o cais, Nas noites tão escuras, deixam o cais, Deslizam entre espumas e corais, (...) Ainda na linguagem que o poeta utiliza para suas auroras o destaque fica por conta de Metrópole: Pivete no semáforo (vida?) Vende balas (perdidas) o uso dos parênteses dá ao poema outras possibilidades de interpretação, pode-se ler só os termos que estão fora deles, apenas os que estão dentro, ou ainda embaralhando-os. Em Vida vista pela janela (cenas de um tempo sem sentido), um dos melhores poemas do livro, Tonho nos ensina: É preciso nos lavar de nós mesmos (..) Em uma sociedade que é regida pelo olhar mercadológico, o olhar sensorial do eu-poético recai sobre os homens desumanizados, então resta, apenas, concordar com as palavras do poeta: Já aprendi a sobreviver nas esquinas definitivas E sinto como é pesada a franqueza Escrevo abaixo da “linha da pobreza” Dentro dos olhos e com muita dor Mas não me iludo, não me engano Meus versos são pelos seres humanos A poesia é para sermos humanos (...) (Dia a dia) A voz auscultada das páginas traz a entonação do entardecer, apesar do título constar como auroras, a palavra tarde é recorrente em muitos de seus versos, assim como ecos de um homem, em uma metrópole, solitário à espera de alguém para, quem sabe, um trago de poesia. O Bebedor de Auroras é um bálsamo contra a banalização do mundo contemporâneo que está cada vez mais e mais dezumano e alienante.

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