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    Uma fábula -

    William Faulkner

    Nova Fronteira
    1983
    480 páginas
    16h 0m
    ISBN-10: 0824068289
    Português Brasileiro
    4
    18 avaliações
    Leram31Lendo4Querem148Relendo0Abandonos2Resenhas3
    Favoritos1Desejados148Avaliaram18

    Em Uma fábula, obra que só recentemente veio a ter seus méritos reconhecidos como um dos momentos mais brilhantes da vasta e colossal obra de William Faulkner, temos a história alegórica de uma rebelião do exército francês em plena Primeira Guerra Mundial. Um romance complexo, que o próprio autor considerava sua magnum opus.

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    Flávia picture
    Flávia09/12/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    IT TAKES TWO TO TANGO!

    “Uma Fábula” é um complexo romance alegórico multifacetado que levou uma década para ser escrito, e se tornou uma das maiores realizações da vida do escritor William Faulkner. Muito embora tenha sido uma história incompreendida pelos críticos da época do seu lançamento, atualmente ela é aclamada como uma das obras-primas do escritor, tendo recebido o prêmio Pulitzer e o National Book Award. A importância de William Faulkner para a literatura americana é algo que não está aberto a discussões, já que ele é considerado um dos maiores autores da literatura moderna e um dos principais representantes da literatura do Sul dos Estados Unidos. A forma como Faulkner explora com profundidade a psique dos seus personagens, só demonstra sua habilidade extraordinária em lhes conceder tamanho caráter humano. Combinado a isso temos a maestria das suas narrativas altamente complexas, que por muitas vezes implica em múltiplos pontos de vista e uma estrutura temporal não linear. E aqui, neste livro, somos agraciados por toda essa genialidade tão característica do Faulkner em cada uma dessas linhas que compõem suas 477 páginas. Mas antes de considerar iniciar a leitura deste livro, é preciso compreender que se você busca por uma leitura tranquila para este fim de ano, apenas para relaxar e descansar a mente, esta certamente não será a melhor opção. Ler “Uma Fábula” é como ter diante de si um daqueles quebra-cabeças com mais de 5000 peças formando um cenário tão labiríntico que exige que sua atenção esteja unicamente focada em seguir o caminho de cada uma das suas palavras, e ainda assim, mesmo com a sua atenção totalmente voltada, muitas vezes você se perguntará se algumas peças que compõe esse quebra-cabeças não vieram faltando. Mas apesar de todo esse esforço que a obra nos impõe, é certo que ao final ela lhe trará alguma recompensa por todo o empenho dispensado a este livro inesquecível! Tendo por cenário a Primeira Guerra Mundial, onde três mil soldados de um regimento francês se amotinaram, se recusando a continuar a lutar, do lado inimigo nos surpreendemos ao ver que ao invés de se aproveitar do momento para atacar, os alemães estabelecem uma trégua sem explicação alguma, abandonando as suas armas. Todo esse clima de perplexidade por uma trégua que não foi firmada e nem mesmo combinada, vai se espalhando pelas trincheiras, resultando em um silêncio tão ensurdecedor que nos faz questionar: o que é que faz uma guerra? O que é que a motiva? É possível que uma guerra siga adiante sem que os dois lados estejam dispostos a matar e a morrer? E é neste exato momento em que tantas questões vão surgindo em nossa mente, que essa expressão tão comumente usada nos Estados Unidos se estabelece como máxima. Afinal, realmente “é preciso dois para dançar o tango” (expressão original: “It takes two to tango”). Em meio a toda essa confusão de motivações desconhecidas, vamos aos poucos descobrindo alguns detalhes, quando um desfile do regimento amotinado chega à cidade que o recrutou em um caminhão que traz o grupo composto por 13 homens que lideraram o motim. Neste desfile que ocorre em uma quarta-feira, o líder é um cabo que traz em seu passado segredos de família que o levará a ficar diante do Marechal francês, comandante do Exército, que será o único capaz de lhe oferecer três possibilidades para escapar à trágica pena para o motim, que é a morte. E morte em uma sexta-feira. Consegue perceber aqui a densidade dos paralelos que começam a ser delineados? Como escreve Martim Vasques da Cunha, doutor em ética e filosofia política pela Universidade de São Paulo e colaborador dos jornais “O Estado de São Paulo” e “Folha de São Paulo” no prefácio deste livro: “(...) Uma Fábula é uma meditação pungente sobre o único tema que preocupou Faulkner durante a sua existência, conforme o próprio explicou em um discurso dirigido a estudantes na década de 1960, antes de morrer: “o coração humano em luta consigo mesmo”.” Ler esta obra chega a ser uma experiência masoquista, porque é um trabalho tão árduo, que o melhor a fazer é se isolar em algum canto mais tranquilo, sem ninguém por perto, nem mesmo um toque de alguma notificação do celular, para que nada (e quando digo nada, é nada mesmo) possa te dispersar. Escrever isso me faz pensar em como Faulkner era possessivo com seus leitores, porque o danadinho descobriu uma forma de roubar-lhes toda a atenção somente para si. E para quem já leu "O Som e a Fúria", e achava que esse foi seu maior desafio ao ler as obras do autor, eu preciso te alertar que o Faulkner se superou mesmo neste aqui! Como sempre nos livros deste autor, primeiro é preciso se permitir ser conduzido por ele, mesmo quando nos sentimos altamente confusos, para que aos poucos seja possível sentir que vamos encontrando as respostas para desvendar esse enigma que dará corpo a essa imagem final vinda de uma narrativa verdadeiramente poderosa, repleta de fluxos de consciência de múltiplos narradores (inclusive um onisciente!) que contam uma história não linear com frases que muitas vezes se estendem por impressionantes 12 linhas, e parágrafos de 3 e até 4 páginas! Mas mesmo me sentindo tão confusa por tantas vezes (afinal, são tantos personagens, e estamos constantemente sendo lançados de uma consciência para outra sem qualquer aviso prévio!), eu me senti tão presa à essa narrativa, que chegava a visualizar as cenas com muita exatidão. A imagem que vinha a minha mente era de uma época remota, como aquelas que podemos ver naquele seriado de guerra dos anos 1965, e que meu pai (e também o Stephen King!) tanto gostava, chamado “Guerra, Sombra e Água Fresca” (sem a parte da comédia, é claro!). Este é um livro que eu certamente precisarei reler no futuro, porque eu confesso que não consegui chegar nem perto de entender nem metade da sua magnitude. Mas dizer isso já me deixa bastante ansiosa, só de pensar em ter de novo nas minhas mãos tamanha obra de arte escrita por um dos meus escritores favoritos, que é sempre tão exigente, tão possessivo (um verdadeiro ciumentinho clássico!), mas que também é aquele que me faz mergulhar ainda mais fundo na leitura só para descobrir tudo o que uma história incrível como essa tem a nos contar. E aí eu te pergunto: como não amar o Faulkner? 😍🥰

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    4 / 18
    • 5 estrelas33%
    • 4 estrelas33%
    • 3 estrelas28%
    • 2 estrelas6%
    • 1 estrelas0%
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    William Faulkner

    Sem diploma do secundário (ensino médio), o prêmio Nobel de Literatura em 1949, e prêmio Pullitzer em 1955 e 1963 (póstumo), William Falkner viveu em sua pequena cidade no Estado mais pobre dos Estados Unidos, o Mississipi. Só viajava para Hollywood para arranjar trabalho como roteirista. Indo e vindo, entre 1932 e 1955, trabalhou para os estúdios Metro, Fox e Warner. Como escreveu o crítico brasileiro Sérgio Augusto: "Só aderiu ao cinema porque precisava de dinheiro. Tinha 35 anos e acabara de escrever 'Luz em Agosto'. A venda de seus livros mal dava para pagar a conta da luz. Seus primeiros quatro livros não venderam mais de 2 mil exemplares cada. Seu primeiro (e único) best seller, 'The Wild Palms', é de 1939". Por volta de 1958, a Fox tentou trazê-lo de volta. Na época, Faulkner, que já não estava mais tão necessitado de dinheiro, recusou o convite. Após publicar "O Fauno de Mármore" (1924, poemas), Faulkner foi a Nova Orleans para conhecer o círculo literário em torno da revista literária "The Double Dealer", que publicava Hart Crane, Ernest Hemingway, Robert Penn Warren e Edmund Wilson. Além dos contos para a revista, Faulkner fez seu primeiro romance "Paga de Soldado". Tímido, ele preferia a companhia de seus amigos caçadores e dos vizinhos de seu sítio a outros escritores e intelectuais. Seus primeiros livros traziam características da literatura do fim do século 19. "O Povoado", o primeiro romance da "Trilogia Snopes", é um retrato irônico das grandes depressões que antecederam a Guerra Civil norte-americana. Em "Os Invictos", publicado no ano de sua morte, o escritor constrói um conflito de éticas e mentalidades entre o velho Sul e a nova realidade americana após a Guerra Civil. Faulkner entrou numa nova fase, quando encontrou seu estilo nas obras "O Som e a Fúria", "Enquanto agonizo", "Santuário", "Luz de agosto", "Dr. Martino e Outros Contos", "Pilão", "Absalão! Absalão!" e "Palmeiras Selvagens". A violência destes livros está em primeiro plano e, às vezes, os personagens têm uma meia vitória aqui e ali. Em "Enquanto agonizo", Faulkner costura dezenas de monólogos de 15 pessoas para mostrar o perfil psicológico de uma família que conduz o corpo da matriarca ao cemitério. A partir de "O lugarejo", o destino dos personagens de Faulkner não é mais tão trágico. Ao menos surge alguma esperança para a condição humana como uma promessa de liberação. Em "Desça Moisés", sobre a luta do personagem Ike McCaslin contra a devastação da mata, Faulkner denuncia injustiças. Além de viagens necessárias à sua carreira, Faulkner continuou enfurnado no Mississipi até se tornar escritor residente da Universidade de Virgínia. O contato com os estudantes está registrado no livro "Faulkner na Universidade".

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