Devastador
O subtítulo não poderia ser mais apropriado. É justamente para aqui que Abissal, o derradeiro volume da trilogia Resto de Vida, nos conduz: para as profundezas do abismo intransponível que foi cavado no íntimo de cada personagem. A busca pela remissão dos pecados, iniciada em Vates de Nós, culmina em momentos cruciais, tornando difícil, senão quase impossível, que as almas submersas em agonias conheçam a redenção. É complicado falar desse livro. Basta piscar o olho e lá estamos nós, soltando o tal do spoiler. Por isso, estou pisando em ovos. Não se trata apenas de um enredo bem elaborado. A trama fala de vidas dentro da vida. Um universo que se descortina em camadas, nos mostrando o quanto as decisões dos outros nos afetam, e o quanto as nossas decisões afetam o destino dos outros. A Eliza Edgar tem um estilo bem peculiar. Ela vai armando os eventos no horizonte da história, para depois soltá-los, um atrás do outro, numa verdadeira cascata de incidentes trágicos. Do nada, somos atropelados por aquela sucessão de catástrofes. Eu mal tinha digerido uma cena de luto e já tive que mastigar uma situação de extrema injustiça. O resultado não poderia ser outro: incapaz de deixar o livro de lado, avancei destroçado pela leitura e virei a última página com a alma lavada, mas o coração na mão. Se você vai se aventurar por essa leitura, não espere grandes romantizações. O que a gente vê por aqui é a natureza humana e a realidade da vida sendo retratada da forma mais crua possível, onde nem mesmo a poesia é capaz de abrandar a dor. Poucas vezes me deparei com um enredo tão extraordinário e, ao mesmo tempo, tão crível. Fato que me levou a admirar a força dessa narrativa. Destaque especial para Fred, uma construção monumental que me conquistou desde a sua primeira aparição, isso lá no volume um, e Bianca, que, ouso dizer, é uma das maiores anti-heroínas da literatura brasileira. E em pensar que um dia eu odiei esse personagem. Me desculpe, Bianquinha...



