Este é um daqueles livros que interconectam sons e natureza aos sentimentos e às situações em que os personagens se envolvem. Através das paisagens, plantas e sons, incluindo a música, que a história de um rapaz misterioso em uma pensão do início do século XX no Rio de Janeiro vai sendo contada. James Marian é um inglês de beleza singular e díspar: ao mesmo tempo em que ostenta um corpo másculo, desenvolvido, musculoso, sua cabeça é delicadamente, marcadamente feminina. Ele hipnotiza e provoca asco nos moradores da pensão de Miss Barkley, também por demonstrar uma personalidade reclusa e reservada, que aflora traços de timidez feminina. James Marian não se abre com ninguém, mas situações singulares fazem com que ele se revele, mesmo que reservadamente, com o narrador sem nome, a quem franqueia a leitura de um livro profundamente misterioso (que carregaria o segredo de sua existência) e um manuscrito contando sua história. Esfinge é tido como um livro ousado, por mostrar um protagonista com traços de transexualidade em pleno nascer do século XX. Lançado em 1903, não se trata de um livro lido, relido e discutido na academia, mas sua (re)descoberta agora pode abrir uma nova e interessante seara para os estudos de gênero.