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    Cartas -

    Graciliano Ramos

    Record
    1984
    225 páginas
    7h 30m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
    4.1
    54 avaliações
    Leram112Lendo5Querem153Relendo1Abandonos2Resenhas3
    Favoritos1Desejados153Avaliaram54

    Correspondência íntima de Graciliano Ramos. OBS: A imagem acima é da folha de rosto do livro; a edição dela possui uma capa dura na cor vermelha.

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    Ana Sá picture
    Ana Sá06/11/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Conhecendo um velho amigo

    Este ano eu viajei de São Paulo a Alagoas e fiquei hipnotizada pelo mapa interativo do avião quando surgiu na tela "Palmeira dos Índios". Eu não tinha como visitá-la, mas sabia que era a terra onde Graciliano viveu (por um tempo) e foi prefeito. Dizem que seus relatórios municipais foram de tal qualidade que aguçaram de vez o interesse das editoras. E daí eu desembarquei. Depois, já no centro de Maceió, fui atrás de sua estátua com pose de quem passeia reflexivo no fim de tarde, posicionada tendo aquele azul de mar de olhos brilhantes ao fundo. Quase em frente, longe da tranquilidade do passo que Graciliano parece dar, os turistas faziam filas e filas pela "instagramável" Cadeira Gigante de Maceió. E eu ali, com o dono da Baleia só pra mim, despercebido. E daí eu fui ler este livro de cartas. Agora que tive acesso a esses escritos íntimos que somam correspondências de 1910 a 1952, eu tenho consciência de que o escritor não via propósito no interesse das pessoas pelas páginas burocráticas de Palmeira dos Índios. Tampouco ele achou graça da chegada da fama de escritor. Então foi fácil concluir que a minha empolgação com o mapa do avião seria tida por ele como tola, enquanto que a postura dos turistas em ignorá-lo, vista como uma benção! Mas a reprovação de Graciliano ao meu perfil de tiete não diminuiu meu gosto pelo livro. O conteúdo das cartas não é, em geral, denso ou impressionante, mas nos revela em doses homeopáticas uma pessoa de personalidade pragmática, atravessada por um tipo de mau humor que causa simpatia (ri alto com seus comentários sobre o ambiente de festas religiosas em cidades do interior!). Nesta coletânea, vemos o explodir de sua paixão por Heloísa (socorro! quantas cartas cansativas! o homem ficou doente de amor!) até o amadurecimento do casamento, quando detalhes cotidianos, como o envio de dinheiro, passam a tomar o lugar das juras emocionadas. Já sobre literatura, o tom passional nunca surge. Descobri um Graciliano que encara a escrita sobretudo como atividade profissional, árdua e de muita resiliência. A exceção são os breves momentos em que trata suas personagens pelos nomes, como se fossem gente, para ir atualizando a esposa do andamento de sua escrita. Também destacaria as correspondências em que ele incentiva a esposa a escrever ficção, por enxergar nela talento. Ali, de forma natural, uma escrita mais literário-confessional ensaia presença. Por fim, devido a essa personalidade sem firulas, seus relatos de quando encontrava com figuras como Oswald de Andrade ou Jorge Amado passariam batido não fosse o peso reluzente desses nomes! Sim, eu gostei muito de desvendar Graciliano através deste livro, até porque terminei a leitura com a impressão de ter acabado de conhecer um velho amigo. Alguém que por vezes acorda se sentindo burro, alguém que confessa passar por longos períodos sem inspiração para a leitura, alguém que tem muitas dúvidas sobre sobre sua aptidão literária. Sim, tudo isso foi muito bom, mas preciso confessar que desta vez fui bastante tocada pela dinâmica epistolar por si só! Cartas não funcionam como mensagens eletrônicas. Elas podem ser extraviadas, podem atrasar e nos obrigar a escrever um segundo texto sem ter obtido respostas ao primeiro... Nesses ocasiões fiquei fascinada! A ansiedade, a irritação ou as inseguranças de Graciliano gritavam em suas linhas quando ele era sabotado pelo correio, e presenciar me fez refletir sobre as mudanças brutais ocorridas na comunicação desde então! Aliás, mais do que isso, eu diria ainda que também suas cartas não escritas continuam a palpitar em mim... No início, o autor troca muitas cartas (interessantíssimas e afetivas) com a família, principalmente com suas irmãs. Eu já sabia que na epidemia de peste bubônica ele perdeu as duas e um irmão de uma só vez (as abertura de seção do livro dão esse tipo de contexto), então conforme a doença se tornou assunto, fui ficando angustiada. Eu já estava com o lenço na mão para ler as cartas subsequentes à epidemia, mas para minha surpresa elas não vieram. Silêncio. Anos depois, ao responder a um amigo, ele afirma que andou bastante afastado "das coisas da inteligência", que havia cinco anos que não abria um livro. Que dor pode ter a palavra contida, não é? Esse hiato da coletânea me marcou demais. Ou seja, eu recomendo o livro com certeza, mesmo eu tendo ficado diabética com o excesso de paixão das cartas de amor e a despeito de nada sobre sua atuação como prefeito ter aparecido ali (lembram? sou a fã tola que ainda quer visitar Palmeira dos Índios!). Por isso, pretendo seguir viagem com o livro "O prefeito escritor: dois retratos de uma administração" (2024), da editora Record. Preciso mesmo descobrir como textos político-administrativos ganharam tanta fama! E sim, agora que sou íntima do homem, já até imagino o que ele escreveria à sua Heloísa: "Ló, Acredite se lhe digo que, no meu passeio de fim de tarde pela Ponta Verde, uma jovem paulista com um "r" retroflexo me cumprimentou dizendo que tinha acabado de comprar uma edição qualquer contendo os relatórios de Palmeira! É cada tolice... Essa gente não deve ter lido nunca um livro meu. Era melhor quando só davam atenção àquela cadeira gigante pavorosa!". Obs.: nada contra a tal cadeira de Maceió, tudo contra eu pegar fila quando estou passeando!

    43 curtidas

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    4.1 / 54
    • 5 estrelas33%
    • 4 estrelas41%
    • 3 estrelas24%
    • 2 estrelas2%
    • 1 estrelas0%
    Graciliano Ramos de Oliveira profile picture

    Graciliano Ramos de Oliveira

    Graciliano Ramos de Oliveira (Quebrangulo, 27 de outubro de 1892 — Rio de Janeiro, 20 de março de 1953) foi um romancista, cronista, contista, jornalista, político e memorialista brasileiro do século XX,autor de Vidas Secas. Graciliano Ramos viveu os primeiros anos em diversas cidades do Nordeste brasileiro. Terminando o segundo grau em Maceió, seguiu para o Rio de Janeiro, onde passou um tempo trabalhando como jornalista. Voltou para o Nordeste em setembro de 1915, fixando-se junto ao pai, que era comerciante em Palmeira dos Índios, Alagoas. Neste mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que morreu em 1920, deixando-lhe quatro filhos. Foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios em 1927, tomando posse no ano seguinte. Ficou no cargo por dois anos, renunciando a 10 de abril de 1930. Segundo uma das auto-descrições, "(...) Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas." Os relatórios da prefeitura que escreveu nesse período chamaram a atenção de Augusto Schmidt, editor carioca que o animou a publicar Caetés (1933). Entre 1930 e 1936 viveu em Maceió, trabalhando como diretor da Imprensa Oficial e diretor da Instrução Pública do estado. Em 1934 havia publicado São Bernardo, e quando se preparava para publicar o próximo livro, foi preso em decorrência do pânico insuflado por Getúlio Vargas após a Intentona Comunista de 1935. Com ajuda de amigos, entre os quais José Lins do Rego, consegue publicar Angústia (1936), considerada por muitos críticos como sua melhor obra. Foi libertado em janeiro de 1937. As experiências da cadeia, entretanto, ficariam gravadas em uma obra publicada postumamente, Memórias do Cárcere (1953), relato franco dos desmandos e incoerências da ditadura a que estava submetido o Brasil. Em 1938 publicou Vidas Secas. Em seguida estabeleceu-se no Rio de Janeiro, como inspetor federal de ensino. Em 1945 ingressou no antigo Partido Comunista do Brasil - PCB (que nos anos sessenta dividiu-se em Partido Comunista Brasileiro - PCB - e Partido Comunista do Brasil - PCdoB), de orientação soviética e sob o comando de Luís Carlos Prestes; nos anos seguintes, realizaria algumas viagens a países europeus com a segunda esposa, Heloísa Medeiros Ramos, retratadas no livro Viagem (1954). Ainda em 1945, publicou Infância, relato autobiográfico. Adoeceu gravemente em 1952. No começo de 1953 foi internado, mas acabou falecendo em 20 de março de 1953, aos 60 anos, vítima de câncer do pulmão. O estilo formal de escrita e a caracterização do eu em constante conflito (até mesmo violento) com o mundo, a opressão e a dor seriam marcas da literatura. Memória: Graciliano foi indicado ao premio Brasil de literatura.

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    Alagoas, Brasil

    Graciliano Ramos de Oliveira