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    Selva Brasil -

    Roberto de Sousa Causo

    Draco
    2010
    112 páginas
    3h 44m
    ISBN-13: 9788562942075
    Português Brasileiro
    3.6
    66 avaliações
    Leram96Lendo3Querem92Relendo1Abandonos3Resenhas12
    Favoritos4Desejados92Avaliaram66

    Esta é uma história alternativa que imagina como seria o Brasil vinte anos depois da invasão militar brasileira das Guianas, na Fronteira Norte, segundo os planos megalomaníacos do Presidente Jânio Quadros. Simultaneamente, a Argentina invadiu as Ilhas Malvinas, no Atlântico Sul. Contudo, uma coalizão formada pelos países atingidos pela ação militar brasileira – Inglaterra, França e Holanda – e os Estados Unidos contra‑atacaram e empurraram os soldados brasileiros de volta, ficando com um bom pedaço da Amazônia Brasileira. Desde então instalou-se um conflito permanente na região, com o Brasil e aliados latino-americanos lutando para retomar o território perdido e manter sob controle uma guerrilha patrocinada por aqueles países do Primeiro Mundo. É um Brasil completamente diferente do nosso, contido política e economicamente por esse conflito perpétuo, e com gerações de jovens brasileiros comprometidas com o conflito. Amparada por uma pesquisa cuidadosa, Selva Brasil acompanha um grupo de soldados que – ao seguir para um ponto anônimo do Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa, onde devem substituir uma outra unidade do Exército Brasileiro – se depara com desertores e com um plano secreto para romper as regras de engajamento que limitam o conflito na região. Ao mesmo tempo, esses homens são confrontados com um estranho experimento militar que, indo além dos parâmetros do seu projeto, pode ter aberto um portal entre essa realidade paralela e a nossa.

    Resenhas (12)Ver mais
    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa picture
    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa25/05/2010Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Mensagem recebida de um outro Brasil

    "Selva Brasil" é de Roberto de Sousa Causo. Ou será de Roberto de Souza Causo? Não é que estejamos em dúvida sobre a ortografia. O escritor de ficção científica escreve o sobrenome Sousa, com s. Mas o texto é apresentado como uma mensagem enviada por seu alter ego em uma realidade paralela, que escreve com z, mas de resto é a mesma pessoa, mas que leva uma vida completamente diferente. Philip Roth fez algo vagamente semelhante no romance Complô contra a América, de 2004, no qual o foco é a vida de judeus estadunidenses, inclusive do próprio Roth, sob um governo dos EUA presidido nos anos 40 por Charles Lindbergh, simpatizante do nazismo e antissemita. Mas o livro do Causo (cujo primeiro rascunho é de 1993) tem outras prioridades e outro espírito. O Sousa de nosso mundo serviu o Exército Brasileiro por 14 meses, em 1984 e 1985, mas deu baixa, casou-se com a médica e ocasional escritora Finisia Fideli, teve um filho e seguiu uma carreira literária, sendo hoje conhecido como um escritor de ficção científica. Já o Souza casou-se com outra mulher, teve outro filho, divorciou-se, seguiu a carreira militar e em 1993 é sargento e luta no Amapá em uma guerra interminável do Brasil com as potências do Norte. No mundo de Souza, Jânio Quadros levou a cabo em 1962 o plano, com o qual realmente sonhou, de invadir as Guianas para anexá-las. Apoiados pelos EUA, britânicos e franceses repeliram o exército brasileiro e ocuparam parte do território brasileiro na Amazônia, iniciando uma longa guerra de atrito. Os soldados brasileiros enfrentam continuamente guerrilheiros-mercenários apoiados pelos inimigos do norte e o Brasil tem o apoio dos outros países sul-americanos nesse confronto inclusive o da Argentina, cujas tropas na mesma ocasião tomaram as ilhas Malvinas, mas foram expulsas pelos britânicos. Como literatura, aventura na selva e história de guerra, é muito bom. Ao contrário do livro anterior de Causo, "Anjo de Dor", que tem um início morno, este eletriza desde o começo. Em algumas obras mais antigas do mesmo autor os heróis são esboçados de maneira superficial ou deixam-se manipular por forças misteriosas com tamanha falta de questionamento que chegam a parecer pouco verossímeis, mas desta vez o protagonista tem ideais e valores claros, age por si mesmo e parece crível e interessante. A linguagem informal e cheia de gírias militares usada pelo escritor ajuda a tornar a história mais "verdadeira" e palpável. Deixa um pouco a desejar, porém, a quem se interessa pelos aspectos mais amplos da "história alternativa" propriamente dita. A história gira em torno de um incidente que, caso se mudasse o contexto e uns poucos pormenores (e descartando o elemento de ficção científica que, no romance, permitirá a comunicação entre os dois universos), poderia acontecer em nosso mundo, com alguma tropa brasileira envolvida em guardar a fronteira contra guerrilheiros das Farc ou narcotraficantes de qualquer país vizinho. A ênfase é na aventura e em como a guerra modificou a história pessoal do autor e de parentes, amigos e conhecidos. Com a participação especial e involuntária da minha colega de CartaCapital Rosane Pavam (editora de cultura) a quem o Sousa enviava material sobre ficção científica e a cujo duplo no Universo Paralelo (que, em 1993, também trabalha no Jornal da Tarde) o Souza escreve uma carta verídica. Os soldados brasileiros do mundo paralelo usam armas russas, mas quem não fez serviço militar nem se interessa por questões bélicas mal vai notar. As alterações geopolíticas do cenário são citadas só de passagem e à distância, nos aspectos mais essenciais, sem que suas consequências sejam muito desenvolvidas. Ficamos sabendo, mesmo assim, que John Kennedy não foi assassinado, que os EUA não se envolveram no Vietnã devido à prioridade à guerra nas Guianas, que a União Soviética continuava a existir em 1993 e a América do Sul uniu-se militar e economicamente num Mercado Integrado. Exceto pela menção de que no mundo paralelo o Corpo de Bombeiros não é subordinado à Polícia Militar, nada se diz sobre como a divergência histórica afetou a vida civil, a política e a cultura do Brasil depois de Jânio, embora não faltassem oportunidades de aludir a disso. Esse aspecto poderia ter sido mais desenvolvido para tornar a narrativa mais interessante. Mas a opção de Causo, como explica no posfácio, foi escrever uma história alternativa pessoal, e dirigir também ao leitor a pergunta Quem é você?. Onde você estava em 93?, escreveu-me no exemplar autografado no lançamento. Quem você seria se as circunstâncias que o formaram fossem diferentes? Como viveríamos em um Brasil envolvido em uma guerra permanente por uma decisão arbitrária de um presidente dos anos 60? E o que fazemos com a paz que desfrutamos por não termos dado esse passo, apesar de sofrermos com conflitos na cidade e no campo? A proposta é levar o leitor a refletir sobre como experimenta e questiona a história do Brasil e da América Latina, bem como sua própria vida. Pensar em como suas próprias decisões, assim como as decisões coletivas nas quais é envolvido com ou sem a própria participação, ditam sua vida. Nisso, é muito bem-sucedido, embora talvez o objetivo fosse atingido de maneira mais completa se o Sousa nos permitisse entrever um pouco mais do que se passa no resto do Brasil do Souza, para além dos quartéis da selva.

    10 curtidas

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    3.6 / 66
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    • 4 estrelas42%
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    • 2 estrelas2%
    • 1 estrelas5%
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    Roberto de Sousa Causo

    Roberto de Sousa Causo, formado em Letras pela USP, é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (1999) e A Sombra dos Homens (2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (2006) e Anjo de Dor (2009) e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (2003). Seus contos apareceram em revistas e livros de dez países. Foi um dos classificados do Prêmio Jerônimo Monteiro e no III Festival Universitário de Literatura (com Terra Verde 2001);

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    São Paulo, Brasil

    Roberto de Sousa Causo