Vẽnkagtá nẽn Kaingáng - Remédios Kaingang

    Sergio Mateus Goitoto, Leila Terezinha Goitoto, Eliane dos Santos, Alzemiro Ferreira dos Santos, Maria Paula Kẽnpri Honório, Letícia Fraga (org.), Álvaro F. da Fonseca Junior (org.)

    Todapalavra
    2015
    64 páginas
    2h 8m
    ISBN-13: 9788562450426
    Português Brasileiro

    Financiado integralmente com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), este livro é uma publicação vinculada ao projeto de pesquisa “Formação continuada de professores de língua em contextos bi/multilingues paranaenses”[1], atividade integrante do programa de extensão Laboratório de Estudos do Texto, da Universidade Estadual de Ponta Grossa. O objetivo deste projeto é investigar como são pensadas, no estado do Paraná, as práticas político-pedagógicas em algumas regiões indígenas bi/multilingues, considerando o multilinguismo e o multiculturalismo presentes nesses locais. Procuramos também fazer um levantamento do papel da escola e da comunidade indígena no processo de revitalização e manutenção linguístico-cultural, considerando a presença da cultura luso-brasileira na região. É sabido que, em sua grande maioria, as culturas indígenas foram suplantadas pela cultura luso-brasileira, e esse processo tem provocado movimentos de resistência por parte de comunidades indígenas, as quais muitas vezes se esforçam por conservar suas línguas, culturas e memórias[2], especialmente por meio da educação escolar, já que muitos “aprenderam a valorizar a ‘escola’como um espaço de aquisição de conhecimento e de aperfeiçoamento pessoal no sentido da aquisição de habilidades para um melhor desempenho na interação com a sociedade dominante.”[3] As iniciativas de revitalização e manutenção de culturas indígenas, todavia, são dificultadas pela falta de autonomia das comunidades indígenas na elaboração de seus documentos norteadores (embora essa autonomia seja garantida pela Constituição Federal de 1988; LDB 1996) e ainda pela ausência de um plano de atendimento direcionado a suas escolas, no sentido de formular e implantar programas de formação de professores dentro dessa especificidade e também de regularizar a situação profissional desses professores (MEC/SEF/DPE, 2002), dentre outros problemas. Assim, ainda que a resolução do CNE possa ser considerada um avanço em termos de legislação, na prática ainda falta clareza no direcionamento das ações educativas relativas a questões fundamentais à educação de comunidades minoritárias. Por exemplo, que lugar os conhecimentos tradicionais devem ocupar no processo de ensino e aprendizagem? Muitos trabalhos apontam que isso depende da relação que a comunidade mantém com esses conhecimentos. Desse modo, seria necessário predefinir a dinâmica de trabalho, ou caberia a cada comunidade tomar essa decisão autonomamente, considerando sua realidade sociocultural e seus desejos e necessidades? De qualquer maneira, considerando que, em geral, ações nessa esfera são pensadas e desenvolvidas para as comunidades indígenas, e não propriamente com elas, certamente a melhor saída é a que conta, ao menos, com a participação dessas comunidades. Entende-se, assim, que a voz das comunidades indígenas é imprescindível na tomada de decisões, na elaboração de projeto se na implementação de políticas públicas no sentido de traçar rumos para a educação neste contexto. Para tanto, é preciso que o pesquisador esteja aberto a ouvir os anseios da comunidade indígena em questão, de modo que o projeto atenda às necessidades dessa comunidade e promova sua independência e autonomia no gerenciamento de suas demandas e de seus conflitos. Com isso, evita-se alimentar a velha cultura da dependência ou, pior, a mera exploração das culturas “exóticas” mediante o desenvolvimento de trabalhos de pesquisa cujos resultados se restringem ao ambiente acadêmico, sem qualquer contribuição efetiva para melhorar as condições das comunidades indígenas. O projeto que deu origem a este livro foi desenvolvido, de dezembro de 2012 a agosto de 2015, na Terra Indígena de Mangueirinha, situada no sudoeste do Paraná. De início, foi feito um levantamento das demandas da comunidade indígena,especialmente de alunos e professores que carecem de material de apoio para as aulas das disciplinas de Língua e de Cultura Kaingang. Assim, e com vistas à criação de produtos que se prestem a resgatar, revitalizar e conservar a língua e a cultura da comunidade, o tema deste livro – remédios Kaingang – surgiu logo na primeira de várias reuniões que fizemos naquela localidade. Na sequência, e contando com a participação ativa da comunidade, o levantamento e a seleção dos dados foram feitos por uma equipe formada por Sergio Mateus Goitoto, Leila Terezinha Goitoto, Eliane dos Santos, Alzemiro Ferreira dos Santos e Maria Paula Kẽnpri Honório, razão pela qual eles figuram como autores desta obra. Foi de iniciativa de Sergio Goitoto apontar a importância de se resgatar e registrar os conhecimentos relativos à medicina tradicional Kaingang, aos quais ele, Sergio, ainda teve acesso por meio da convivência com seus pais e avós. Nos últimos 20 ou 30 anos, conforme ele afirmou, a educação das crianças mudou muito, a tal ponto que hoje é difícil encontrar alguma criança que reconheça uma planta medicinal e/ou tenha conhecimento de sua função/indicação. Ou seja, ao menos em Mangueirinha/PR, Terra Indígena a que Sergio pertence, pode-se dizer que esse saber tem sido cada vez menos repassado às gerações mais novas. É inegável que a introdução da medicina ocidental tem exercido um papel importante nesse processo, tendo em vista que o acesso a ela é cada vez maior, o que tem colaborado para que, aos poucos, e cada vez mais, populações indígenas abandonem sua medicina tradicional. Assim, a iniciativa de publicar este livro se sustenta na convicção de que incentivar a revitalização e a manutenção da medicina tradicional Kaingang não significa negar a importância da medicina não indígena, assim como o inverso não pode igualmente se dar. O que se busca é justamente encontrar um meio-termo, um ponto de equilíbrio na convivência entre o moderno e o tradicional, pois a comunidade já vivencia esse contato em seu dia a dia. Da mesma forma, a compilação desses conhecimentos tradicionais – que constituem somente uma pequena parte da cultura de que o grupo dispõe – tem o objetivo de registrá-los para que não se percam, disponibilizando esse acervo para a comunidade indígena, com destaque para a educação escolar, mas também para quaisquer outras pessoas que tenham interesse no assunto. Além disso, esse material certamente contribuirá para que as especificidades das comunidades indígenas sejam conhecidas e respeitadas pela sociedade luso-brasileira, de modo que cada vez mais os indígenas tenham a oportunidade de sentir orgulho de “ser índio”[4], numa sociedade que, em grande medida, ainda não soube superar o preconceito e a discriminação. Parabenizo e agradeço aos autores e a todos os envolvidos nesse desafio de contribuir para a revitalização e manutenção da cultura Kaingang, e destaco, em particular, a participação da pequena Maria Paula Kẽnpri Honório, que, ainda tão jovem, já detém grande conhecimento sobre o tema e tem clareza da importância de preservá-lo. Letícia Fraga (UEPG) Coordenadora do Projeto [1] Processo CNPq no 407358/2012-9. [2] MAHER, Tereza Machado. O desejo de retorno da língua (quase) perdida: professores indígenas e identidade linguística. Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 19, n. 33, jan./jun. 2010, p. 173–184. Disponível em: http://www.revistada faeeba.uneb.br/. Acessoem: 11 fev. 2011. [3] VEIGA, Juracilda; D’ANGELIS, Wilmar Rocha da. Na sala de aula: a subversão da escola com os Kaingang. In: SEKI, Lucy (Org.). Lingüística indígena na América Latina. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1993. p. 249. [4] MAHER, op. cit.

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