A frase de impacto que abre o livro "pode-se dizer tudo da América Latina em três palavras: colonialismo, modernidade e capitalismo" sugere uma lente para entender a região. Embora não abranja todas as nuances, ela aponta para um processo de transformação contínuo, marcado por figuras rudes que levaram os países da colônia à república "através da espada, da cruz e do culto à mercadoria." A relação entre os países vizinhos não se deu por meio de seus povos, mas sim por meio de políticas de homens autoritários e arrogantes.
Isso nos leva a uma pergunta essencial presente no livro: "Que visão cada país tem da América Latina?" Enquanto outros países tinham heróis que inspiravam poder cultural e lutas políticas, o Brasil sequer possuía indígenas com relevância no cenário político, algo diferente da situação atual. Nossos heróis eram, em sua maioria, os próprios colonizadores portugueses, o que nos diferencia como o único país de língua portuguesa na América Latina. Culturalmente, a literatura de "realismo fantástico" foi importada pelas classes letradas, deixando de lado a nossa própria produção literária, com poucas exceções, talvez como a de Jorge Amado. Para os nossos vizinhos, a nossa principal referência cultural foi o cinema brasileiro, que, no entanto, é pouco aclamado fora da região. A cultura, por si só, não é uma marca forte que possa ser usada, por exemplo, como símbolo de união do Mercosul.
A verdadeira união entre os países da região se deu, de fato, com a criação do Mercosul na década de 1990. Apesar dos entraves e de nem todos os países terem aderido de imediato, como o Chile e a Bolívia, o bloco se tornou um dos maiores programas de parceria comercial isolada do mundo. Contudo, isso não significa que a região deixou de ser vulnerável às políticas norte-americanas.
Nossa identidade como continente não foi forjada por uma guerra de controle em larga escala. O Brasil, devido ao seu tamanho, muitas vezes assume a liderança, mas não com um plano de dominação como o da Europa ou dos Estados Unidos.
É essencial combater nossos fantasmas históricos, mas para isso, é preciso primeiro identificá-los, convocá-los e lidar com eles. Isso inclui guerras, colonialismo e imperialismo. Devemos remover a lente eurocêntrica e reconhecer nossa própria história. O sistema de dominação em toda a América Latina foi fundado no conceito de raça. É notável como civilizações como os maias, astecas e incas foram generalizadas como "índios", da mesma forma que ocorreu no Brasil, sendo ensinados a se ver sob a perspectiva do dominador. Os negros africanos, antes apenas uma cor, tornaram-se uma "raça sem cultura" na América, a partir do século XVI. O conceito de raça é uma construção mental, um produto da forte influência militar, política, religiosa e cultural que ainda assombra a América Latina. Os argentinos, por exemplo, ainda vivem sob essa lente eurocêntrica ao se considerarem um país europeu.
A história da América Latina é bem retratada na literatura de autores como Guimarães Rosa, Juan Rulfo, Gabriel García Márquez e Augusto Roa Bastos, que abordam as realidades do autoritarismo, genocídios, exílios e perseguições. É notável que a América Latina conseguiu se libertar de suas condições colonizadoras por meio de suas próprias iniciativas e feitos nacionais.
A percepção do povo latino-americano era intermediada por imagens que vinham de fora, geralmente da Europa e, mais tarde, dos Estados Unidos. Esse colonialismo sem fim dissolve a essência do ser latino-americano. Assim, existiam diversas Américas Latinas simultaneamente, dependendo de quem as observava. Somos múltiplos em nossa cultura, mas não aos olhos dos colonizadores, que sempre tiveram um olhar uniforme. Por isso, é fundamental entender de onde a América Latina é vista. O imperialismo e a colonização norte-americana, em particular, buscam intervir em nossas políticas, leis e governos, sempre nos vendo como simples força de trabalho, uma das piores formas de dominação.
O livro termina abordando mitos ameríndios e o princípio da diferença através desses mitos com base nas ideias de Lévi-Strauss, como estas diferenças nos constituem como povo e nação e como não estamos reduzidos ao um, sendo um ótimo livro para se pensar nosso país, nosso continente e nossa existência.