Em 1907 - ano em que se estabelece a Comissão Rondon -, a autoridade do governo brasileiro não alcançava todo o país. A falta de comunicação com as regiões afastadas já se tornara, durante a guerra do Paraguai, um problema de segurança - como manter controle sobre um território de dimensões continentais sem que houvesse uma maneira prática de transmitir ordens, receber notícias ou traçar estratégias com as fronteiras distantes do poder central? Apesar disso, quando ergueu a famosa linha telegráfica que cruzaria grande parte da bacia amazônica, Rondon pretendia mais do que criar um canal direto entre governo e província. Ao hastear a bandeira nacional em todas as estações telegráficas, ao tocar o hino em datas cívicas, ele desejava transmitir uma idéia de unidade nacional a essas regiões mais afastadas. O brasilianista Diacon descreve com riqueza de detalhes as principais viagens de Rondon pela Amazônia, além de reconstruir a aventura tragicômica que foi conduzir o ex-presidente norte-americano Teddy Roosevelt em uma das expedições.
Rondon: o marechal da floresta - perfis brasileiros
Todd A. Diacon
Rodon: o positivista
A linha central do autor é como a crença no Positivismo (uma religião excêntrica nos dias atuais, mas que foi determinante para a Proclamação do República) afetou todo o trabalho de Rondon. Ele era um postivista fanático. Para eles, a sociedade evoluiria naturalmente das crenças animalistas, para as teológicas e finalmente para a positivista. Era uma crença de superioridade religiosa, e não racial. Ele acreditava que os índios poderiam ser levados de forma natural (num período de mais de 100 anos e várias gerações) à crença positivista, sem passar pela teológica. Para isso, era necessário protegê-los e permitir que eles estudassem e tivessem acesso à tecnologia. Estudos brasileiros recentes tentam provar que Rondon foi nocivo a cultura indígena e que ele visava à destruição de sua cultura. O autor contra-argumenta que embora o Sistema de Proteção ao Índio tenha entrado em decadência na década de 1950, de 1900 a 1930, enquanto Rondon era seu dirigente, ele foi muito melhor do que qualquer outro sistema de proteção indígena no mundo. Além disso, a mentalidade vigente na época chegava até a pregar o extermínio de indígenas e a superioridade racial branca. Comparativamente ao que existia na época, o Positivismo não era tão ruim assim. Eu partilho dessa visão, se Rondon não existisse, ao invés de termos índios "aculturados" para os antropólogos estudarem, simplesmente não existiria nenhum índio. O autor também demonstra que: 1) Rondon não tinha tanto poder e não foi tão bem sucedido assim e 2) a Comissão Rondon tinha objetivos contraditórios, levar a civilização à Floresta Amazônica e proteger as populações nativas; esses dois objetivos nunca foram conciliados. Para exemplificar a falta de poder da comissão, o autor descreve o extermínio de uma nação indígena, os efoé. Para exterminá-los, os fazendeiros puderam contratar jagunços e depois o Estado de Mato Grosso reembolsava-os. Rondon protestou contra isso no Governo Federal, mas este não pode fazer nada. Os governos estaduais eram totalmente independentes na República Velha. Além disso, Rondon era francamente contra a Igreja Católica. Isso rendeu vários inimigos para ele e seu projeto.
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