E, no princípio, ela veio - Crônicas de memória e amor

    Bruno de Castro

    Moinhos
    2020
    124 páginas
    4h 8m
    ISBN-13: 9786550260484
    Português Brasileiro

    Sobre sertão, maternidade, amor e amor. Estreante no mercado editorial, o jornalista Bruno de Castro lança livro no qual costura memórias e afetos, seus e dos seus. Obra tem prefácio assinado por Valter Hugo Mãe e posfácio de Socorro Acioli O sertão onde se passa E, no princípio, ela veio, livro de estreia do jornalista cearense Bruno de Castro, é um cafundó pertencente a lugar nenhum. Ou qualquer lugar plantado na esperança de uma mulher para não ser mais uma beradêra, como se chama por aquelas bandas quem vive em casa de beira de estrada e por ela caminha na vida. Tereza, a protagonista, sim, existe. É a mãe do autor, a quem Bruno dedica o livro. “As primeiras histórias que ouvi foram contadas por ela. As mais importantes, que mais me marcaram, também. Eu cresci ouvindo causos sobre um sertão cheio de mistérios que hoje em dia não existem mais. Que a gente não vive mais. Esse livro é um jeito de celebrar a saudade do futuro e do passado”, diz o escritor. São 17 crônicas. Todas memorialísticas. Ora lembranças de Tereza, ora de Bruno. Ora dos dois, que se completam principalmente na terceira parte da obra – dedicada à velhice da mãe e narrada pela perspectiva do filho, hoje pai de quem o criou. As duas demais partes remontam episódios da infância e da fase adulta de Tereza. Muitos textos flertam com o gênero conto, com enredos que vão da ingenuidade cômica do sertanejo que encheu os bolsos de sorvete para as filhas à morbidade da mulher que bradava aos ventos ser amiga da morte, ao ponto de a companheira tê-la confidenciado dia e hora que morreria. E, no princípio, ela veio tem prefácio assinado pelo luso-africano Valter Hugo Mãe e posfácio de Socorro Acioli. Aclamado em diversos países do mundo, Valter ganhou o Prêmio Literário José Saramago e do Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura. E é apontado como forte candidato ao Nobel de Literatura. O que Bruno escreve é um encontro. Impossível ler sem sermos também convocados aos mais genuínos testes afetivos. Queremos abraçar as pessoas na rua depois de cada trecho. Bruno monumentalizou sua mãe, querida Dona Tereza, que fica erguida na Literatura para sempre, sintetiza Valter. Já a escritora cearense e também jornalista Socorro Acioli venceu o Jabuti, mais importante prêmio de literatura do Brasil. “Chorei várias vezes lendo as palavras do Bruno, o bordado que refez Tereza Brito sobre a Terra. Ela agora é mais forte, mais imensa, eterna e feita de letras. Este amor não é só deles, é nosso também. Morará para sempre em cada leitor.” Na estreia, Bruno une sentimentos longos em narrativas curtas. A vontade de abraçar o mundo dentro de páginas bordadas por histórias que mais do que envelhecem com a protagonista. E, no princípio, ela veio é um livro sobre sertão, maternidade, amor e amor. “Esse projeto nasceu do amor de minha mãe por mim e agora retorna pra ele. Pra ela, como agradecimento. Compartilhar a nossa história com o mundo atravessando esse momento tão polarizado, tão cheio de ódio, cegueira e rancor é um jeito meu de dizer que, no fim, não importa quanto tempo isso o que estamos vivendo dure, o amor vence. Num simples olhar ele vence. Eu precisei exercitar o meu olhar pra enxergar muita coisa que desaprendi e esse livro nascer. Se as histórias fizerem algum afeto nascer em alguém, numa só pessoa que seja, já valeu tudo a pena”, finaliza Bruno.

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    Anthony Almeida06/02/2021Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    Ela veio e ficou para sempre

    As crônicas de Bruno de Castro, neste 'E, no princípio, ela veio' não podem ser lidas em qualquer lugar, nem de qualquer jeito. Uma das delícias da crônica é que ela costuma ser boa companheira em filas de bancos, assentos de transporte público, salas de espera por dentistas e qualquer ambiente transitório e cheio de ruídos, impaciências e ansiedades. Para ler cada um dos textos, é preciso serenidade, paciência e silêncio. É preciso separar um tempo só para isso, para se embrenhar na história de Bruno e Tereza, a protagonista das 17 crônicas da obra. É preciso respeito e dedicação à leitura para se viajar com ela para os cafundós do sertão da memória de Tereza e do coração cheio de um querer-bem danado de Bruno pela mãe. Nem sofá nem poltrona dão conta de te imergir nessa viagem. Você vai precisar mesmo é ler se deitando, como quem se entrega e depois cai no sonho. São crônicas-portais para o sonho de um mundo doce e de uma vida boa. O ideal mesmo é ler numa rede aconchegante, que além de leito é balanço para embalar o coração da gente. Eu tô sem rede e tive que dar meu jeito de ler na cama, que é também bom aconchego. Arrumei lanterninha e li no escuro do quarto. Só a página acesa. E, na tela da escuridão, foi se desenhando, como xilogravura de luz, cada história, cada personagem e cada vivência de Tereza, que é também de Bruno e fica marcada dentro de nós. Pois ele cronica não apenas a história dela, cronica a dele também e a narrativa não é uma voz solitária, é um dueto de lembranças e vivências entrelaçadas. O livro é bonito. É um objeto bonito, com a diagramação e as ilustrações como parte fundamental da beleza do material e da contação da história. E é um conteúdo bonito, com o esmero que o filho tem ao escrever a mãe, ao homenagear a mãe e eternizar a mãe. Para ele. Para o mundo. Para a gente. O livro é um livro bonito. Bruno soube nos cronicar o que é o amor e, quanto a mim, mostrou que outra boa delícia da crônica é que ela também é excelente companheira de rede, de cama e de sonho.

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