ENGUITA, Mariano Fernández. As contradições da relação entre escola e trabalho. In: _____A face oculta da escola e trabalho no capitalismo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989, cap. 8, p. 217-240.
Serão analisadas as condições existentes entre a relação escola e trabalho, isso de forma estrutural, sua origem, complexidade e subordinação às tendências e contratendências dentro de um contexto social.
Dentro da estrutura dominante, a escola não é apenas um instrumento de subordinação estatal, mas possui autonomia e valores próprios.
Ela é capaz de moldar pessoas dotadas de inteligência e vontade através do cumprimento adotado pelo professor em relação ao seu papel social, usando da educação formal que de certa forma é seletiva, procurando sempre a divisão do trabalho.
Segundo Oliveira (2001, p.97), trabalho é “toda atividade desenvolvida pelo ser humano – seja ela física ou mental [...]” , que resulta em bens e serviços.
Dentro dessa perspectiva, a escola desenvolve um trabalho especificamente intelectual e qualificado.
Na página 219, o autor menciona alguns fatos históricos relacionados com o processo de industrialização, onde houve grandes mudanças de pensamentos e surgimento de novas idéias que separaram de certa forma o trabalho material do trabalho intelectual. Criou-se uma aversão por parte dos intelectuais pelos trabalhos manuais, fazendo com que o sistema abrigasse os jovens e as crianças a se prepararem mais cedo para a mão de obra assalariada, induzindo-os de forma ideológica a desprezarem as tarefas disseminadas pela cultura erudita. Esses pensamentos influenciaram a formulação do conceito de trabalho, que hoje é associado unicamente aos serviços de caráter manual. Hoje o mundo capitalista é movido pelo trabalho assalariado, fruto dessa ideologia.
Sendo a escola por décadas modelar apenas uma forma de trabalho – o assalariado – não garante que a mesma seja incapaz de multiplicar sua forma e capacidade de criar outras maneiras de vínculos empregatícios, capaz de suprir todas as necessidades e desejos da sociedade. “Ela deve dar condições para que se discuta criticamente a realidade em que se acha mergulhada.” (ARANHA, 1996, p. 26)
Na página 221, após ser mencionado à pontualidade do trabalhador no trabalho operário fabril, o funcionamento de escritórios e a perseverança do agricultor no concernente ao ofício, o autor faz uma analogia com a realidade escolar, onde os jovens e crianças aprendem desde cedo a serem futuros agricultores, mesmo ocultamente, devido à preservação da sistemática escolar. Nesta visão, a ideologia da escola gira em torno de levar o individuo a um preparo para o mundo do trabalho, tão somente, esquecendo que o homem pode desempenhar certa multifuncionalidade.
Dentro da realidade social, por limitar o individuo unicamente para o trabalho assalariado, a escola sempre consegui alienar, por mascarar o interesse particular da classe dominante.
No objetivo de camuflar essa realidade, foram criadas “novas formas de organização do trabalho”. Essas formas têm a capacidade de reformulação de estratégias adotadas anteriormente e que são disseminadas de outra forma na sociedade pós-moderna.
Sabe-se que pertencemos a uma sociedade democrática e capitalista com esferas diferenciadas: a econômica, o Estado e a família.
A escola e o capitalismo possuem histórias em comum. A evolução desses dois aspectos abriu oportunidades para que o cidadão fosse imposto no mercado de trabalho, um em função do outro. As diversas empresas usam nos nossos dias a escola no processo de qualificação dos trabalhadores para o manuseio de novas tecnologias que surgem de forma desenfreada. Esse interesse particular das empresas visa tão somente suprir as necessidades dos empresários em detrimento à classe trabalhadora desqualificada que é obrigada a acostumar-se com péssimos salários.
Na sociedade, a escola é pensada como uma instituição democrática (principalmente a pública). De fato, há um pouco de democracia no que concerne aos direitos do indivíduo, no entanto em relação ao seu funcionamento não há democracia, tudo isso devido ao regime autoritário que a escola carrega desde o seu surgimento.
Mesmo devido ao esforço da escola na formação de cidadãos aptos para o mercado de trabalho, fica difícil esse processo ser igualitário a todos, pois não se pode pensar numa escola unitária, mais dualística.
Para Aranha (1996, p. 26), a escola é dualística, “já que para a elite é oferecida uma escola de boa qualidade intelectual, enquanto para a classe trabalhadora resta a educação elementar, geralmente de má qualidade, com rudimentos de alguma técnica profissionalizante sem a necessária teorização”.
Como o jovem e a criança desde cedo são levados a suprirem as necessidades das fábricas ao prestar seus serviços, em ambientes escolares há uma diferenciação da realidade fabril, pois enquanto as escolas são ruins, as fábricas são piores, a sistemática leva a diferenciar trabalho e escola, já que não há uma valorização do homem pelo trabalho - como é visto em partes pela escola -, além de haver uma distanciação entre o patrão e o empregado (coisa que não é presenciado no meio escolar). Por que a escola e o trabalho sendo tão diferentes, vêm sendo tratados em conjunto como se um dependesse da outra?
Conclui-se que: sabe-se em termos gerais que o aperfeiçoamento dos trabalhos manuais ainda não é disseminado pela sistemática escolar – embora ela fosse criada para esse fim. Os trabalhos mentais ainda são matérias da escola. Ela divulga a cultura erudita de forma dualística, beneficiando uma minoria com ensino de qualidade em detrimento da maioria.
Precisa-se acreditar numa escola que leve o homem a uma visão futurística e progressiva, àquela que usa o trabalho como fator necessário para a manutenção da dignidade humana.
É preciso que todos os alunos, sem distinção, sejam indicados na compreensão dos fundamentos científicos das diferentes técnicas que caracterizam o processo de trabalho produtivo contemporâneo e que saiba avaliar criticamente os fins a que se destina o trabalho, bem como as conseqüências dele decorrentes. (ARANHA, 1996, p.26).