Sociology: A Very Short Introduction

    Steve Bruce

    OUP Oxford
    2018
    136 páginas
    4h 32m
    ISBN-10: 0198822960
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    Henrique K.07/10/2023Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    Leiam o livro com muito cuidado

    Obra redigida por um reacionário acadêmico (não necessariamente um acadêmico reacionário) e, talvez inadvertidamente, transfóbico que crê que a antropologia enquanto disciplina está relegada a sociedades "tradicionais" e acha possível ou mesmo desejável ter uma sociologia "objetiva" e livre de valores. O livro daria a impressão de ter sido concebido por um Olavo (que diabo o tenha) inglês da vida, em especial no último capítulo, repleto de espantalhos e tu quoques, se não fossem os lampejos de insights que podem ser encontrados aqui e acolá. Menos uma introdução do que um artigo opinioso defendendo uma certa maneira conservadora de fazer sociologia e, por consequência, de fazer ciência. NÃO LEIAM ESTE LIVRO SEM UM CRIVO ESPECIALMENTE CRÍTICO. Para mais detalhes, leiam esta resenha: https://www.goodreads.com/review/show/3098835811 xxxxxxxxxxxxxx Algumas observações baseadas na segunda edição de 2018: p. 4: Concepção extremamente ingênua do que é o empreendimento científico. Ao dizer que a ciência prospera quando há câmbio livre de ideias e competição (viva o livre mercado de ideias...), em contraposição ao regime malvado comunista (interessante notar que o autor apenas utiliza o regime soviético nos momentos em que quer se referir à sua anticientificidade, mas nunca ao desenvolvimento científico que a tornou uma ameaça à hegemonia estadunidense) - ou seja, ao defender uma ciência supostamente sem intervenção externa, como se ela fosse uma atividade neutra e independente -, Bruce parece ignorar todo o campo da sociologia do conhecimento científico e dos estudos de ciência, tecnologia e sociedade. Curiosamente, nas páginas anteriores ele mesmo descreve en passant as constrições e objetivos mal direcionados que empresas farmacêuticas possuem no modo de produção atual, mas, claro, Bruce não dá ênfase no fato de que isso ocorre devido à incentivo incessante ao acúmulo de capital e a outras propriedades inerentes do capitalismo. p. 5: Bruce oscila entre a defesa de uma ciência/sociologia neutra e descrições (feitas a contragosto aparentemente) de como o próprio campo da sociologia já questionou essas teses cientificistas. Interessante o modo como essas críticas perpassam o livro tal qual um espectro, assombrando a suposta objetividade que o autor tanto preconiza. Relegadas aos cantos, elas intervêm de forma indireta nos capítulos de tal forma que a escrita chega a soar desagradável e excessivamente preocupada com os fantasmas da pós-modernidade. O autor diz que está na moda a crítica de que o método científico não garante a verdade, mas não oferece nenhum argumento contrário, somente uma exortação para a sociologia se modelar à figura das ciências da natureza. p. 18: Explicação bizarra dos pressupostos da economia, resumindo-se à economia liberal. p. 30: É óbvio que escancarar a ideologia dominante não vai fazê-la desaparecer. Mas esse é apenas um dos passos, necessário e insuficiente. Concomitantemente a essa etapa, deve-se operar uma mudança material na sociedade, coisa que Bruce não gosta de explicitar. p. 49: "Such popularized versions of sociological explanations are the lifeblood of those confessional and confrontational television talk shows in which sad people blame everyone but themselves for their petty tragedies. If you cannot maintain satisfactory personal relationships, that is because your father abused you as a child. Even if you did not recall being abused, the theory of 'rediscovered memories' allows you to claim that he actually did, although you did not know it until an abuse therapist helped you to introspect in middle age." WTF??? p. 62: Visão totalmente equivocada sobre a análise de classes de Marx. Primeiro que as classes não são tão rígidas e binárias como Bruce dá a entender (vide a discussão sobre a pequena burguesia), e, segundo, as discrepâncias dentre o proletariado não implicam a necessidade de subdividi-lo abstratamente em outras classes, porque não há um ganho qualitativo nisso (a chamada classe média continua sendo trabalhadora, no fim das contas, embora com suas particularidades e ilusões ideológicas). Ou seja, mesmo dentro da "rigidez" da divisão de classes, há um fluxo interconectado e dinâmico de ideias e relações. p. 63: "This offers one very powerful reason why people did not, as Marx expected, come to see themselves as being much defined by their class: they were not in any one social place long enough." Duas coisas. Em primeiro lugar, de onde Bruce tirou a idea de que as pessoas não veem a si mesmas como definidas por sua classe? A burguesia, por exemplo, sempre soube muito bem a que classe pertencia, mesmo que a compreensão seja tácita. Segundamente, Bruce parece esquecer o papel da ideologia no mascaramento das mazelas e incentivo para adotar as ideias da classe dominante, vistas como "senso comum". Impossível levar a sério a análise do Weber, dado que ela ignora todos esses aspectos. p. 65: Muito fácil falar em mobilidade social quando se divide a sociedade nesses tipos de classes. O que isso esconde infelizmente é o controle contínuo da burguesia sobre a classe trabalhadora, que continua - haja vista o imperativo do capitalismo - sendo vítima da exploração e do acúmulo desenfreado de capital em detrimento do seu bem-estar. p. 67: "Increasing diversity, combined with the already described rise of egalitarianism, forced the state to accept cultural differences. In the leading modern countries, ethnic nationalism (which supposes that national belonging requires cultural cohesion and common ancestry) was mostly replaced by a civic nationalism which requires only that citizens obey the law, pay their taxes, and, if required, fight to defend the nation". Ingênuo, muito ingênuo. Ou o termo correto seria dissimulado? p. 70: "Changes in the economic and political structure required changes in our basic attitudes to people." Ora, ora, Bruce, usando Marx sem citar?

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