Machado de Assis passeando livremente pela construção do conto, dominando por completo um dos gêneros dos quais é um dos precursores. Contos concisos, diretos e profundamente preocupados em continuar a perpetuar o pacto com o leitor. Tratando ou não de temas ordinários, vão além, investigam desde a psicologia de suas personagens, como as mazelas de um país desigual, sua aristocracia fundada (também) na hipocrisia religiosa. Temas tão caros a Machado como a infelicidade conjugal e a morte, rondam e se mesclam em vários desses contos.
Do macro alcançasse o micro e vice-versa. Se o livro se abre com A Igreja do Diabo e se fecha com Academias de Sião, é pela magnitude além-humana e pela sondagem do místico e do épico. Os problemas são concretos no mundo da fantasia ou no mundo ficcional verossímil. Há uma gama de personagens atormentados, que, ou se automutilam ou são mutilados pela sociedade. Seja na acomodação, na fuga ou na transformação, a assombração os perseguirá feito uma sombra, sempre na espreita. Uma sombra pronta para devorar qualquer resquício de esperança. Seja o Diabo, seja um Sacristão, seja uma Mulher, seja um Homem, seja o que quer que seja, são almas condenadas à miséria humana ou não.
E, como adverte Machado antes dos contos, se as datas não importam, isso se amplifica numa leitura atual e nos faz perceber como suas histórias continuam sendo atemporais. Reflexões de um passado que é presente ou de um futuro que chegou a ser o presente, ou mesmo aquele futuro que ainda não alcançamos
E queremos? Ou evitamos? Perguntas e mais perguntas.
Contudo, tudo é ficção, como Machado sempre faz questão de avisar
Uma ficção tão bem construída, que por mais que sejamos alertados de sua artificialidade, cedemos perante seu arcabouço humano (ou mesmo divino). Ou seriam catacumbas? Eis outra pergunta.