De bala em prosa - Vozes da resistência ao genocídio negro

    Vanessa Oliveira, Gabriel Rocha Gaspar, Túlio Custódio, Tadeu Breda

    Elefante
    2020
    148 páginas
    4h 56m
    ISBN-13: 9788593115646
    Português Brasileiro

    O que dizer diante do permanente genocídio negro cometido pelo Estado brasileiro? Como descrevê-lo? De que maneira expressar a justa revolta pelo rastro de sangue que os projéteis oficiais deixam nas periferias das grandes cidades? De bala em prosa reúne textos de autores e autoras negras. São pessoas diretamente impactadas pela escalada da violência fardada no país. A gota d’água que os levou a escrever — mais uma dentre tantas que historicamente já transbordaram qualquer nível mínimo de civilidade — foi a morte de um músico e um catador de materiais recicláveis no Rio de Janeiro em abril de 2019. Negros, ambos foram assassinados pelo Exército, que disparou “por engano” o que no momento foi divulgado como “oitenta tiros” — mas que, na verdade, eram 257 — contra um carro que os militares “acharam” que tinha sido roubado. Os soldados mentiram, os governantes desconversaram, a imensa maioria da população permaneceu indiferente. Pipocos contra gente preta já viraram rotina, não causam a comoção que deveriam nem quando chegam à casa das centenas. A quem minimamente resolveu se perguntar por quê, afinal, as autoridades fariam tamanha barbaridade contra cidadãos a caminho de um chá de bebê em um domingo à tarde, os textos desta coletânea respondem de diversas maneiras, em diversos estilos e sob diversos pontos de vista, mas sempre com o peso da experiência de quem sabe que, pela cor que indelevelmente carrega na pele, está na mira do fuzil — e pode ser o próximo a engrossar as estatísticas. Eis o grito que ressoa em cada uma destas linhas. Quem escreve aqui escreve a partir de um cotidiano claustrofóbico de violência e preconceito, com raízes bem fincadas na escravidão. Angústia e sensação de impotência escorrem pelas vírgulas e pontos finais. Mesmo os textos mais otimistas estão empapados de sangue. Boa parte deles se direciona não apenas ao poder estatal que controla, reprime, encarcera e mata, mas aos poucos brancos que conseguem enxergar o racismo estrutural brasileiro, mesmo sem senti-lo ou compreendê-lo. Respire fundo. Destilado nas próximas páginas está o apelo de quem, com a garganta entalada, quis transmitir aos vivos a voz dos mortos — e dos sobreviventes. O genocídio precisa acabar.

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    Ana Sá25/11/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    "Brancos, sangrem conosco"

    Esta obra, uma das finalistas do Jabuti 2021, é um ato político de denúncia-desabafo contra o genocídio negro no Brasil, tanto que o livro não tem nem fins comerciais. O e-book está disponível gratuitamente na Amazon. O livro surgiu de uma chamada pública da Editora Elefante, motivada pelas trágicas mortes do músico Evaldo Rosa dos Santos e do catador de recicláveis Luciano Macedo, que foram fuzilados por militares em 2019, no Rio de Janeiro. Os policiais atiraram mais de 200 vezes contra o carro onde estavam Edvaldo e sua família, sendo que Luciano morreu ao tentar ajudá-los. Na ocasião, a família estava indo a um chá de bebê. Trata-se, portanto, de uma coletânea de autoria negra, com textos que expressam visões internas deste genocídio. E logo na introdução, a proposta de interlocução é anunciada: esses textos buscam por interlocutores brancos. E eu, como mulher branca, compreendi o motivo. Nós, brancos, podemos até achar que sabemos e entendemos um pouco sobre como funciona o racismo no Brasil, em especial nos grandes centros urbanos... Mas daí vem este livro e percebemos que, talvez, sabemos pouco. Que é tudo muito pior. E o recado é dado: "... não se deprimam, lutem. Nós [negros] lutamos por obrigação, vocês [brancos de classe média que acreditam num mundo mais inclusivo e solidário], por consciência. Transformem a consciência em obrigação". No geral, os autores dos textos não são escritores de ofício, por isso as formas e os estilos variam. Alguns são esteticamente espetaculares, outros são mais crus, outros são bem acadêmicos, outros são quase que a materialização de gritos de raiva, de medo, de exaustão. Este livro é uma porrada atrás da outra. Pesado porque a realidade é pesada. Repetitivo porque a violência contra os negros não tem tirado férias em grande parte do Brasil. A quem for ao livro com a lente da branquitude, aviso: se é difícil ler, imagina como é difícil viver e relatar tudo que está escrito ali... Por fim, preciso registrar que o texto de apresentação da obra já vale por uma aula de Brasil. Se você está sem tempo, leia pelo menos a introdução. É um serviço de utilidade pública a apresentação deste livro. Eu, mulher branca, vou passar muitos dias digerindo esses textos. Pesados, mas não mais do que a realidade à qual eles se referem. "Se fosse um único tiro, não haveria chamada para livro".

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