Antologia de contos de escritores portugueses contemporâneos em 1968, organizada e comentada pelo crítico literário Temístocles Linhares. Contém contos de Rogério de Freitas, David Mourão Ferreira, Ilse Losa, Graça Pina de Morais, Patrícia Joyce, Luiz Cajão, Mário Braga, entre outros.
Antologia do moderno conto português - Organizada por Temístocles Linhares
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Ver maisTrata-se de uma edição de 1968, organizada e comentada pelo crítico literário Temístocles Linhares, que faz boas apresentações dos autores, embora, em alguns casos, eu tenha achado que ele entregou mais coisas do que deveria do conto que seria lido em seguida. O livro como um todo não me agradou muito, pois encontrei ali vários contos difíceis. Esse livro me fez perceber melhor como é diversa a linguagem de Portugal e do Brasil, pelo menos a coloquial. Muitas expressões da oralidade, além de substantivos, não são de uso comum entre os dois países. Isso se torna especialmente visível nas histórias regionais, ou “de aldeia”, presentes nesse livro. Eu já tenho dificuldade com os contos regionais brasileiros, então você imagine com os portugueses. A leitura travou várias vezes e eu me vi obrigado a seguir sem entender totalmente o sentido daquilo que estava sentido. Esse é o lado negativo, mas tive também prazeres bem marcantes durante a leitura dessa antologia. O primeiro foi justamente com o conto de abertura, de Rogério de Freitas. “Partir, a tarefa acabada” é um conto lindo sobre uma mulher às portas da morte e que, deitada em sua cama, faz algumas reflexões ao seu jovem esposo a respeito da vida que viveu, achando que não a havia vivido como tinha que viver. Bem filosófico e sensível, do tipo que me atinge em cheio. Bem mais para frente, há o conto “Tal e qual o que era”, de David Mourão Ferreira, que também foi um dos destaques. Trata-se de um monólogo de 40 páginas, se bem que divididos em pequenos blocos, que se passa por ocasião do velório de uma mulher. O autor do monólogo era um amigo de infância da morta e a pessoa a quem ele destinava a sua fala era o irmão mais novo dela. Ele reconstrói, em estilo caótico, aspectos da vida da personagem, revelando as coisas ao pouco e como que por acaso, como faríamos, de fato, em uma situação real. A narrativa é muito boa e fluente – a fluência é fundamental, afinal, nesses casos de monólogo. Esse é um tipo de conto que me agrada bastante, ou seja, esses esparramos de um personagem. É mais difícil de fazer do que parece, mas, nesse caso, achei que o autor se saiu muito bem. Também merece destaque o conto “Retta ou os ciúmes da morte”, de Ilse Losa, que era alemã e vivia e Portugal, e também o conto dela fala de alemães que viviam em Portugal. O viúvo de uma dessas alemãs descobre um outro alemão em Portugal e resolve atirar em cima dela todo o drama pelo qual está passando, por achar que a mulher morta havia lhe traído. Dei-me conta agora que os três contos citados dizem respeito a uma mulher que morreu ou está para morrer, mas é coincidência. Outro belo conto que encontrei no livro é “Cristina”, de Graça Pina de Morais, texto bastante poético sobre um homem casado e os sonhos que tinha (sejam sonhos de fato ou idealizações) com a mulher que dá nome à história. Um conto que chamou a atenção foi “A maior distância”, de Patrícia Joyce, com aspectos regionais também. Fala de uma mulher cujo marido foi para a África fazer fortuna, ou buscando isso. Demorou-se lá muito tempo e, sem planejar, numa aventura repentina, a mulher acabou tendo caso com um viajante que lhe foi ver. Dele engravidou. O marido estava para voltar. O casal já tinha uma filha mais velha, a quem a mãe contou a história, e as duas passaram a orar para que o menino nascesse morto. Não nasceu, e as duas, assim que o viram, não tiveram coragem de fazer nada contra o neném. A filha acaba tendo então a ideia de fazer de conta que o filho era dela. Ela se sacrifica para salvar a mãe, sacrifica inclusive o seu namoro, pois fazer o seu namorado acreditar que o filho realmente era dela. “Pecado”, de Luiz Cajão, tem também uma trama interessante, pois uma mulher, dessas que vivem em aldeias do interior, tinha prática de fazer abortos para as mulheres da região e de repente se vê obrigada a fazer o aborto do seu próprio neto, que teve uma aventura com sua vizinha. Mário Braga com “Espólio intacto” é um momento interessante também. Uma história, em duas camadas, sobre o sujeito que havia herdado um baú do seu avô, abrindo mão inclusive do resto da herança da família, mas sem nunca ter tido coragem de abrir para ver o que estava lá dentro, pois, sendo o que fosse, representava a sua infância. Em meio a memórias de tudo o que viveu antes e após a morte dos avós, há o drama do seu relacionamento amoroso, que está em vias de terminar por ele não ter coragem de assumir compromisso. Foram esses os contos que mais se destacaram positivamente na minha leitura.
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